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O Som da Imagem

Na rota de Saint-Ex

por Redação Carta Capital — publicado 10/02/2013 10h11, última modificação 10/02/2013 10h11
Desde a morna até o funaná, cantam a rica tradição musical de Cabo Verde

Por Oliviero Pluviano

Reza a lenda que, nos anos 20 do século passado, o escritor francês Antoine de Saint-Exupéry veio com seu avião da Aéropostale de Dacar a Natal, com escala na Ilha do Sal. Nem se sabe se é verdade que o escritor-piloto se inspirou no “baobá do poeta”, ainda de pé numa rua da capital potiguar, para escrever O Pequeno Príncipe, sua obra-prima. Mas há uma certeza que poucos conhecem: há alguns anos existe uma conexão na direção contrária da TACV, a companhia aérea da República de Cabo Verde, que liga em menos de quatro horas Fortaleza à Ilha do Sal e à Cidade de Praia, a capital. Sal faz parte das seis ilhas de barlavento (com Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau e Boa Vista) que, com as quatro de sota-vento (Santiago, Maio, Fogo e Brava), compõem o arquipélago, ao largo do Senegal, independente de Portugal desde 1975.

O voo procedente do Ceará mudou consideravelmente o espírito dos seus habitantes que falam uma língua crioula misturada com o português, mas que permanece fundamentalmente incompreensível. Uma das principais festas religiosas de Cabo Verde é aquela, melancólica, da Quarta-Feira de Cinzas, quando se come o prato nacional, a cachupa, à base de milho, feijão, peixe seco, batatas e couve. Mas agora, especialmente na capital Praia de Santa Maria da Vitória, é no carnaval importado do Brasil (foto) que os habitantes se renovam com uma alegria e despreocupação antes desconhecidas neste grupo de ilhas distantes da África e da América do Sul.

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O folclore de Cabo Verde é alimentado há séculos por uma rica tradição musical da qual a “cantora descalça” Cesária Évora, famosa em todo o mundo (no YouTube, ouça a sua conhecida Sodade), falecida há pouco mais de um ano, foi apenas a ponta de diamante. Os gêneros marcantes da música cabo-verdiana incluem desde a “morna”, pela qual Évora foi reconhecida como rainha inegável, ao funaná, impregnado pelo jeito de ser dos camponeses insulares. Há, porém, outros tipos de composições, como o finançon, a coladeira, o batuque, o konbersu sabi e a tabanca, a agitarem as noites do novo bairro Platô de Praia.

O funaná não está longe do forró brasileiro: o imaginário coletivo nos diz que essa forma original de tocar nasceu da união de dois agricultores, Funá, que tocava acordeão (chamado “gaita”) e Naná, sua esposa, que o acompanhava com a percussão primitiva de bater uma faca sobre a lâmina de uma foice. Mas foi nos anos 1980 que um cantor chamado Kat-chass resgatou o funaná do interior da Ilha de Santiago, onde estava confinado, e o difundiu por todo o arquipélago, levando-o, com o grupo Bulimundo, a um boom de vendas nacionais. Ele transformou as melodias tocadas pelo pequeno acordeão de oito baixos em sucessões entoadas por sintetizadores, bateria, guitarra elétrica e baixo, e lançou uma dança semelhante à lambada, alternada por performances-solo que remetem ao lundu e à capoeira. Procurem no YouTube Katchass ku Bulimundo para ouvir o funaná evoluído e moderno do cantor que morreu prematuramente, e baixem Kompasu Pilon e Batuco da banda Bulimundo.

Outras vozes poderosas, como aquela de -Zeca Nha Rinalda (YouTube, -Dimingu Dexu), ilustram a época de ouro dessa música popular. A tendência agora é retornar a uma versão mais simples dessas canções, à gaita e ferrinho de suas origens. Ouça, por exemplo, Xô Pelada e Moças de Manguí da banda Ferro Gaita que personifica essa nova moda.

Sugiro que o leitor conheça Cabo Verde, que esconde pérolas coloniais como a Cidade Velha, declarada Patrimônio Mundial pela Unesco em 2009, primeira cidade fundada por portugueses nos trópicos em 1462. Foi escala na primeira rota de Vasco da Gama à Índia, sofreu ataques do pirata inglês Francis Drake, hospedou Charles Darwin na rota do Beagle, e ainda conserva um dos pelourinhos mais intactos da história dos escravos. Vale muito a pena visitar a Rua Banana, a mais antiga de Cabo Verde, com lindas cabanas rústicas com teto de palha, onde é possível pernoitar.

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