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Na encruzilhada entre a religião e ciência

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 09/12/2010 11h03, última modificação 09/12/2010 11h03
Editora Aleph relança obra "Os Três Estigmas", de Philip K. Dick. De 1965, é representativa da transição entre as primeiras obras do autor, mais convencionais em termos de ficção científica e a fase posterior, cada vez mais ousada e visionária

Em sua linha de (re)lançamentos de clássicos da ficção científica, a editora Aleph publicou várias obras de Philip K. Dick, ou PKD, como costumam abreviar seus admiradores. A mais recente dessas publicações Os Três Estigmas de Palmer Eldritch (248 págs, R$ 42), é também uma das obras mais interessantes desse que é o autor do gênero mais filmado por Hollywood – provavelmente pela habilidade em misturar especulações tecnológicas e parapsicológicas com questões sentimentais, religiosas e existenciais – mas não é para principiantes no gênero.

Os Três Estigmas, obra de 1965, é representativa da transição entre as primeiras obras do autor, mais convencionais em termos de ficção científica e a fase posterior, cada vez mais ousada e visionária, dedicada à exploração de temas místicos e religiosos. Está em um ponto de equilíbrio compreensível e interessante para os dois tipos de leitor, sem deixar de proporcionar a cada um a possibildade de se colocar em um ponto de vista desafiador, pouco usual.

A obra é curiosa, também, por parecer abordar e antecipar questões atuais na década de 2010, na qual, aliás, está ambientada (por volta de 2016). A Terra está superpovoada, superaquecida e cada vez mais difícil de habitar: a mera permanência sob o Sol por alguns minutos pode matar, os ricos tiram férias na Antártida e equipamentos portáteis de ar condicionado são necessários. Sabe-se que situação está piorando e num futuro não muito distante o planeta ficará totalmente inabitável e todos morrerão, mas mesmo assim continuam levando suas vidas como de costume e resistem a todo custo a ser enviadas como colonos a outras luas e planetas. Para tocar seus programas de colonização espacial, as Nações Unidas recorrem ao recrutamento compulsório.

PKD antecipava os atuais problemas do aquecimento global? Sim e não. O romance não oferece nenhuma explicação das causas do fenômeno, nem sugere se foi ou não provocado pela humanidade. O primeiro artigo científico sobre o tema, de Wallace Broecker, foi publicado na revista Science em agosto de 1975 e a descoberta do “buraco” na camada de ozônio também é dos anos 70. A ideia dessa “Idade do Fogo”, que não é central à trama, pode ter sido lançada apenas para criar estranhamento e contrariar a noção mais comum nessa época de uma nova “Idade do Gelo” ameaçando a humanidade – e só por acaso se tornou (quase) realidade.

Nas suas visões do futuro, PKD se guia muito mais por sua intuição e senso de ironia do que por especulações racionais: medos e desejos contam mais que o princípio da realidade. Por desconhecimento ou por indiferença às leis da física, sequer leva em conta o retardo em comunicações interplanetárias. Personagens na Terra, em Marte e nas luas de Júpiter e Saturno conversam em tempo real por videofone, apesar esses corpos estarem separados por distâncias que mesmo a luz (e ondas hertzianas) levam horas para percorrer.

Outro exemplo é a ampliação do cérebro através da E-terapia (“E” de evolução). Também parece antecipar o “transumanismo” dos anos 80 e 90 e as preocupações e especulações com o uso da engenharia genética para “melhorar” a humanidade, mas pelos meios “errados”. Um equipamento estimula uma imaginária “glândula de Kresy” que supostamente acelera o processo evolutivo de modo a ampliar a inteligência e poderes paranormais na maioria dos clientes, mas funciona de maneira reversa em algumas pessoas, tornando-as mais “primitivas”. Não tem pé nem cabeça em termos evolucionários e biológicos: é exemplo da pior ficção científica de gibi e o autor faz questão de enfatizar isso ao fazer a máquina ser operada na Alemanha por um estereótipo do Dr. Frankenstein, com sotaque alemão e tudo – um “judeu do tipo ex-nazista”, como dirá um personagem.

Outro tema explorado no romance é o uso de poderes paranormais. Como em muitos outros textos de PKD (dos quais Minority Report é o mais conhecido, graças a Hollywood) eles são relativamente comuns e rotineiramente empregados por governos e empresas capitalistas para prever tendências de mercado e o sucesso de novos produtos, como faz o protagonista Barney Mayerson para o patrão Leo Bulero.

O cenário também inclui táxis automáticos, controlados por computador – algo que começa hoje a se tornar realidade. A internet é de certa forma antecipada com o “homeojornal” (homeopape, no original), equipamento encontrado em romances de PKD desde os anos 1950 que imprime um jornal personalizado a partir de especificações discadas (sim, como num telefone dos anos 60) em código numérico. Como esclarece o autor em outros textos, o “homeo” é de “homeostático”, no sentido cibernético de ser produzido por um sistema eletrônico autorregulado sem interferência humana. Há também um psiquiatra portátil, “Dr. Smile”, um computador embutido numa maleta que o protagonista usa para multiplicar e agravar suas neuroses e assim tentar escapar do recrutamento obrigatório como colono interplanetário.

Mais próximo do núcleo da trama está o Can-D (“candy”, doce), alucinógeno ilegalmente vendido pelo grupo empresarial de Leo Bulero e extra-oficialmente tolerado pela ONU, do qual os colonos terráqueos em outros planetas se tornaram dependentes. O mesmo Bulero vende, legalmente, bonequinhos e miniaturas nitidamente baseadas em Barbie, Ken e seus acessórios – brinquedos que já haviam sido tema de um conto anterior, The Days of Perky Pat, ambientado em uma Terra pós-apocalíptica.

Neste romance, ao consumir a droga e contemplar os brinquedos, os usuários entram na pele da boneca “Pat Insolente” (Perky Pat, no original) ou de seu namorado Walt e vivem um consumo fútil e despreocupado numa Terra idealizada de antes da “Idade do Fogo”. É uma alienação em comunhão, visto que no grupo que consome em conjunto, todos os homens se tornam Walt e todas as mulheres Pat, compartilhando a mesma experiência e toma um caráter algo religioso.

Outra vez, parece antecipar manias do nosso século – jogos como Second Life e The Sims e o uso de avatares em sites de relacionamento – pelos meios “errados”. Mas também é uma radicalização da experiência mais tradicional de se ver um filme ou acompanhar uma novela de televisão.

O tema do romance, porém, não é nenhuma dessas tantas ideias surpreendentes. Sua função parece ser a de compor um cenário delirante de modo a predispor o leitor a ver a realidade com outros olhos e incitá-lo a pensar para além do senso comum. Também não são os problemas pessoais e sentimentais de Mayerson, que o levam a finalmente entregar-se ao recrutamento e deixar-se conduzir a uma colônia marciana.

O tema é o Mal Absoluto, trazido à baila pela figura de Palmer Eldritch, um empresário desaparecido e supostamente morto em uma viagem ao sistema solar “Prox” (Proxima Centauri), cuja nave inesperadamente reaparece e cai em Plutão. A estranha figura de Eldritch antecipa muitos personagens da ficção cyberpunk dos anos 80 e 90: seus olhos, dentes e mão direita (os “três estigmas” do título, que aludem à Trindade cristã) foram substituídos por próteses metálicas que lhe dão uma aparência inumana.

Segundo a biografia de PKD escrita por Lawrence Sutin, Eldritch lhe surgiu numa visão ao caminhar para uma cabana na qual costumava escrever: “... olhei o céu e vi um rosto. Não o vi realmente, mas o rosto estava lá e não era humano; era um vasto semblante do mal perfeito... era imenso, preenchia um quarto do céu. Tinha ranhuras vazias no lugar dos olhos – era metálico e cruel e, pior de tudo, era Deus.” A imagem tinha raízes na época em que tinha quatro anos e seu pai punha uma máscara de gás para contar histórias da I Guerra Mundial: “esse semblante metálico, cego, inumano me apareceu de novo, mas agora transcendente, vasto e absolutamente mau.” O crítico Adam Corbin Fusco sugeriu que a combinação da máscara de gás com a imagem de Eldritch inspirou George Lucas a criar Darth Vader. Quando menos, deve ter inspirado vários dos personagens mais assustadores da ficção cyberpunk dos anos 80.

Dick reconheceu que tanto Leo Bulero quanto Palmer Eldritch são figuras paternas. O primeiro, rude e inescrupuloso, mas amigável, representa um mal humano e relativo, enquanto o segundo inspira a suspeita de ser um alienígena disfarçado e se mostra diabólico e muito mais que isso. Ao retomar suas atividades, introduz um novo e mais potente alucinógeno, o Chew-Z (“choosy”, exigente), a ser vendido com a boneca Connie Companheira e acessórios. Bolero, ameaçado de falência, planeja assassinar Eldritch, mas logo se vê que os poderes do concorrente e de sua droga são muito maiores do que imagina.

A droga e os brinquedos de Bulero proporcionavam uma fuga momentânea da realidade, uma ilusão que ao mesmo tempo ajudava a suportar uma realidade difícil e afastava e adiava a necessidade de transformá-la (qualquer semelhança com uma passagem famosa do Manifesto Comunista pode ser mais que mera coincidência). Já a nova versão abre caminho a existência em realidades alternativas nas quais os usuários podem se perder por anos, talvez para sempre, ao tentar reviver suas vidas e corrigir o que nelas houve de “errado”, enquanto se passam poucos minutos no mundo “real”.

Mas todos os personagens que aparecem nesses mundos paralelos são Eldritch disfarçado e todas essas realidades se comunicam através dele. Mostra-se um demiurgo que, por meio da droga, dita o destino dos universos e de seus habitantes e desafia as noções do leitor sobre bem, mal, Deus, fé e existência. Representa, talvez, o pesadelo de uma virtualização onipotente, uma tecnologia que aos olhos humanos – demasiado humanos, embora visionários –, de PKD, representa o “mal absoluto” porque supera a própria religião e permite realizar, sem limites, tanto desejos mesquinhos e autodestrutivos quanto projetos grandiosos, mas ao preço da desumanização.