Você está aqui: Página Inicial / Cultura / 'Na crônica do cinema, não poupamos ninguém', diz Claudio Torres

Cultura

Televisão

'Na crônica do cinema, não poupamos ninguém', diz Claudio Torres

por Rosane Pavam publicado 11/06/2015 22h35, última modificação 11/06/2015 22h37
O diretor e roteirista advoga a ironia, o humor e a autocrítica para sua série televisiva 'Magnífica 70'

Transmitida até 16 de agosto em capítulos semanais, aos domingos, pela HBO, Magnífica 70 constitui um daqueles raros casos em que a televisão brasileira abandona o terreno da iniquidade para alcançar o da reflexão. A série encena o drama dos incompreendidos, dos culpados, dos homens escondidos, privados da honra quanto mais ela lhes pareça exigida, sob o suposto contexto da produção de filmes eróticos.

Os personagens são quase típicos, a atriz pornô tem um sonho, o trabalhador e o malandro produzem filmes na marra e um censor se torna cineasta, quem sabe para expiar a culpa por um mal cometido no passado. Todos mentem e se engolfam na série, todos se parecem com a vida.

Tão original para a televisão contemporânea quanto repetitiva dos ensinamentos do cinema, Magnífica 70 é dirigida por dois astros discretos da produtora Conspiração, Cláudio Torres (filho dos atores Fernanda Montenegro e Fernando Torres) e Carolina Jabor, a filha do cineasta Arnaldo Jabor que parece lidar mais de perto com a interpretação dos atores.

O essencial está em que, como diretor e roteirista, Torres não abandone aquele campo no qual Nelson Rodrigues destrói o selvagem nascido bom. O homem de Nelson, à beira da amarga revelação, é também o homem de Torres, agora a percorrer a Boca do Lixo onde se deu a produção cinematográfica independente nos anos 1960 e 1970.

Atores de brilhante estrada, como Simone Spoladore, Paulo Cesar Pereio, Joana Fomm e Maria Luiza Mendonça, aqueles excepcionais vindos do teatro, como Adriano Garib, e característicos, à moda de Stepan Nercessian e Carlo Mossy, unem-se para reencenar as ideias de Torres apresentadas em O Redentor, A Mulher Invisível ou O Homem do Futuro. Ideias essas que, nesta entrevista a CartaCapital, o diretor de 42 anos diz às vezes apresentar com as armas do golpe baixo e da autoderrisão, aqui protagonizadas pelo herói televisivo em essência, Marcos Winter.

Claudio Torres

CartaCapital: Quando este projeto começou? Desde o início a ideia era fazer uma minissérie televisiva? Por que não abordar a Boca do Lixo (um tema eminentemente cinematográfico) em um longa-metragem?

Claudio Torres: O projeto começou há uns três anos. Luiz Noronha, que era o executivo da área de TV e desenvolvimento de projetos na Conspiração, pinçou um roteiro para o cinema intitulado O Homem Liberado, uma comédia escrita por Toni Marques.

Noronha viu potencial na premissa do filme – um censor que se envolvia com o cinema da Boca do Lixo – e, juntamente com Renato Fagundez, desenvolveu um projeto de série para a HBO. Mudando o gênero para o drama, ele incrementou a trama dos personagens para que todos tivessem uma vida dupla. A HBO gostou e assinou o desenvolvimento.

Entrei no projeto para desdobrar a história em 13 episódios. Trabalhei nos roteiros com o Renato e o Leandro Assis. Queríamos fazer drama, mas o gênero drama está em baixa no cinema, enquanto a TV está faminta por ele.

CC: Sua família lutou pelo teatro e você deve ser conhecedor, por ela, de muitas dificuldades de produção e montagem durante a censura. Por que não encenar uma série em torno do teatro proibido naquele período?

CT: Esta seria uma boa outra história. Mas o cinema talvez seja mais universal e, nessa época, o Brasil gerou um muito peculiar, que depois veio a ser rotulado de pornochanchada. Uso as memórias dos problemas que meus pais enfrentaram para escrever a série. Tenho muita raiva de censores, militares e políticos que acreditam em uma Pátria protetora. 

Spoladore

CC: Você foi um espectador tardio das produções da Boca do Lixo? Das pornochanchadas, dos filmes independentes? Conheceu roteiristas, montadores, diretores? Tem predileção por autores, atores ou diretores desse momento?

CT: Em 1973 eu tinha 10 anos. Só conseguia ver os cartazes das pornochanchadas. A primeira a que assisti (com carteirinha de estudante falsificada) foi Histórias que nossas babás não contavam [de Oswaldo de Oliveira, 1979]. Não conheci nenhum dos grandes profissionais da época. Comecei a fazer cinema nos anos 1990 (depois da retomada). Dos filmes da época, acho que o que mais me impactou foi A Superfêmea [de Anibal Massaini Neto, 1973]. A Mulher Invisível tem muito a ver com A Superfêmea

CC: Há muito cinema na sua série televisiva. A ação no cemitério, a evocar as filosofias de Zé do Caixão. A iluminação sufocante de Terry Gilliam em Brazil. São referências para você?

CT: Existe muito cinema em todas as boas séries televisivas do mundo atual. O drama migrou para a TV. Terry Gilliam é sempre uma referência para mim. 

CC: Ao mesmo tempo, parece que você não perde o pé da linguagem televisiva em Magnífica 70. É principalmente um trabalho em que planos à distância quase não existem (exceto pelas tomadas dos documentários, perfeitos para situar a época). Os atores são vistos muito de perto, confinados, um contra o outro, mais do que um pelo outro, como em uma novela, ainda que tão pouco tradicional. Esta aproximação da linguagem foi proposital?

CT: É uma questão de orçamento. Quanto maior o orçamento, mais você consegue abrir o plano, sobretudo em uma produção de época. Mas as limitações acabam virando linguagem. Cacá Diegues uma vez me disse isso: “A linguagem de um cineasta é a soma de todos os seus erros resolvidos na montagem”. 

Marcos Winter

CC: Parece-me que, para você, menos não é mais. Explico. Exceto pelos diálogos quase sempre perfeitos, econômicos, inesperados, divertidos, tudo é “muito” no seu cinema. A música que nunca cessa. A expressão dos atores, sempre no cume de suas possibilidades. A fotografia, a evocar a intensidade da penumbra ou a perturbação do dia. É intencional sua busca do intenso contraste?

CT: Por mais que eu tente, nunca consigo ser realista. Acho que assisti a Terry Gilliam demais e a John Cassavetes de menos. Acaba sendo o jeito com que consigo me expressar, sai assim. Tem a ver também com a dramaturgia que escrevo e o tipo de entretenimento de que eu gosto e que tento entregar. Tensão, situações-limite e o plano psicológico estão sempre presente. Os puristas consideram isso um monte de golpes sujos e baixos, mas acho que a maioria dos espectadores é fisgada. 

CC: O que o maravilha em um ator? Você faz um trabalho intenso em relação a eles? Ou os escolhe como figuras talvez características, como faziam os filmes neo-realistas ou da commedia all’italiana, e espera que eles lhe deem o que tragam?

CT: Procuro trabalhar com atores. Gente que sabe seu ofício. Eles são a alma de qualquer obra audiovisual. Não sou daqueles que gostam de descobrir talentos. O que me maravilha nos atores é a capacidade de impregnar de verdade uma história.  

CC: Que filmes você vê e revê antes de se lançar à aventura da direção? Entende a direção como uma aventura? Quais são suas contínuas inspirações como diretor?

CT: Depende muito. Para fazer esta série, eu assisti a muitas outras, de todos os gêneros. Assisti a todos os capítulos de Lost, por exemplo. Uma série muito ruim, mas um manancial sem fim de golpes baixos. 

Magnífica 70


CC: Magnífica 70 sugere uma continuidade da sua marca como diretor. Os diálogos rodrigueanos, a narrativa tragicômica, a vida descrita como um pesadelo acordado, a fotografia escura iluminada aqui ou ali como se um holofote descrevesse um palco, a música a exaltar o espectador.  E os atores no seu ápice, deslocados de suas funções televisivas de heróis sentimentais... Parece não estarmos tão distantes assim de Diabólica, aquele curta excepcional dentro de Traição que o revelou ao público, até pela trama centrada no protagonista dominado pela força feminina de duas irmãs. Você diria que a série prossegue Diabólica? Em caso positivo, como e por quê?

CT: Nelson Rodrigues é o nosso maior autor. E ele foi amplamente filmado nos anos 1970. Magnífica tem muito do Diabólica (não tanto do conto original, mas da forma que adaptamos), mas também tem muito do Bonitinha Mas Ordinária, Engraçadinha, Toda Nudez Será Castigada, Os Sete Gatinhos e por aí vai. Nelson falava de uma sociedade reprimida e pecadora, e isso tem a ver com a série. Quanto à continuidade da minha “marca como diretor”, é o que falei acima, é o jeito que sai. 

CC: Seus narradores são sempre masculinos, atordoados, em busca de provar seu lugar. Todos vítimas de algum romance que os machuca. Mas, ao contrário do protagonista de O Redentor, preso de uma armadilha social, ou daquele de Homem do Futuro, de uma armadilha do tempo, este Vicente de Magnífica 70 parece lutar pela própria identidade, em descobrir quem é.  Seria incorreto dizer que seus filmes muitas vezes ilustram, ainda que secretamente, suas buscas como diretor?

CT: Na infância e adolescência, eu não era o popular, era o nerd, então conheço bem a dramaturgia do oprimido que tenta provar e encontrar seu lugar no mundo. Mas o que você descobre escrevendo é que você é todos os personagens. Fala e defende todos eles, masculinos ou femininos. Todos somos heróis e vilões, putas e santas, oprimidos e opressores.  

Marcos Winter e Simone Spoladore

CC: Este Magnífica 70 em que todos mentem se parece com uma análise de caráter do brasileiro. De tanto mentir no passado, ele construirá um Brasil cada vez pior no futuro... É um trabalho desiludido, como, a seu modo, a análise do período feita por Ugo Giorgetti em Cara ou Coroa, do qual, aliás, sua atriz em Magnífica 70, Julia Ianina, é protagonista. Você viu o filme? Vê paralelos com seu trabalho?

CT: A questão da mentira é algo universal. Basta ver Mad Men, Breaking Bad e House of Cards. O ser humano é contraditório. O ser humano mente. Faz parte do drama como gênero e está fora de moda no cinema, onde a questão da indústria cobra cada vez mais o final feliz, o bom e o mau bem separados, a punição dos vilões e o triunfo dos heróis. A TV tem sido o espelho para este tipo de dramaturgia, onde o herói não precisa necessariamente ser bom e nem vilão, totalmente odiado. Infelizmente não assisti a Cara ou Coroa

CC: Sua visão sobre o trabalho do diretor é especialmente amarga. Ele é quase alguém indevido ao meio. Finge reger uma máquina, mas nunca se encontra em nível de controlá-la. Tanto que até um censor pode se tornar um bom diretor repentinamente, já que as regras do ofício serão dadas por fotógrafos, produtores... Esta é uma observação sua sobre o passado se aplicaria ao presente?

CT: Na crônica que fazemos do mundo do cinema, não poupamos ninguém. Ao longo da série atacamos todos os mitos. O mito do diretor genial, maestro de tudo e de todos foi o do episódio 1. No episódio 2 demolimos os roteiristas, no 3 os produtores, seguidos dos atores, equipe, mercado.

Não vejo amargura nisso, vejo ironia, humor, autocrítica. Faz parte de humanizar, explicar uma profissão para quem não faz parte dela, e ajuda aos que trabalham com isso a se reconhecerem nela. Cinema é uma arte coletiva, no entanto alguém acaba falando por ela e, geralmente, é o diretor, mas ele fala pelo sangue de muitos. E muitos, muitos mesmo, deram o sangue por esta série.

Spoladore