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Mulheres no papel principal

por Alexandre Freitas — publicado 30/09/2010 10h01, última modificação 30/09/2010 10h01
Alexandre Freitas escreve sobre a presença feminina na música

Em sua última coluna do site de CartaCapital, Milton Nogueira fala sobre a falta das mulheres na política. Tenta entender as causas e propõe algumas iniciativas para reverter este quadro. Não tenho respostas, infelizmente. Só posso lamentar. Este texto, porém, me fez pensar na presença feminina em outro setor, bem diferente.

Esta semana tive a oportunidade de assistir a duas óperas: Carmen de Bizet e O Cavaleiro da Rosa (Der Rosenkavalier) de Richard Strauss. Apesar de estilos completamente diversos, elas têm em comum o fato de terem mulheres fortes e marcantes entre os personagens principais. Se condensarmos as qualidades de Carmen e da Marechala de Strauss, temos a mulher mais poderosa do mundo, divago. A primeira, muitas vezes, é mal interpretada. É vista como devassa, meretriz, aquela que “usa seus talentos de dança e canto para enfeitiçar e seduzir vários homens”, como diz um dos sites mais acessados do mundo, a Wikipédia (o leitor certamente sabe que nunca se deve confiar nela). As primeiras frases de Carmen já revelam que seu mote é a liberdade. “Quando os amarei? Meu Deus... Não sei. Talvez amanhã, talvez nunca...” Depois de responder à questão do grande grupo de jovens que a rodeia, ela começa sua famosa Habanera, que é uma espécie de ode ao amor. Ao amor que nega ser aprisionado ou submeter-se a leis. Do outro lado, seu futuro carrasco, Don José, apresentado pela supracitada enciclopédia virtual como “um homem honesto e decente que, ao se envolver com Carmen, vira um fora-da-lei”. Acho que Don José é, na verdade, simplesmente um militar que se apaixona por Carmen e não consegue aceitar sua vocação para liberdade. Seu mote, a culpa. Sente-se culpado por deixar a careira militar, por ter abandonado sua mãe e por não se casar com sua prometida, Michaëla. Pelo meio da ópera, a cigana previne seu amante: “Amo-te muito menos que antes. Se você continuar a agir dessa maneira vou terminar sem te amar nem um pouco. Não quero ser comandada. Quero ser livre e fazer aquilo que gosto.” Carmen é sempre fiel a sua maneira de amar e a sua liberdade. Mesmo com a morte prevista nas cartas, não muda sua conduta e aceita seus desígnios sem relutar.

A Marechala de Strauss, esta eu conheço bem menos. Somente algumas árias e as linhas gerais do libreto. Assisti com legendas em húngaro e, com as três palavras que conheço desta língua, não me foi possível segui-las. A personagem de Strauss me pareceu, no entanto, uma espécie de antítese de Don José. Uma mulher que, apesar de nutrir fortes sentimentos por um jovem cavaleiro, renuncia-o e até mesmo articula toda trama para uni-lo a sua amada e afastar um tosco Don Juan da jogada. Vale lembrar que o papel do jovem cavaleiro também é desempenhado por uma mulher.

Depois fui me lembrando de mais tantas outras mulheres das óperas: sagazes e articuladas (as damas de Falstaff de Verdi, Andina do Elisir de Donizetti, Rosina do Barbeiro), santas (Violetta de La Traviatta, Mireille de Gounod), loucas ou à beira de um ataque de nervos (Salomé, Lucia de Lammemmoor, Electra). A lista pode se estender. Não sei se conseguiria enumerar tantos e tão interessantes personagens assim no universo masculino da ópera.

Diferente da política, as mulheres na ópera conseguiram ocupar um lugar merecido, desde algumas centenas de anos. Esperemos que um dia a vida imite a arte.

Clique aqui para ver uma bela Carmen, por Maria Callas.