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'Mon iaiá, mon ioiô'

por Matheus Pichonelli publicado 14/07/2011 16h13, última modificação 15/07/2011 13h51
“Gainsbourg - O Homem que amava as mulheres” faz esforço monumental entre realidade e ficção para recontar o mito do artista blasé que, diferentemente de Wando, colecionava mulheres em vez de calcinhas. Por Matheus Pichonelli
'Mon iaiá, mon ioiô'

“Gainsbourg” se equilibra entre realidade e ficção para recontar o mito do artista blasé que, diferentemente de Wando, colecionava mulheres em vez de calcinhas. Por Matheus Pichonelli

Serge Gainsbourg fumava sozinho numa praia da Jamaica quando três moleques se aproximaram e pediram um trago. Não demorou, e todos formaram uma mesma roda, lícita ou ilícita, envoltos em fumaças e gargalhadas roucas. Pouco depois, diante da estranheza que o sujeito inspirava, os meninos perguntaram o que, afinal, o estrangeiro fazia da vida.

“Sou um cantor francês”, soltou Gainsbourg, fingindo humildade.

“Eu conheço uma música francesa!” – animou-se um dos garotos. “Chama Je T'aime...moi non Plus”.

Sem sequer erguer as sobrancelhas, o cantor e poeta respondeu: “É minha”.

A menina que estava na roda se empolgou: “Também conheço a Brigitte Bardot”. E ouve como resposta: “Eu já comi”.

“E eu conheço ‘A Marselhesa’”, disse o terceiro garoto, fechando o estoque de referência sobre o país do artista àquela altura já não tão misterioso.

“Eu que fiz” – finalizou o cantor, numa mentira que duraria o tempo de sua estadia na Jamaica, onde gravou sua versão em reggae do hino francês, numa das últimas, e quase sangrentas, polêmicas que protagonizou.

Pouco importa se o diálogo à beira da praia realmente um dia existiu. Fato é que os feitos narrados pelo personagem da ficção não só eram verdadeiros como notórios. Durante os 63 anos a mil em que esteve no planeta, Gainsbourg só não virou pároco. Do resto, quase nada lhe foi privado: talento (para pintar, cantar ou atuar), viagens, dinheiro, álcool, sucesso e mulheres, praticamente todas as que desejou – a maioria intérpretes de suas composições, como Juliette Grecó e Brigitte Bardot.

Com uma delas, viveu um romance que durou o tempo de uma canção; com a segunda, uma temporada trancado num quarto, de onde nasceram músicas insossas – como “Boonie & Clyde” – e perversões mil. Mas foi com a linda Jane Birkin, atriz britânica com quem se casou, que Gainsbourg faria seu mais famoso dueto, “Je T'aime...moi non Plus”, escândalo de sua época ao misturar sussurros de orgasmo com órgãos e baterias.

Em “Gainsbourg - O Homem que amava as mulheres, longa de Joann Sfar, o desapego à realidade é tanta que ele se permitiu emendar na cinebiografia uma espécie de id ou consciência do personagem-tema em forma de boneco: a própria caricatura de Gainsbourg, com quem o personagem conversa e passeia pelos ares (literalmente) da Paris dos anos 60. Porque o mérito do filme não é exatamente a fidelidade em levar à tela o que disse ou pensou o personagem-título, mas sim a recriação de uma atmosfera histórica, com seus bares, bebedeiras, bordéis, ruas, fumaças, vestidos e penteados – que, no fim das contas, servem como cartão de visitas do artista às gerações que o sucederam. Até porque, perto de Amy Winehouse ou do funk carioca, Gainsbourg nada mais soaria do que um monge franciscano – com direito a um coral de órgãos e sussurros. O que não impede o espectador de sair do filme com vontade de correr para o YouTube e procurar as versões originais das músicas que são, para muitos, apresentadas pela primeira vez no filme-resgate.

Ou para conferir a semelhança entre os personagens da ficção e os da vida real. Casos de Gainsbourg e Eric Elmosnino, que, com o papel, venceu o prêmio César 2011 de melhor ator.

De fato, Elmosnino consegue na interpretação fazer qualquer espectador deixar o filme com a sensação de ressaca. Com ele, e as mulheres que se equiparam ou superam as estrelas que um dia se apaixonaram por Gainsbourg, o filme de estréia de Sfar, consagrado autor de histórias em quadrinhos francês, só não consegue convencer que o personagem era algo mais do que era: uma espécie de versão francesa do Wando, cantor romântico e caricato hoje mais lembrado pela coleção de calcinhas arremessadas para ele no palco do que pela perenidade de sucessos.

Não é o caso de Gainsbourg, que, se vivo, saberia hoje o que em francês significa a palavra hype. Teve a sorte de morrer antes.

O figurino, porém, está quase lá – sai a pose blackpower dentro de uma taça de martini gigante e entra o magrelo blasé, de olhos que acusam a embriagues, a orelha de abano e o nariz fino, torto e imenso. Que, no entanto, sempre conseguiu chegar aonde quis, mesmo sendo incapaz de se ver, num filme inteiro dedicado a ele, uma única frase ou reflexão sobre qualquer coisa da vida que valesse uma citação, uma passagem, ou uma nova reflexão.

Pois nada parece contrariar a impressão de que Gainsbourg, bêbado ou sóbrio, era só um sujeito comum, boquirroto, encantador talvez, mas que passou à margem de seu tempo com suas músicas de plástico que, ouvidas hoje, mal caberiam num comercial de margarina – ou chamada para uma antiga sessão do antigo Cine Privê. Fazer música-sucesso para France Gall, a Eliana dos dedinhos da época, não era outra coisa. Mas é à margem, queimando seu tempo e seus cigarros entre polêmicas e flertes com temas-tabu – como incesto, nazismo, bandeira e nação – que o artista consegue se impor.

Não por apontar caminhos, como pretenderam certos ídolos que transgrediram e juraram ter morrido de tédio e não de overdose, mas simplesmente por cumprir seu papel como artista: entreter, cativar, e encarnar a peça que ele mesmo encenou, tanto num filme como na vida.