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Mosca na parede

por Redação Carta Capital — publicado 26/11/2010 12h47, última modificação 26/11/2010 12h47
Festival do Filme Documentário e Etnográfico, até domingo 28, em Belo Horizonte

Festival do Filme Documentário e Etnográfico, até domingo 28,  em Belo Horizonte

Por Douglas Resende

No fim dos anos 1950, com o advento das câmeras portáteis de 16 mm e dos gravadores que captavam som direto e sincrônico, cineastas dos Estados Unidos e do Canadá alcançaram lugares onde a indústria cinematográfica não ousava pisar. Esses diretores criaram o movimento Cinema Direto, cuja base ideológica era observar o mundo tal qual seapresentava mostrando ao espectador uma realidade objetiva, sem julgamentos e com o mínimo da subjetividade, e renunciando a roteiro, narração em off e trilha sonora.

“Meus filmes têm duas premissas, o uso do som sincrônico e a falta de roteiro”, disse o norte-americano Ed Pincus, de 72 anos, antes do debate no qual discutiu o cinema direto, no sábado 20, dentro do Festival do Filme Documentário e Etnográfico (forumdoc.bh). Pincus filmou, entre outros, Black Natchez (1965), sobre a tentativa de organização de uma comunidade negra do interior do Mississippi em meio à luta pelos direitos civis. “Zero emoção, assim deveriam ficar nossas expressões, enquanto filmávamos”, comentou sobre o intuito de não interferir na realidade filmada, colocando a câmera na condição denominada “mosca na parede”. O filme, além de documentar um microcosmo social da época, registra na banda sonora um sotaque da “América profunda”, excluída do universo fílmico até então.

Embora tivesse mantidoa filmagem em 16 mm e o som direto, Pincus fez algo raro dentro daquela escola. Ele “contaminou” com subjetividade um de seus filmes, Diaries (1980), em que a câmera se voltava para si mesmo, para sua mulher e filhos, entre 1971 e 1976. “Senti falta de mostrar quem está fazendo o filme, sua classe social, de onde vêm os fundos. Existem dois níveis de realidade”, justificou ele, que continuou vendo a si mesmo como um cineasta sociopolítico. “Há muito existe essa noção de que, se olharmos para o cotidiano da vida de cada pessoa, vamos perceber questões políticas”, continuou, referindo-se, no seu caso,às transformações pelas quais a família passava na época, com o feminismo e a revolução sexual. “Antes não se pensava nela por uma perspectiva política. Houve então uma grande mudança no olhar, tudo foi colocado em questão. Em retrospecto, acho que não era um assunto tão importante quanto, por exemplo, o imperialismo americano, mas havia algo relevante a ser olhado.”