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Cultura

Crônica do Menalton

Morte e Vida Severina

por Menalton Braff publicado 10/12/2012 11h57, última modificação 10/12/2012 11h57
Quando a morte é individual, e do nosso vizinho, nos sentimos parte da história

Não foi no sertão pernambucano, não. Foi aqui mesmo, aqui pertinho, em Serrana. Um menino de quinze anos matou outro menino de quinze anos. Não conheço os detalhes da história, as razões que levaram uma criança a tirar a vida de outra criança. Não tive a curiosidade mórbida de procurar saber. A notícia, vazia das motivações e revestida apenas dos aspectos trágicos do ato final, me fez lembrar do João Cabral de Melo Neto. Severino, retirante, tenta explicar o que é morte severina e diz:

 

                        E se somos Severinos

                        iguais em tudo na vida,

                        morremos de morte igual,

                        mesma morte severina:

                        que é a morte de que se morre

                        de velhice antes dos trinta,

                        de emboscada antes dos vinte,

                        de fome um pouco por dia

 A notícia do jornal, sumária, quase impassível, informa sem comentários que a vítima, depois de atingida por dois dos cinco disparos de um revólver, cambaleante andou cerca de oitenta metros e procurou abrigo em uma escola antes de morrer. Já lecionei nessa escola e, apesar do tempo que faz, isso me atingiu. Querendo ou não, estou envolvido em um crime. Em um crime infantil. E enquanto se morre do outro lado do Atlântico, e morre-se às centenas, aos milhares, somos tentados a não nos considerarmos envolvidos. Mas quando a morte é individual, e do nosso vizinho, então nos sentimos parte da história. Quem está fazendo-nos assim, não sei. Sei, todavia, que nossa sensibilidade torna-se altamente ideológica. E cada vez mais.

Não conheço os detalhes deste fato tenebroso que me comoveu, mas sei algumas coisas que me pesam. Sei que os dois estavam competindo. Qual o objeto da competição? Isso não importa. Desde cedo aprende-se que vivemos em um mundo competitivo. E somos induzidos a competir. Por tudo. Essa é a palavra de ordem da civilização que estamos preparando para os pósteros. Se você não aprende a competir, se você não se prepara para enfrentar a competição, não está preparado para a vida. Deve ser exterminado. A exaltação do vencedor, em tempos de competição, levou o exercício da competição daquelas duas crianças até o extremo: a eliminação física.

Há um outro ingrediente nesta história absurda, que, este sim, me perturba. A vítima andou cerca de oitenta metros e procurou abrigo em uma escola. Dá pra perceber? Foi uma morte emblemática. Em seus momentos de agonia, o garoto vislumbrou onde poderia ser salvo. Infelizmente viu isso já tarde demais. Também não sei se estar com o corpo dentro de um edifício faz alguma diferença. Acho que não. O corpo sem a mente tem muito pouco o que fazer por lá. Além disso, nem toda escola oferece a oportunidade de contato com a literatura.

Me ocorre, então, um conceito que o Pedro Bandeira vive afirmando. A literatura é exercício de emoções. Com o livro na mão, ama-se, odeia-se, cometem-se as mais cruéis vinganças, mas sem vítimas reais.

Estes dois garotos poderiam estar ainda na escola, competindo com seres imaginários, consumindo seus ódios em situações e competições com seres formados de palavras. Se isso tivesse acontecido, provavelmente estariam passando agora por aquele portão de ferro, conversando como amigos, sonhando com um futuro que não fosse assim tão severino.

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