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Cultura

Cartas de Portugal

Moçambique, o país dos sorrisos largos

por Eduarda Freitas — publicado 05/01/2011 11h42, última modificação 06/01/2011 17h41
Nossa colunista portuguesa, Eduarda Freitas, compartilha suas recordações de Moçambique, revividas após a morte de seu maior pintor, Malagantana.

Nossa colunista portuguesa, Eduarda Freitas, compartilha as experiências vividas em sua viagem a Moçambique

Lembro-me do calor colado à pele.
De ter descido do avião com dez horas de céu, as pernas dilatadas, o sono pesado.
Os buracos na estrada a fazerem baloiçar o cansaço. Maputo a dividir-se em duas cidades: Maputo caniço, Maputo cimento. A cidade erguida ao calor.
Deitada a repousar, barriga para o tecto, conheci a primeira de muitas osgas. Arrepiei-me. Depois fiz-me amiga.
Lembro-me do sabor primeiro do abacate. E das palavras ditas num português que só existia na minha imaginação de velhos tempos, um português certo, cuidado, cheio de delicadeza. Lembro-me também das gentes no meio das estradas como formigas num carreiro desorganizado e do meu medo de conduzir entre elas. O ritmo. O céu. O mar quente, sossegado. Os risos trocistas dos macacos. As capulanas nas suas cores infindáveis! E os calções trocados, deixados na mala, a favor dos panos simples em volta do corpo. O teatro. As palmas com alma às falas dos personagens, sabidas de cor, nos pontos e vírgulas de uma tarde de domingo para sempre tarde de encanto.
Lembro-me do sabor das mangas e do leite condensado -  menos doce do que aquele que tenho em casa -  comido à colherada em pequenos almoços de partida para um lado qualquer. E dos três quilos a mais.
Veio-me tudo aos dedos, num instante, agora que acabo de ler a morte de Malangatana, “o homem que pintava pessoas”. É assim que leio na página da Internet de um média português. E apetece-me tanto voltar a Ilhambane. E a Pemba ou dizer antes Porto Amélia, que acho o nome tão lindo. E fechar os olhos às bolachas com prazo de validade tão ultrapassado… Apetece-me muito percorrer as ruas simétricas de Maputo como se tivesse acabo de chegar, como se tivesse em cada passo o prazer de apenas o dar. De mexer os músculos, com a única e tão grande finalidade de andar, nada mais. Sem esperar por nada. E sorrir os sorrisos mais abertos que até então tinha visto. E fixar as noites quentes como retratos de trazer ao peito, para estarem sempre por perto.
Volto à página da Internet para ler algo mais sobre a morte de Malangatana, sei que estava doente, mas o destaque já foi alterado, agora leio que a confiança dos consumidores portugueses recuou para mínimos de 22 meses, ou seja, nós, os portugueses, não confiamos no nosso país, estamos no nível mais baixo de confiança desde Março de 2009, altura em que Portugal enfrentava uma recessão económica, dizem.
E já não encontro nada sobre o homem que pintava pessoas.

Eduarda Freitas