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Homenagem

Minhas memórias de Carlão Reichenbach

por Redação Carta Capital — publicado 15/06/2012 17h57, última modificação 15/06/2012 18h38
Diretor, roteirista, cinegrafista, produtor e compositor, ele fazia o que fosse necessário para se produzir um filme
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Carlos Reichenbach,

por Thiago Colás

Morreu na quinta-feira 14 o diretor de cinema Carlos Reichenbach. Nascido em Porto Alegre, mas criado em São Paulo, Carlão, como era chamado pelos amigos, era diretor, roteirista, cinegrafista, produtor, compositor e o que mais fosse necessário para se produzir um filme. Trabalhou com cineastas como José Mojica Marins e Rogério Sganzerla. Eu tive a honra e o prazer de conhecê-lo, e ainda me lembro de como foi.

Em 2005, eu fui chamado para fazer uma participação especial na Rádio Gazeta Universitária, gravando uma série de chamadas para o Festival de Curtas da Kinoforum. Uma sessão em particular me chamou a atenção. Com o nome de Sessão do Comodoro, ela ocorreria no Cine Sesc e teria uma coleção de curtas escolhidos especialmente por ele.

Foi nessa sessão de curtas que eu fiquei sabendo da existência das Sessões do Comodoro, onde o cinema extremo era exibido e estudado com o respeito que merece e nunca recebeu da grande mídia. Minha paixão por cinema, que por um período chegou a enfraquecer, ganhou força novamente, e eu me tornei assíduo frequentador.

Lá, fiz grandes amigos, conheci pessoas que me ensinaram muito sobre cinema e, acima de tudo, encontrei aquele que considero meu mentor. A cada sessão e a cada bate-papo, eu conhecia mais sobre grandes mestres do cinema que são praticamente desconhecidos entre os intelectuais do Brasil, ainda que respeitados ao redor do mundo.

E ele nunca se furtou a auxiliar os novos diretores e artistas. Várias vezes, as Sessões eram abertas com um curta-metragem feito por algum estudante ou novo diretor, sempre apresentadas pelo próprio com o maior respeito. Nos bate-papos antes e depois das sessões, qualquer um podia se aproximar e perguntar qualquer coisa, e ele responderia, ensinando e aconselhando. Mesmo quando eu era um recém-chegado no grupo, e fazia as perguntas mais idiotas, nunca me faltaram com o respeito, o que não se pode dizer de muitos círculos intelectuais nesse mundo.

Nesses sete anos, uma sessão por mês, aprendi mais sobre cinema do que em todo o resto da minha vida. E conheço muitas pessoas que podem dizer o mesmo. Frequentar o Comodoro era uma verdadeira aula da história e da técnica cinematográfica, em que éramos guiados por um legítimo mestre no assunto, que nunca permitiu que a carreira lhe subisse à cabeça.

Fora do Comodoro, também era um exemplo. Grande cineasta, defensor ferrenho do cinema nacional, e também seu maior crítico. Produziu 22 filmes, entre curtas, longas e coletâneas, todos eles de excelente qualidade. Pouco estudado e pouco falado no cinema nacional, nunca parou de trabalhar. Ainda tinha roteiros e projetos futuros, mesmo com a saúde debilitada.

Há uma semana, conversei com ele sobre alguns de meus próprios projetos na última Sessão do Comodoro e ele falou de seus próprios projetos. Trabalhou até o último dia de vida. E nesse dia 14, data do próprio aniversário, o mundo perdeu um grande artista, o cinema brasileiro perdeu seu mais ferrenho defensor, e eu perdi meu mestre.

A Sessão do Comodoro vai continuar, em memória dele. A obra sobrevive, mas as coisas não serão mais as mesmas. E nesse período de pouco mais de uma semana em que perdemos Ray Bradbury e Cláudio de Souza, mais um grande artista se vai. E o mundo perde um mouco mais de sua arte.

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