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Crônica

Minha casa, minha vida

por Alberto Villas publicado 30/09/2016 06h11
Não é fácil passar um final de semana sozinho

Quando o meu primeiro casamento acabou, depois de treze anos, jurei para os botões da minha japona que nunca mais iria me casar. Confesso que gostei dos primeiros dias. A única coisa que estranhava era chegar do trabalho, olhar lá pra minha janela e ver que as luzes do apartamento estavam sempre apagadas. Estranhava também quando abria a porta e tudo estava no mesmo lugar, como deixei. Até o copo d’água pela metade em cima da pia estava lá, intacto.

Entrava, acendia as luzes de todos os cômodos para esquentar um pouco o ambiente e sempre colocava um Roberto Carlos na vitrola. Durou um ano e meio minha vida de single e para nunca mais. Nesse exato momento, já faz 24 horas que estou sozinho nessa casa. Não que o meu segundo casamento, que já dura quase trinta anos, tenha acabado. Essa minha vida de solteiro vai durar apenas 48 horas, tempo que a minha família vai passar na Cidade Maravilhosa, curtindo o sol e o mar.

Não estou gostando nem um pouco. Parece até que o telefone ficou mudo, como antigamente. Ninguém chamou, a não ser minha mulher para saber se eu estava bem, o que eu estava fazendo, o que eu tinha almoçado. Mal sabe ela que almocei um arroz esquentado, uma farofa e uma carne assada que estavam na geladeira. Não tive ânimo, como tem a minha mulher, de fazer pratos deliciosos nos fins de semana, enquanto a empregada merecidamente descansa. Pratos como aquele medalhão com aspargos verdes na manteiga, por exemplo.

Lembrei deles porque vi que tinha aspargos verdes na geladeira e tinha manteiga também. Medalhão, nem procurei no freezer. Não me animei a picar cebola, fritar alho, nem tampouco sujar a chapa de ferro onde ela prepara os aspargos. O meu jantar foi um ovo frito em cima de uma fatia de pão de forma, rodeado de tomatinhos cereja e ketchup por cima. Pensei com os meus botões: Ô vida trash!

Nem contei pra minha mulher que esse foi o meu jantar. Achei melhor não, ela ficaria horrorizada. Disse que estava sem fome e que mais tarde comeria alguma coisa. Alguma coisa foi a fatia de pão de forma, o ovo frito e meia dúzia de tomatinhos cereja e ketchup por cima. Pensei: Ô tristeza! A minha única liberdade nessas primeiras vinte e quatro horas foi não ter arrumado a cama, não ter colocado as louças na máquina, nem banho ainda tomei.

O café, que normalmente é coado, foi um Nespresso, menos trabalhoso. Fiquei aqui em São Paulo pra trabalhar e, na verdade, não escrevi uma linha sequer de um projeto enorme que tenho de fazer. Teve uma outra liberdade, que não posso deixar de registrar. Coloquei pra fora todos os discos de Roberto Carlos e da Yoko Ono e passei o dia ouvindo os dois, com o som razoavelmente alto. É que nunca ouço Roberto nem Yoko quando a casa está cheia porque ninguém aqui pode nem ouvir falar no nome do rei, nem no da  bruxa que separou os Beatles.

Já tentei inúmeras vezes convencer minha família que Debaixo dos caracóis dos seus cabelos, Cavalgada, Fera ferida, Além do horizonteEu sou terrível são músicas bacanas, mas não convenci ninguém. Já tentei colocar o disco Season of Glass e explicar a todos que Yoko não é só gritarias e grunhidos. Não teve jeito.

No mais, repito: Não estou gostando nem um pouco dessa vida sozinho. Minha casa é uma casa sempre cheia, alegre, iluminada. Na jarra que fica em cima da mesa da sala tem sempre flores. Nesses últimos trinta anos, acho que não passamos um dia sequer sem flores por aqui. Até mesmo quando chegamos em Paris, de férias, minha mulher corre até a Rue Montorgueil pra comprar um buquezinho pra enfeitar o flat.

Quando a noite chegou, a coisa piorou. Assisti o Jornal Nacional, coisa que não tenho feito nos últimos meses. Precisava ouvir alguma voz nessa casa e a que veio foi a da minha amiga Sandra Annenberg, mas ela não estava falando comigo. Acabou, desliguei, porque não acompanho o Velho ChicoVoltei pro Roberto Carlos, agora cantando De que vale tudo isso. Ô deprê!

Até tentei começar a pesquisa o que tenho de fazer mas não consegui avançar. Acendi todas as luzes da casa pra dar um pouco de vida. Agora chega, quero voltar pra minha vida de casado novamente. Fiz as contas e cheguei à conclusão que tive apenas três alegrias hoje: Ouvir o rei cantando Eu te darei o céu, ver que as flores da jarra da nossa casa não morreram de saudade de você e, no final da noite, entrar no UOL e ficar sabendo que o meu América Mineiro ganhou do Botafogo por um a zero. 

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