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Cultura

Crônica do Villas

Minha amiga vietnamita

por Alberto Villas publicado 08/01/2016 23h57
Quem é ela? O que faz? Como vive? Quais são seus sonhos? Não sei
Reprodução/Facebook
vietnamita

Vô Thuròng, a amiga vietnamita do Face

Não sou como o rei que queria ter um milhão de amigos, mas no Face, estou chegando lá, acho. Tenho amigos de todos os tipos, visíveis e invisíveis. Gordos, magros, brancos, pretos, idosos, jovens, de esquerda e de direita. Novos amigos, amigos de longa data, amigos do peito, coisa pra se guardar. Alguns, são simplesmente amigos do Face. 

Tem uma, muito especial. Ela é vietnamita e chama-se Vô Thuròng. Não sei se é nome ou pseudônimo. Ela mora em Ho Chi Minh, a cidade que leva o nome do meu ídolo na juventude, aquele velhinho comunista de cavanhaque. Cheguei a ter um óleo sob tela dele dependurado na parede do meu quarto, em plena ditadura militar, para espanto da minha família. 

Conheci Vô Thuròng por acaso, tipo Sinal Fechado, aquela velha canção do Paulinho da Viola, que diz assim: Olá, como vai? Eu vou indo, e você?

Não sei quantos anos tem ou o que ela faz lá em Ho Chi Minh. Sei que os seus posts geralmente rimam sentimento com sofrimento, amor e dor. Falam de fugas, perdas e ganhos. Isso, se é que o Google está traduzindo direito pra mim, o vietnamita de seus recados. 

Vô Thuròng costuma curtir muita coisa que posto e vice-versa. Às vezes escreve em vietnamita, às vezes em inglês, às vezes em francês. Não sei se ela é poliglota ou traduz suas mensagens no Google de lá. Gosta também de responder com bonequinhos animados que são a cara do mundo oriental.

Desconfio que tem uma filha, que sempre aparece com ela em festas, como agora no Natal, recebendo das mãos de um Papai Noel franzino, um laptop cujo fundo de tela era uma Hello Kitty toda cor de rosa. Nem sabia que existia Papai Noel no Vietnã, quanto mais Hello Kitty.

Outro dia, senti que Vô Thuròng estava bem deprê, postando mensagens tristes umas atrás das outras. Mandei pra ela um verso do Tom Zé que gosto muito:

Trong cuộc sống, ai mất mái nhà

Đổi lại bạn sẽ có được các ngôi sao

Que, em português, significa:

Na vida, quem perde o telhado

Em troca recebe as estrelas

Ela respondeu imediatamente com o desenho animado de uma bonequinha vietnamita dançado, toda feliz.

Quando dá meio-dia, meio-dia e meia por aqui no Brasil, muitas vezes chegam fotos de pratos postados por ela. Pratos que são verdadeiras obras primas. Peixes, camarões, siris, lulas, polvos, tudo muito organizadinho em meio a legumes coloridos, alguns que nem sei o que são. Fico pensando: Se aqui é meio-dia, esse deve ser o jantar de Vô Thuròng.

Imagino que ela goste de música. Posta uns clipes de cantores vietnamitas que nunca ouvi falar. Soa bizarro aos meus ouvidos, acostumados por aqui com Chico, Caetano, Gil, Tom, Edu, Gal, Francis, acostumados com Paulinho da Viola.

Ultimamente, ela tem curtido mais coisas minhas do que o normal. Até as chacotas que faço com Aécio Neves - o  candidato derrotado que virou piada - ela costuma curtir. Fico aqui imaginando o que significa Aécio Neves para a vietnamita Vô Thuròng, a mais de dez mil quilômetros do Leblon. Nada.

E assim segue a nossa amizade, iniciada em novembro do ano passado, amizade fresca ainda.

É um sonho antigo conhecer o Vietnã. Espero um dia pegar um avião com destino a Ho Chi Minh e encontrar a Vô Thuròng de carne e osso, cara a cara. Eu, com os olhos arregalados e ela, com os dela, puxadinhos.

Acho que a primeira coisa que vou fazer por lá é completar pra ela os versos de Paulinho da Viola, que deixei incompletos naquele primeiro post:

Olá, como vai?

Eu vou indo e você, tudo bem?

Tudo bem eu vou indo correndo

Pegar meu lugar no futuro, e você?

Tudo bem, eu vou indo em busca

De um sono tranquilo, quem sabe...