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Crônica do Villas

Meus caros inimigos

por Alberto Villas publicado 11/07/2013 13h29
Para perder um amigo nesses tempos modernos basta clicar em “desfazer amizade”
Kris Krug / Facebook
Facebook

Em tempos de Facebook, a amizade ficou mais frágil

Perdi 36 amigos em menos de uma semana. Sim, num dia de fúria entrei no computador e sai desfazendo amizades a torto e a direito, bem cedo, logo que me levantei. Era 20 de junho. Não acordei bom naquele dia, acordei meio azedo. E foi assim que exatos 36 amigos foram aos poucos sendo decapitados. Talvez uma atitude cruel demais, mas verdadeira, uma realidade para mim inevitável. Daqueles que fui enumerando ainda com a cabeça no travesseiro não sobrou um sequer para contar história.

Quando era jovem ouvia muito o Milton cantando que amigo era coisa pra se guardar do lado esquerdo do peito. Escutava também o Roberto dizendo que queria ter um milhão de amigos e bem mais forte poder cantar. Não cheguei a tantos mas beirei os mil. Eram 783 amigos no Facebook. Agora, tirando os 36, restaram 747.

Na minha infância briguei muito e perdi amigos para sempre. Eram amigos de carne e osso que via todos os dias na minha rua, na minha escola. Num campeonato de Autorama em Brasília em que fiquei em segundo lugar, perdi o amigo campeão para nunca mais. Por puro ciúme, só porque o carrinho dele era mais envenenado que o meu. Sebastião sumiu na poeira da estrada, nunca mais tive notícias. Por outro lado, amigos fiz para sempre e até hoje estão bem guardados do lado esquerdo do peito.

Do meu time de futebol de salão do Bairro do Carmo eu me lembro de todos. Eu no gol, Paulinho, Pimenta, Nenenzinho, e Nilo. No banco, Eduardo, Claudio, Guilherme e Zé Carlos. Da minha rua, Suzana, Selma, Solange e Maria Augusta. Do Colégio Marista me lembro do Mauricio e do Osvaldo. Do Ginásio Caseb do Luiz Carlos, do Alex e do Max. Do Colégio de Aplicação nunca me esqueci do Toddynho. Do Colégio Arnaldo me lembro do Jack, do Sizenando, do Agnaldo, da Ângela Penido, do Salim. E da Faculdade de Filosofia, um monte: o Bessa, o Serginho, o Pieroni, o Aluísio, o Silvio, o Benjamin, o Tutti, a Mirtes, a Mercia, a Dora, a Bolinha, a Dinorah...

Nesses novos tempos, fiz muitos amigos no Face. Amigos novos, alguns já conhecidos, outros resgatados. Uns nunca encontrei pessoalmente, nunca vi mais gordos mas viraram amigos. Curto seus filhos, suas paisagens, seus pratos, suas viagens. Agora mesmo tem um que esta na Capadócia, outro em Gonçalves e um terceiro passando uns dias na Cidade Maravilhosa. Foi no Face que vi as primeiras fotografias do Daniel, da Maria Clara, do Joaquim, do Antônio, da Clarice, da Manu, da Isadora. É lá que venho acompanhando o crescimento deles quase que diariamente.

É claro que se cruzar na rua com um desses 36 amigos que perdi em junho, vou cumprimentar, ouvir e contar casos, quem sabe fazer as pazes e até tomar uma Heineken estupidamente gelada. Foi assim. Comecei eliminando todos aqueles que escreveram que “mentira tem perna curta e nove dedos”. Foram os primeiros a ir pro espaço. Depois foram aqueles que escreveram “fora Dilma já!” ou “chega de PT!”. Não queria mais ser amigo de pessoas que pensavam em derrubar a presidenta eleita democraticamente pelo povo.

Em seguida eliminei aqueles que chamaram Lula de analfabeto e os que escreveram “não queremos médicos cubanos por aqui”. Por fim, desfiz amizade com um que perguntou: “Onde anda o Suplicy? Nessas horas ele desaparece.”

Alguns perceberam na hora que foram decapitados e mandaram mensagens do tipo “nossa amizade de tantos anos não pode ser desfeita por divergências políticas.” Um chegou a escrever que era um absurdo deletar amigos só porque não pensam como eu. Claro, concordei com ele. Mas confesso que perdi a paciência de ler coisas do tipo “esse governo que dá bolsa miséria pra vagabundo” e, sinceramente, não queria mais ser amigo de gente que quer acabar com os partidos e fechar o Congresso.

Aos poucos sei que vou fazer novos amigos. Curtir a foto da feijoada deles no sábado, do gato brincando com o novelo de lã, do cachorro cochilando no sofá, do por do sol no Arpoador, dos pés descalços na areia branca de Ipanema. Até que a política nos separe, que eu acorde azedo novamente e vá direto no tal do “desfazer amizade”. É um pouco cruel, um pouco triste mas é verdade.

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