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Cultura

Crônica do Villas

Meus caros amigos

por Alberto Villas publicado 21/03/2013 10h38, última modificação 21/03/2013 10h42
As manias de quem usa o Facebook para postar fotos de árvores, pratos, telhados, engarrafamento e capas de revista. Por Alberto Villas

Demorei meses, muitos meses para decidir e entrar no Facebook. Depois de muita insistência das minhas filhas criei coragem e entrei, ou melhor, mergulhei de cabeça. Não participava da rede  por puro preconceito, achava que Facebook era um  lugar onde as pessoas viviam dando bom dia ao dia, bom dia ao sol, ou simplesmente dizendo “ai que fome”, “ai que preguiça...”

Foi no dia primeiro de setembro de 2010 que estreei no Face, é assim que o chamo hoje por já ser intimo dele. Postei a capa do suplemento Aliás que trazia um colorido Peanuts surfando, personagem do genial Charles Schulz. O meu comentário: “Pra começar, a capa do suplemento cultural do Il Manifesto, jornal do Partido Comunista Italiano, o tal comunismo que os leitores do Estadão morrem de medo...”

Três pessoas curtiram e três comentaram. Paulo disse: “Variação sobre o tema: perguntei pra doméstica aqui de casa o que está achando das tais quebras de sigilo fiscal. Ela disse: Heeiiinnn?
Acho que o Serra não ganhou nenhum voto.” Tiago comentou:  “Os leitores do Estadão morrem de medo do Lulismo, que está muito longe do comunismo...” e Cecília concluiu: “ As coisas mudaram muito e quero crer que nós ajudamos”.

Nesse dia tinha apenas nove amigos, todos do peito. Hoje são 683. Muitos foram eliminados tipo BBB e acho que muitos me excluíram, me queimaram nessa fogueira das vaidades. Se você me perguntar se não é muito 683 amigos no Face, digo com toda convicção que sim. Mas já soube que tem gente com um milhão de amigos, lembrando aquela velha canção do Roberto. Alguns caíram do céu mas confesso que me divirto com eles, mesmo sem saber se são altos, baixos, gordos ou magros porque a foto ao lado do nome muitas vezes é de um Banana de Pijama, de um Schrek ou um Peanuts como aquele na capa do suplemento Aliás do Il Manifesto.

Me divirto porque é só bater os olhos na tela que já sei quem são. Tem uma que só posta fotos de cachorros. De todos as raças, em todas as poses. É Galgo, é Cocker Spaniel, Beagle, Yorkshire Terrier ou um bom e velho vira-lata coçando suas pulgas. Cachorro de lencinho, de óculos, de sapatinho, dormindo, pulando, comendo os pés do sofá.

Uma outra posta fotos de gatos. Brancos, pretos, ruivos, pardos. Gatinhos simpáticos, gatinhos fofos, gatinhos fazendo arte, de lacinho, tem de tudo. Mas sempre gatos. Um outro só posta fotos de tetos. Sim, tetos. De casas, apartamentos, fazendas, restaurantes. Tetos com lustres de cristal, com ventiladores, grafitados ou mesmo sem lâmpadas mostrando apenas fios soltos e desencapados saindo de um buraco. Tenho um amigo cujo prazer é postar fotos de azulejos. Portugueses, coloridos, quebrados, lascados, bonitos ou feios mas azulejos.

Tem aquele que posta árvores, tem aquele que só posta praias, só os filhos, só o sol ou o céu armando chuva geralmente com cinquenta tons de cinza. E aquele que só posta engarrafamentos? Sim, tenho um amigo que – acho – mora num engarrafamento. Vive numa selva de automóveis parados como se fosse um personagem daquele conto do Cortázar. Quando vejo a foto com um mundaréu de carros enfileirados já sei que é ele. E o comentário também é sempre o mesmo: Que inferno!

E aquele que só posta pratos de comida? Paelhas com camarões quase pulando da panela, steacks tartares de ar água na boca, bacalhau à Gomes de Sá, bife à milanesa com creme de espinafre acompanhado de fritas sequinhas, sem contar as mil e uma massas, os cremes brûlées e os brounies com aquele sorvetinho escorrendo do lado.

Tem mais. Tem aquele que gosta de citações. Citações de Cecília Meireles, de Mario Quintana, de Marx, de Cora Coralina, Cazuza, de Renato Russo e de vez em quando, Shakespeare. Isso porque ainda não falei daquele petista vermelho que só fala bem do governo e daquele tucano roxo que lembra FHC todos os dias. Claro que tem aqueles que continuam guardados do lado esquerdo do peito e que postam coisas geniais.

Mas outro dia apareceu um que começou a postar capas de revistas. Foi ai que senti na pele a concorrência. Pensei com os meus botões: Poxa, tem gente me imitando aqui no Face. Eu que naquele primeiro de setembro de 2010 postei a capa do suplemento Aliás do Il Manifesto achando que nunca na história desse país alguém tinha postado capa de revista no Face.

Confesso que hoje fiquei meio deprimido quando soube que o Brasil que já tem mais de 67 milhões de usuários no Facebook e desses uns 18.745.344 com a mania de postar capas de revistas como eu. Acho que daqui pra frente só vou postar fotos de cachorros, gatos, azulejos, tetos, árvores, engarrafamentos ou então pratos de comida. Acabei de sentar na mesa de um restaurante e tenho certeza que esse risoto de aspargos vai sair bem na foto.