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Cultura

Crônica do Villas

Meu tio João

por Alberto Villas publicado 11/04/2013 09h56, última modificação 11/04/2013 09h56
Me lembrei dele ao abrir um velho exemplar da revista Piauí e ver uma ilustração de Al Parker. Tinha tudo a ver com ele
tio joão

Meu tio João. Foto: Arquivo/Alberto Villas

Meu tio João, irmão do meu pai, era uma figura única, um desses tipos inesquecíveis. Cheio de obsessões, a maior delas era andar com os sapatos pretos impecavelmente polidos. Quando digo sapatos pretos impecavelmente polidos eram sapatos clássicos da marca Clark. E a graxa que ele passava todos os dias neles tinha de ser da marca Nugget, não servia outra. Para isso, tinha um kit de madeira forrada de veludo vermelho com uma escovinha para passar a graxa, uma maior para lustrar, uma flanelinha amarela, uma lata de Nugget, além de outra escovinha pequena para limpar com água e sabão o solado do sapato.

Mas isso não era nada.

Meu tio João era mesmo cheio de manias. Gostava de óperas, principalmente Carmen de Bizet que ouvia todas as noites em seu gramofone. Colecionava a revista Seleções do Reader’s Digest em português desde a número 1. Só não tinha a de junho de 1952 que se perdeu no correio e ele nunca mais a recuperou. Só usava meias pretas, calça de tropical inglês e uma camiseta branca por debaixo da camisa pele de ovo azul clarinha com as iniciais JV bordadas no bolso direito. No cabelo usava brilhantina Myrurgia e só podia ser Myrurgia.

Mas isso não era nada.

Meu tio João vivia entre quatro cidades. Cataguases, Juiz de Fora, Belo Horizonte e a Cidade Maravilhosa. Ele nunca se casou. Sabíamos que ele tinha uma amante, mãe de um menino chamado Ivo ou Ivan, ninguém nunca soube direito o nome do garoto.

Quando ele chegava a Belo Horizonte para passar uma temporada na casa dos meus pais, ficava no quarto de hóspede. Na casa dos meus pais tinha um quarto de hóspede que também chamávamos de quarto de tio João. Uma cama patente de solteiro, lençóis e toalhas brancas, uma cadeira, uma escrivaninha de madeira de lei e um abajur de conchas sobre ela.

Meu tio chegava e a primeira coisa que fazia era colocar em cima da cadeira a mala de couro que apesar de forrada fedia, cheirava mal como a mala do Caetano na canção O dia que eu vim-me embora. Quando ele entrava no banho para tirar a poeira do corpo nós íamos lá bisbilhotar. Ele sempre trazia as mesmas coisas dentro daquela mala. Além do kit, duas calças de tropical inglês, quatro camisas pele de ovo azul clarinha, três meias pretas, três lenços de pano xadrez e quatro cuecas de algodão, brancas.

Trazia também o exemplar do mês da Seleções, o aparelho de barbear da Gillette, o creme, a Água Velva, um pente Flamengo sobressalente novinho em folha ainda dentro do celofane e um espelhinho de bolso com a imagem no verso de uma mulher nua sem pelos, uma loura sueca. E também um diário escrito à mão num caderno Avante, aquele que trazia na capa escoteiros empunhando uma bandeira brasileira.

Eu me lembrei do meu tio João porque ao abrir um velho exemplar da revista Piauí na página 66 vi uma ilustração de Al Parker que tem tudo a ver com ele. Um dia li no seu diário que depois de fazer sexo com sua amante, ela sempre fumava uns dois cigarros Minister e ficava um bom tempo olhando para o teto procurando imperfeições na cal. Quando bati os olhos nos sapatos pretos impecavelmente polidos, pensei com meus botões: Esses sapatos da marca Clark só podem ser do meu tio João.