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Crônica / Matheus Pichonelli

Meu caro Matador

por Matheus Pichonelli publicado 08/11/2013 08h33, última modificação 09/11/2013 10h30
Em 1993, o atacante Evair tirou meu time da fila. Em 2003, com uma entrevista por telefonema, me ajudou a não desistir do jornalismo. Por Matheus Pichonelli
Ilustração: Agência Palmeiras
Evair

O atacante Evair Aparecido Paulino, em ilustração do site Agência Palmeiras (http://www.palmeiras.com.br/paulista93/entrevistas/)

Em maio de 2013, completei dez anos de profissão. Passei os últimos seis meses pensando no que dizer a respeito e resolvi não dizer nada. Em 2013, o Palmeiras completou 99 anos, saiu pela segunda vez, após dez anos, da Série B e celebrou 20 anos de sua conquista mais simbólica: o Paulista de 1993. Também não escrevi nada por imaginar que as efemérides só serviriam aos torcedores, e mais ninguém. Mas o ano (e que ano) está no fim, o centenário está às portas, o mundo não acabou e a lua e o conhaque deixam a gente comovido feito o diabo para escrever e lembrar, e lembrar para escrever. Como não sei se comemorarei 20 anos de profissão, volto àquele maio de 2003 como quem volta a um ponto de origem.

Naquele mês aprendi na marra a bater ponto, cumprir horário, obedecer ordens e não estranhar a economia de elogios ao fim de uma tarefa. Foi o meu primeiro emprego. Tinha 20 anos, estudava jornalismo de manhã e ciências sociais à tarde - por pura incapacidade de escolher um caminho definitivo - quando surgiu a oportunidade de trabalhar, à noite, no site da Gazeta Esportiva, tradicional jornal de esportes que acabava de migrar para a versão eletrônica. Foi, como na música de Zé Geraldo, um tempo de aflição: eram quatro conduções até a faculdade, duas pra ir, duas pra voltar. Às seis da noite em ponto (às quartas, dia de rodada, chegava às sete) atravessava o corredor da redação, a única que conhecera até então, após abandonar alguma aula de sociologia ao meio, tomar o primeiro ônibus, fazer a baldeação até o metrô, chegar em casa, tomar banho, trocar de camisa e beber um copo cheio (copo, não xícara) de café para espantar o sono, geralmente ao som de um velho CD do Chico Buarque. Não tinha hora para sair.

A redação era acarpetada, tinha divisórias de vidro e fórmica, pôsteres de esquadrões e capas históricas afixadas na parede, quatro tevês ligadas no noticiário e paredes de vidro com vista para a Avenida Paulista. “Então é isso o jornalismo”, pensava comigo. Caçula da equipe e recém-chegado a São Paulo, olhava com certo pavor a facilidade com que meus colegas mais experientes pegavam o telefone e ligavam para jogadores, treinadores, dirigentes, empresários. Via-os voltando dos treinos e jogos com os fotógrafos, alguns queimados pelo sol, com o bloco de notas aberto e prestes a ser transportado para um sistema de edição que eu aprendia a manejar a duras penas.

Era tanto estranhamento que nem tinha fome quando me juntava aos colegas, lá pelas oito ou nove da noite, para destacar meu talão de VR e anotar num papel o prato do dia – um lanche de queijo e tomate dia sim, outro também. Um de nós recolhia os pedidos e telefonava para a padaria. Foi quando aprendi a comer, escrever e a olhar a tela do computador ao mesmo tempo.

No começo, minha missão era fazer notas dos times que ninguém queria saber. Acompanhava disputas das Séries A2, A3 e ad infinitum de descenso do campeonato paulista, fluminense, baiano, potiguar. Às vezes me passavam algum jogo da primeira divisão – algum jogo de menor importância que só valeria acompanhar pela tevê, e não no estádio. Fazia também o minuto a minuto das partidas: contava aos leitores os melhores lances do jogo da tevê fechada em uma época em que smartphone era ainda coisa de alienígena.

E vi, logo de cara, que não servia para aquilo.

Quando acabavam os jogos, eu travava. Não sabia como começar o relato e o texto ficava entre o péssimo e o pior que péssimo. Como Álvaro de Campos, me perguntava como poderia falar com meus superiores sem titubear. Minha insegurança me escapava por todos os poros, e quanto mais tentava disfarça-la, mais cretino parecia.

Quando entrei na faculdade, imaginava que poderia escrever versos enquanto trabalhava, e logo percebi que o jornalismo, como o esporte que começava a cobrir, pedia precisão e foco, concentração e disciplina, rigidez e desapego; não tardei a descobrir que quem assina não está habilitado a brilhar mais do que o objeto descrito. Guimarães Rosa definia o jornalismo como a arte de escrever na areia: passa a onda e leva as letras todas embora. A literatura, sua praia, era cravada em pedra – e eu desconfiava não ser capaz de escrever nem em pedra nem em areia.

Tanta apreensão me fazia chegar em casa com um cansaço diferente daquele conhecido na sala de aula. Era um cansaço amargo, com a sensação de ter esquecido algo, com algum esporro, delicado ou não, ainda espocando no ouvido, e a sensação estranha de ter algumas poucas horas entre o descanso de sono leve e a maratona do dia seguinte. Cada vez que via meus colegas chegando dos treinos entre risos com seus bloquinhos, mais me angustiava com minha incapacidade de ler, escrever, mastigar, digerir, respirar, conversar, rir e relaxar em meio ao turbilhão.

Tudo o que eu queria, ao fim do trabalho, era voltar para a minha cidade natal, Araraquara, me enfiar debaixo da cama e só sair de lá quando o último cometa do último Apocalipse passasse pela Terra.

Até que um dia recebi na minha caixa de e-mail uma mensagem inesperada. A assessoria de imprensa do atacante Evair acabava de anunciar a aposentadoria do camisa 9. O release tinha uma observação acima do telefone para contato: ele estava disponível para entrevistas.

Levantei para tomar água. Dez anos antes, Evair Aparecido Paulino havia sido responsável pela maior conquista simbólica da minha formação como torcedor. Aos 10 anos, pouco ligava para futebol: na escola, dizia por dizer que era palmeirense. Era filho de palmeirense, neto de palmeirense, irmão de palmeirense, sobrinho de palmeirense e não tinha outra resposta a dar aos colegas corintianos e são-paulinos, tão ricos de conquistas recentes. Ouvia-os cantar os hinos de seus clubes, mas não me sentia tentado a engrossar o coro. Gostava de dizer que era palmeirense, mesmo não praticante, como gostava de dizer meu sobrenome. E me incomodava, de leve, com os apelidos sobre filas, jejuns de títulos e porcos italianos.

Certa tarde, porém, vi pela tevê, em meio a um churrasco em nossa chácara, um tal Viola marcar um gol contra o Palmeiras e imitar um porco na comemoração. O deboche azedou o churrasco. Na volta para casa, passamos com a camionete por uma prévia de comemoração rival no centro da cidade. Meu pai resmungava, meu irmão se esmurrava, meu vô xingava e nosso cachorro, Tupi, chorava por causa dos rojões. E eu me perguntava que diabos de time era aquele a fazer minha família toda sofrer tanto. Soube, então, que haveria volta, um jogo de volta, e que nem tudo estava perdido. Naquela semana vesti a camisa e torci como nunca na esperança de ver meu vô, meu tio, meu pai, meu irmão e meu Tupi pararem de chorar e passarem a sorrir. Foi a primeira vez que fiquei em dívida com Evair, o centroavante autor de dois gols na vitória por 4 a 0 sobre o Corinthians, o último deles com um pênalti preciso. O resultado libertou minha família, e todas as famílias torcedoras daquele time, de uma fila que se cria infinita.

Dez anos depois, tão ou mais angustiado do que naquela tarde de 93, avisei os meus editores que o herói daquela conquista estava se aposentando, o que renderia, pensei, uma boa entrevista. A ideia era passar a bola para algum colega mais habilidoso, mas como resposta recebi a própria camisa 9: “Legal, liga pra ele, combina a entrevista, e manda ver”. Com uma pequena ajuda dos veteranos, que de colegas começavam a se transformar em amigos, fiz uma lista de perguntas e peguei o telefone.

A entrevista aconteceu naquele mesmo dia. Por estranho que pareça, não tremi como esperava, menos por uma maturidade repentina e mais pela voz do outro lado do telefone que me atendeu prontamente, respondeu a todas as perguntas e não se importou, ou fingiu não se importar, com os indícios de que do outro lado da linha havia um foca, no jargão jornalístico, ou juvenil, no jargão futebolístico. Pois foi uma pergunta de principiante que me rendeu o título da manchete do nosso site. Evair brilhou no Palmeiras, mas iniciou a carreira no Guarani, foi campeão brasileiro pelo Vasco e debandou para o São Paulo após ser escanteado naquele que seria o jogo da sua vida: a final do Mundial Interclubes contra o Manchester United, quando foi banco do Asprilla – decisão que tinha tanto sentido quanto deixa-lo de fora da Copa de 94. Hoje parece uma pergunta óbvia, na época não me parecia: “qual desses times você mais amou?”. A resposta veio como uma cobrança de pênalti sem titubeio: “De todos, o Palmeiras é minha grande paixão”. Abri um sorriso do outro lado da linha, e cravei a frase como título – em tempo: por mais que busque, o link da entrevista simplesmente desapareceu no naufrágio de informações chamado internet.

Desde então passaram-se outros dez anos, e precisaria de outros dez para narrar a alegria de cavar minha primeira entrevista e assinar meu primeiro texto. Era o início de uma satisfação que não se esgota com o tempo: fingimos que não, mas ganhamos o dia quando nosso texto vira manchete, ganha destaque, repercute. (E, aos 20, 30 ou 99 anos, temos vontade de beber quando o abre de página vira nota de rodapé). Naquele dia percebi que o jornalismo era uma possibilidade de atravessar uma fronteira aparentemente absurda entre o menino que assistia, aplaudia e comemorava os gols de seu ídolo e o profissional que começava a conhecer aquele mundo de perto. Um mundo, como qualquer outro, composto de carne e osso.

Ao fim da entrevista, o ídolo – que, como o fã, também enfrentava um momento de dúvidas, no seu caso sobre o futuro como treinador – se despediu com a seguinte frase: “Fica com Deus”. Tudo me era muito familiar: aquela era a forma como meu pai, que ele ajudou a libertar em 93 pela tevê, se despedia de mim ao telefone. Vários mundos pareciam interpostos: Araraquara, São Paulo, Parque Antártica, Tóquio e Crisólia, onde Evair nasceu.

Em 2003, ao fim do nosso primeiro calvário após o rebaixamento, eu era um garoto que começava a se desgarrar dos ídolos da infância, a começar pelo futebol. Mas ressuscitava, naquele dia, a admiração por quem marcou a carreira, recém-encerrada, sem ter ensaiado uma única firula. De todos os jogadores do time de 93/94, e posteriormente de 99, Evair era o mais sério, mais seco, menos plásticos e mais mortal. Corria para a bola com a seriedade de um soldado. Era econômico no gesto e na ação. Quando cobrava pênalti, era impossível saber o lado que escolheria; só ele tinha a ciência do destino da bola, que fatalmente morreria séria, e reta, em algum canto. Cavadinha, para ele, era palavrão.

Era essa ação sem firulas que o jornalismo me cobrava: “não importa que você escreva na areia; simplesmente escreva”. Mal sabia eu, ao desligar o telefone, que me livrava de um peso acumulado por meses: o peso do medo da frustração. Só me livraria dele de vez quando escolhesse logo um canto e deixasse de filosofar sobre a bola. Navegar é preciso, viver não é preciso, diria Fernando Pessoa.

Dez anos depois, lembro daquele ponto equidistante entre a conquista de 93 e os dias de hoje e me pergunto se não teria de fato me escondido debaixo da cama até o Armagedoon se não fosse aquela entrevista, uma entre tantas que ele concedeu na vida, e entre tantas que mal deve se lembrar. Muita coisa mudou desde então: não há mais chácara, não há mais camionete, não há mais Tupi, meu pai virou avô e meu avô já não vive; o Palmeiras não é um supertime, mas o jejum não é tão longo. Eu, por minha vez, arrisquei algumas notas no jornalismo esportivo, conheci alguns estádios, entrevistei outros atletas, bandeei para as editorias de política, cidades, sociedade e agora cá estou: escrevo de vez em quando uma crônica ou outra, algumas sobre futebol, mas passo a maior parte do tempo ajeitando textos, pinçando títulos, escolhendo fotos, organizando destaques e orientando quem chegou à profissão depois de mim: “a notícia está no pé”; “falta ouvir fulano”; “esse número está estranho, vamos checar” - em resumo: "escolha logo um canto para a bola e chute, sem firulas".

Com o tempo a gente descobre o prazer do passe a gol, como um certo centroavante que de Matador virou Garçom. Sou grato por ter feito tantos amigos na profissão, e duas vezes grato por ter me desfeito de outros, e não foram poucas as vezes que pensei em desistir – uma vez me pautaram para cobrir uma suposta onda de sequestros de poodles em Higienópolis; voltei de lá sem história alguma, como não poderia deixar de ser, e com uma manada de dúvidas sobre que diabos fazia da profissão. É uma pergunta recorrente, como quando tudo se resume a debater se o rei do camarote é real ou de mentira. Nessas horas me lembro de 93 (os corintianos, por direito, se lembrarão de 2012 e os são-paulinos, de 2005). E me lembro, sobretudo, do telefonema de 2003, quando ganhei sobrevida e comecei a desconfiar a duras penas – pela bola, pela pedra ou pela areia – que a vida na profissão, como o esporte, não aceita firulas, mas pode ser bem mais interessante do que parece. Foi minha segunda e definitiva dívida com o maior centroavante que vestiu a camisa do meu time.