Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Meu amigo angus

Cultura

Refogado

Meu amigo angus

por Marcio Alemão publicado 03/02/2013 08h51, última modificação 06/06/2015 18h56
Antes de fincar os dentes no sanduba decidi cumprimentá-lo. Fomos amigos até que, envelhecido, ele caminhou para o lixo

Foi um bom amigo. Juntos, vivemos lindos momentos, mas tivemos de vencer o preconceito, a animosidade e a ignorância cega da maioria dos insensíveis habitantes deste planeta. Quer saber como tudo começou? Muito bem, eu vou contar.

Era uma bela noite deste novo e agradável janeiro do ano de 2013. Estava com minha filha e havíamos feito uma visita para a outra filha. Na saída, a filha com quem eu havia ido visitar a outra filha sugeriu: que tal um sanduba no Mc?

E por que não? Minha esposa nos forneceu 62 argumentos para não irmos. Nenhum nos impactou de maneira contundente a ponto de desistirmos da ideia. Lanches pedidos e entregues, seguimos em direção ao lar, doce lar.

Minha pedida: um Angus Deluxe. Não é muito chique poder comer um sanduíche “Deluxe”? E digo mais: essa carne, a de angus, é boa. Muitas vezes neste Refô manifestei minha simpatia para com alguns sandubas do Mc. E no quesito batata frita eles são praticamente imbatíveis.

Mas dessa vez o encantamento rolou de outra maneira: percebi, no momento em que abri a caixinha, que havia alguns dizeres na lateral da mesma. Reproduzo o texto na íntegra: “Diga olá ao suculento e saboroso hambúrguer com a melhor carne angus. Mas não pare por aí. Existem combinações de dar água na boca. Parece ser o início de uma saborosa amizade”.

Essa mensagem me tocou e, antes de morder o sanduba, decidi dizer “olá” ao suculento hambúrguer. Acredite se quiser, mas o burger se emocionou e confessou: “Sabia que o senhor foi o primeiro a me cumprimentar?” “Me chame de você”, disse eu. “Afinal, se vamos ser amigos...” “Sério??!!”, pulou exultante o meu novo amiguinho. “Sim. Aliás, você não gostaria de dar uma volta? Eu, você e meu cão?” “Ah! Eu adoraria.”

Naturalmente, não foi simples convencer meu cão a não morder meu novo amiguinho, mas depois de uma boa conversa ele se convenceu. Passeamos bastante, até que paramos na locadora de vídeo e ele foi correndo me mostrar que um primo era um famoso astro de Hollywood e havia sido um dos protagonistas do filme Tá Chovendo Hambúrguer. Meu cãozinho, enciumado que estava, apareceu com um DVD na boca e entregou-o a mim. Ainda fui tolo e o parabenizei, mas quando me dei conta lá estava o devastador Super Size Me. Nesse momento, todos que estavam  presentes na locadora lançaram seus fulminantes olhares para o meu amiguinho angus burger, que, claro, saiu em prantos e em desabalada carreira.

Chamei a atenção do cachorro e corri atrás do sandubinha. “Espere, pare, não faça nenhuma loucura.” Meio segundo a mais e ele teria se atirado sob as rodas de uma bicicleta. No banco da praça, mais calmo, contou-me sobre o preconceito do qual tem sido vítima. São muitas as mães que não deixam mais seus filhos chegarem perto dele e de seus familiares. “Você diria que eu sou um assassino silencioso?” Tentei explicar que o mundo é cruel e obtive algum êxito, pois ele voltou a sorrir.

Levei-o para casa, tomamos banho juntos e fomos deitar, e antes de dormir ele se encantou com o programa Top Chef. No dia seguinte, levei-o ao trabalho e o apresentei para meus colegas. Um deles, aliás,  por quem não tenho grande simpatia, chamou-me no canto e com muita malícia quis saber: “Tá comendo?” Em vez de me sentir ofendido, achei a pergunta muito bem colocada e aproveitei para pedir a atenção e a palavra. “Vocês não acreditam na amizade? Não acreditam na pura e verdadeira amizade? Vocês, meus caros, pertencem àquele tempo pré-histórico no qual não poderia haver amizade entre um homem e um hambúrguer. Mas esse tempo ficou para trás.”

Minhas palavras caíram como uma bomba naquela sala. Angus burger, meu camarada, abraçou-me com força e vi que seus olhos estavam cheios d’água.

Durante semanas vivemos momentos inesquecíveis, mas angus burger foi envelhecendo muito rapidamente, até que numa noite fresca, como aquela na qual nos conhecemos, ele foi caminhando em direção ao lixo reciclado e mergulhou para nunca mais voltar. Ainda tentei gritar, tentei chamá-lo de volta, mas... entendi que uma grande amizade havia chegado ao fim.

Na firma, lotado de emoção, contei o fim da história para meus colegas. E aquele mesmo sujeito, mais uma vez, comentou: “Falei que você deveria ter comido!” Será?

Vivemos momentos inesquecíveis. Quando o levei ao trabalho, um colega perguntou: “Comeu?”