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Mentira na manchete

por Elias Thomé Saliba — publicado 04/11/2010 09h00, última modificação 05/11/2010 16h39
Em dois livros sobre a Segunda Guerra Mundial são relatados os fatos horrendos e pitorescos que a imprensa do período escondeu
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O general Eisenhower observa judeus mortos em Dachau, 1945

Em dois livros sobre a Segunda Guerra Mundial são relatados os fatos  horrendos e pitorescos que a imprensa do período escondeu

Prevalecia nas trincheiras  uma única certeza:tudo poderia ser verdade, exceto aquilo que chegava até nós na forma impressa.” Apesar de paradoxal, a frase, citada pelo historiador francês Marc Bloch em 1942, descrevia exatamente como circulavam as informações durante a Segunda Guerra Mundial. Ninguém mais acreditava nos jornais, que sofriam todas as formas de censura e fortes pressões, e muitos desconfiavam até mesmo das cartas, muito vigiadas e de periodicidade irregular e incerta. Raras exceções foram alguns jornais norte-americanos, e mesmo assim só até o ano de 1941, quando os Estados Unidos entraram  na Guerra e o controle sobre a mídia voltou com tudo. Em Fumaça Humana – O início da Segunda Guerra, o fim da civilização (Companhia das Letras, 462 págs., R$ 58), o escritor e ensaísta Nicholson Baker, de 53 anos, aproveita-se dessas “raras exceções”.

Esmiuçando o dia a dia dos diários The New York Times e Herald Tribune, Baker, norte-americano também autor de ficções (a mais bem-sucedida delas é Fermata, de 1994), compilou centenas de notícias menores, transcrições de programas radiofônicos, declarações de líderes políticos e depoimentos anônimos para compor uma imensa colcha de retalhos que cobre os três primeiros anos da Guerra. O título de seu trabalho foi inspirado na frase de um militar preso em um dos campos de extermínio, que, ao ver flocos de fumaça dos crematórios penetrarem em sua cela, exclamou: “É fumaça humana”.

Embora seja da mesmíssima época, a fumaça que aparece em O Charuto de Churchill – Um caso de amor na paz e na guerra (Record, 208 págs., R$ 39,90)   já é de outra modalidade. O gosto do primeiro-ministro britânico pelos charutos é apenas um pretexto para o jornalista Stephen McGinty rever, de forma  pitoresca e interessante, toda a trajetóriade vida do estadista, com especial ênfase nos anos críticos da Segunda Guerra Mundial. Winston Churchill virou um ímã totêmico capaz de atrair milhares de interpretações, das mais disparatadas às mais elogiosas, o que resultou em centenas de livros, uma autêntica biblioteca churchilliana. Em 1999, na enquete da emissora BBC sobre o “homem do milênio”, ele só perdeu para o dramaturgo William Shakespeare. McGinty sai-se muito bem simplesmente por explorar com originalidade a imagem pública de Churchill inseparável do seu charuto, que se tornou canônica, porque, afinal, o político nunca foi visto sem ele. Até a famosa frase  do primeiro-ministro (que já era pastiche de uma frase original do revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi) chegou a ser parodiada: “Só tenho a oferecer sangue, trabalho, lágrimas, suor... e as guimbas dos meus charutos”. Era uma daquelas brincadeiras sérias, já que atéhoje o Museu Churchill conserva muitas dessas guimbas como autênticas relíquias. O tal charuto virou até monumento: uma estátua de quatro metros de altura, colocada na entrada numa pequena cidade da Austrália, chamada Churchill.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 621, já nas bancas.