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Mensagem recebida de um outro Brasil

por Luiz Antonio Cintra — publicado 28/05/2010 17h10, última modificação 08/09/2010 17h13
Selva Brasil, de Roberto de Sousa Causo, propõe ao leitor refletir sobre experiências e questionamentos da história nacional, da América Latina e de sua própria vida

Selva Brasil, de Roberto de Sousa Causo, propõe ao leitor refletir sobre experiências e questionamentos da história nacional, da América Latina e de sua própria vida

Acaba de ser publicada mais uma obra de literatura especulativa brasileira, neste caso de história alternativa: Selva Brasil, de Roberto de Sousa Causo (Editora Draco, 112 págs., R$ 26,90). Ou será de Roberto de Souza Causo?

Não é que estejamos em dúvida sobre a ortografia. O escritor de ficção científica escreve o sobrenome Sousa, com “s”. Mas o texto é apresentado como uma mensagem enviada por seu alter ego em uma realidade paralela, que escreve com “z”, mas de resto é a mesma pessoa, mas que leva uma vida completamente diferente.

Philip Roth fez algo vagamente semelhante no romance Complô contra a América, de 2004, no qual o foco é a vida de judeus estadunidenses, inclusive do próprio Roth, sob um governo dos EUA presidido nos anos 40 por Charles Lindbergh, simpatizante do nazismo e antissemita. Mas o livro do Causo (cujo primeiro rascunho é de 1993) tem outras prioridades e outro espírito.

O Sousa de nosso mundo serviu o Exército Brasileiro por 14 meses, em 1984 e 1985, mas deu baixa, casou-se com a médica e ocasional escritora Finisia Fideli, teve um filho e seguiu uma carreira literária, sendo hoje conhecido como um escritor de ficção científica. Já o Souza casou-se com outra mulher, teve outro filho, divorciou-se, seguiu a carreira militar e em 1993 é sargento e luta no Amapá em uma guerra interminável do Brasil com as potências do Norte.

No mundo de Souza, Jânio Quadros levou a cabo em 1962 o plano, com o qual realmente sonhou, de invadir as Guianas para anexá-las. Apoiados pelos EUA, britânicos e franceses repeliram o exército brasileiro e ocuparam parte do território brasileiro na Amazônia, iniciando uma longa guerra de atrito. Os soldados brasileiros enfrentam continuamente guerrilheiros-mercenários apoiados pelos inimigos do norte e o Brasil tem o apoio dos outros países sul-americanos nesse confronto – inclusive o da Argentina, cujas tropas na mesma ocasião tomaram as ilhas Malvinas, mas foram expulsas pelos britânicos.

Como literatura, aventura na selva e história de guerra, é muito bom. Ao contrário do livro anterior de Causo, Anjo de Dor, que tem um início morno, este eletriza desde o começo. Em algumas obras mais antigas do mesmo autor os heróis são esboçados de maneira superficial ou deixam-se manipular por forças misteriosas com tamanha falta de questionamento que chegam a parecer pouco verossímeis, mas desta vez o protagonista tem ideais e valores claros, age por si mesmo e parece crível e interessante. A linguagem informal e cheia de gírias militares usada pelo escritor ajuda a tornar a história mais "verdadeira" e palpável.

Deixa um pouco a desejar, porém, a quem se interessa pelos aspectos mais amplos da "história alternativa" propriamente dita. A história gira em torno de um incidente que, caso se mudasse o contexto e uns poucos pormenores (e descartando o elemento de ficção científica que, no romance, permitirá a comunicação entre os dois universos), poderia acontecer em nosso mundo, com alguma tropa brasileira envolvida em guardar a fronteira contra guerrilheiros das Farc ou narcotraficantes de qualquer país vizinho.

A ênfase é na aventura e em como a guerra modificou a história pessoal do autor e de parentes, amigos e conhecidos. Com a participação especial e involuntária da nossa colega de trabalho Rosane Pavam, editora de cultura da CartaCapital e também colunista deste site, a quem o Sousa enviou material sobre ficção científica e a cujo duplo no Universo Paralelo (que, em 1993, também trabalha no Jornal da Tarde) o Souza escreve uma carta verídica.

Os soldados brasileiros do mundo paralelo usam armas russas, mas quem não fez serviço militar nem se interessa por questões bélicas mal vai notar. As alterações geopolíticas do cenário são citadas só de passagem e à distância, nos aspectos mais essenciais, sem que suas consequências sejam muito desenvolvidas. Ficamos sabendo, mesmo assim, que John Kennedy não foi assassinado, que os EUA não se envolveram no Vietnã devido à prioridade à guerra nas Guianas, que a União Soviética continuava a existir em 1993 e a América do Sul uniu-se militar e economicamente num Mercado Integrado.

Exceto pela menção de que no mundo paralelo o Corpo de Bombeiros não é subordinado à Polícia Militar, nada se diz sobre como a divergência histórica afetou a vida civil, a política e a cultura do Brasil depois de Jânio, embora não faltassem oportunidades de aludir a disso. Esse aspecto poderia ter sido mais desenvolvido para tornar a narrativa mais interessante.

Mas a opção de Causo, como explica no posfácio, foi escrever uma história alternativa pessoal, e dirigir também ao leitor a pergunta “Quem é você?”. “Onde você estava em 93?”, escreveu-me no exemplar autografado no lançamento. Quem você seria se as circunstâncias que o formaram fossem diferentes? Como viveríamos em um Brasil envolvido em uma guerra permanente por uma decisão arbitrária de um presidente dos anos 60? E o que fazemos com a paz que desfrutamos por não termos dado esse passo, apesar de sofrermos com conflitos na cidade e no campo?

A proposta é levar o leitor a refletir sobre como experimenta e questiona a história do Brasil e da América Latina, bem como sua própria vida. Pensar em como suas próprias decisões, assim como as decisões coletivas nas quais é envolvido com ou sem a própria participação, ditam sua vida. Nisso, é muito bem-sucedido, embora talvez o objetivo fosse atingido de maneira mais completa se o Sousa nos permitisse entrever um pouco mais do que se passa no resto do Brasil do Souza, para além dos quartéis da selva.