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Melhor ator do Festival de Berlim volta à miséria na Bósnia

Após receber o Urso de Prata pelo filme "Um episódio na vida de um catador de sucata", Nazif Mujic retonou ao seu povoado de origem nômade
por Deutsche Welle publicado 06/03/2013 14:28, última modificação 06/03/2013 14:28
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O sábado de 16 de fevereiro de 2013 foi um dia especial na vida de Nazif Mujic. Cidadão bósnio da etnia nômade rom, acostumado ficar no fim da fila – quando sequer é admitido em qualquer lugar –, ele se sentou na primeira fileira no imponente Berlinale Palast, sede de gala do Festival Internacional de Cinema de Berlim. De terno e ao lado da mulher Senada Alimanovic, ele transitou pelo tapete vermelho, assediado pela imprensa internacional por ser o vencedor do Urso de Prata como melhor ator da Berlinale deste ano.

Ele recebeu o prêmio por sua atuação em An episode in the life of an iron picker (Um episódio na vida de um catador de sucata), de Danis Tanovic, que levou também o Grande Prêmio do Júri. No longa, Nazif representa a si mesmo, um nômade rom, que luta sustentar a mulher Senada e duas filhas pequenas e, para isso, coleta metal num lixão e os vende aos comerciantes locais de sucata.
Duas semanas depois da premiação, Nazif continua recebendo incessantes mensagens de parabéns, vindas de todo o mundo. Ele se transformou, afinal, num astro da sétima arte. Seus vizinhos no povoado Poljice estão também orgulhosos. Na entrada do lugarejo, colocaram até uma placa onde se lê: "Aqui vive o melhor ator da Bósnia-Herzegóvina".
O telefone de Nazif também toca sem parar: muita gente cumprimentando e vários jornalistas querendo entrevistá-lo. Surpreso com tamanho sucesso instantâneo, ele atende a todos os pedidos e não descarta quase ninguém. As conversas duram todas pelo menos meia-hora, pois o ator quer atender bem a todos.

"Nunca imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer", diz, enquanto conta para os vizinhos como foi tudo em Berlim. "Quando ganhei o prêmio, tinha um monte de seguranças a meu redor. Eu não podia nem ir ao banheiro sozinho, nem ir fumar um cigarro. Onde eu estivesse, tinha alguém do meu lado", relata.

          

Interpretando a si próprios

A história de Nazif começou em meados de 2011, quando Senada teve um aborto espontâneo. Mesmo sob risco de hemorragia interna, e após horas de viagem até o hospital, ela não recebe cuidados médicos, por não dispor de plano de saúde nem dinheiro para pagar o tratamento à vista.

A cirurgia necessária no caso custava em torno de 490 euros, para Nazif, uma soma alta. Desesperado, mobilizou amigos e a família, a fim de salvar a vida da mulher. Por fim conseguiu levá-la a um médico com um cartão de seguro de saúde emprestado.

Quando o diretor Danis Tanovic, vencedor do Oscar com No man's land (2001), ouviu essa história, ele levantou um financiamento de 17 mil euros, reuniu uma pequena equipe e, de posse de uma câmera digital, procurou Nazif e sua mulher. "O Danis ouviu nossa história, veio até nós e entramos rapidamente num acordo. Foi tudo muito rápido. Mas não podíamos imaginar que o filme teria um sucesso desses", conta Nazif. Senada Alimanovic também mal pode acreditar em tudo: "Nunca pensei em atuar num filme. Conseguimos, porque interpretamos a nós mesmos. Ninguém deveria passar pelo que eu passei".

Urso de brinquedo, terno empoeirado

A tarefa de Senada e Nazif era representar a própria vida e os terríveis acontecimentos assim como ocorreram, dia a dia. Não havia qualquer espécie de roteiro. O filme foi rodado na aldeia onde os dois vivem e até os médicos que aparecem na tela são "de verdade", mesmo não se tratando daqueles que atenderam Senada. O resultado é um filme que não é ficção nem documentário – e, no entanto, é os dois ao mesmo tempo.

Agora Nazif e esposa estão de volta ao lugarejo e à casa em ruínas onde vivem. O Urso de Prata foi colocado na prateleira, de vez em quando as crianças brincam com ele. O terno, com que Nazif pôde ficar, está agora empoeirado.

"Hoje ele vai vestir seu jeans de novo, pegar o machado e sair em busca de metais no lixão. Talvez encontre alguma coisa. É disso que a gente vive", fala Senada. E Nazif acrescenta: "Sempre trabalhei nos meus 42 anos de vida. Sempre fui ativo. Sou o representante dos rom do nosso povoado. Não temo o trabalho e espero encontrar alguma coisa".

Apenas um episódio

Em Poljice muitos roma vivem de catar metais. Por todo esse povoado do Nordeste da Bósnia há sucatas de carros, máquinas antigas ou depósitos de metal. Os moradores se sentem orgulhosos do "nosso Nazif", como o chamam. Eles gostam de compartilhar parte de sua fama, mas sabem que o fenômeno é passageiro: em poucos dias, todos vão ter nos esquecido, asseguram Suljo e Kasim, irmãos de Nazif.

E tão logo um visitante chega ao vilarejo, os moradores o rodeiam para falar de seus problemas, principalmente se for um jornalista: as casas não são vedadas e a água da chuva entra por todo lado; ninguém se sente responsável pelo povoado; a infraestrutura é deficitária; não há rede de esgoto; as ruas não são asfaltadas. Além disso, as reclamações de praxe: pouca comida, falta de medicamentos e ninguém no lugar tem plano de saúde.

Diante da casa de Nazif Mujic, o amigo Esed Hodzic deixa uma carga de lenha para a família. "Vi o Nazif na televisão, quando ele estava recebendo o prêmio em Berlim. Na hora eu já sabia: quando ele voltar do tapete vermelho, não vai ter de lenha para o forno", diz o amigo.

Nazif despede-se dos que vieram visitá-lo no pequeno povoado. E segue rumo às sucatas de carros, que ele desmantela com as próprias mãos, um machado e um martelo. Como na sequência inicial do filme Um episódio na vida de um catador de sucata.

Autoria: Mirsad Čamdžić / Zoran Arbutina (sv)
Revisão: Augusto Valente
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