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Melancolia e progresso

por Rosane Pavam publicado 04/03/2011 14h36, última modificação 10/03/2011 15h56
Pesquisa aponta no fotógrafo carioca Militão Augusto de Azevedo um pioneiro em desvelar o lado nem tão brilhante do crescimento paulistano. Por Rosane Pavam
Melancolia e progresso

Pesquisa aponta no fotógrafo carioca Militão Augusto de Azevedo um pioneiro em desvelar o lado nem tão brilhante do crescimento paulistano. Por Rosane Pavam. Foto: Militão

Militão Augusto de Azevedo (1837-1905) é o fotógrafo pioneiro das transformações paulistanas, mas não nasceu em São Paulo, nem a apreciava de início. Ele era carioca e ator de teatro popular. Trabalhava em companhias como a de Joaquim Heleodoro, para as quais os amantes da Cidade Luz, como naquela época havia tantos por aqui, torceriam o nariz. Atuar sob a direção de Heleodoro talvez equivalesse a morrer criticamente para a arte, se bem que naqueles tempos brasileiros ninguém seguisse uma profissão dessas para obter prestígio social, antes por amar a liberdade.

Quiçá, então, o jovem ator não se visse motivado por status ao subir no palco paulistano pela primeira vez, em 29 de outubro de 1862, intérprete de Luxo e Vaidade, peça do celebrado autor de A Moreninha, Joaquim Manuel de Macedo. Mas a capital do estado, aos poucos, ganharia suas intenções. Era na cidade caipira que o Brasil começava a mudar de feição, em busca de obter uma identidade moderna e industrial. São Paulo ansiava por teatro porque isto a tornava contemporânea ao novo. Ao optar por ela, Militão demonstrava perceber a direção dos ventos, ele que se tornara pai do menino Luiz Gonzaga, com muitas despesas decorrentes dessa condição. No planalto longínquo e deserto estava sua oportunidade de crescer, fosse por meio do teatro ou por qualquer outro meio.

Embora importante, o teatro desinteressou pouco a pouco esse artista, que, à maneira de muitos de seu tempo, mais se reconhecia como artesão, conforme sustenta a pesquisadora Íris Morais Araújo, autora de Militão Augusto de Azevedo – Fotografia, história e antropologia (Alameda, 272 págs., R$ 56). Seu estudo é o primeiro a amplamente analisar as origens da epopeia fotográfica de Militão, vinculando-a à história paulistana e nacional como a de um catalisador e um precursor. No entendimento de Íris, orientada em mestrado pela professora titular do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo Lilia Moritz Schwarcz, trata-se de fazer justiça ao artista-historiador como o primeiro a registrar fotograficamente a cidade em evolução, levando-a a sério antes mesmo que a República o fizesse.

Iniciado há 11 anos a partir do material iconográfico do autor reunido no Museu do Ipiranga, o estudo de Íris estabelece um novo parâmetro para o entendimento do artista. Segundo o livro, ele não pode ser resumido à figura acrítica do entusiasta da cidade em crescimento, como vinha sendo registrado nas publicações esparsas de importantes analistas da fotografia e nos três álbuns anteriores a editar uma parte das 12 mil imagens que o profissional deixou. Principalmente, é preciso vê-lo como um observador atento das contradições que essa mudança acarretava, como diz acreditar a pesquisadora em entrevista a CartaCapital.

“Militão não privilegiou apenas os ângulos de transformação da cidade”, afirma Íris, e para isso ela faz observar o lugar que as igrejas ocuparam no Álbum Comparativo da Cidade de São Paulo (1862-1887), obra máxima por ele engendrada como um projeto próprio, sem financiamento, no qual somava as chapas externas que tirara 25 anos antes a seus novos registros da cidade. Os templos do catolicismo estão firmes nos registros de 1862 tanto quanto permaneceriam um quarto de século depois. Embora repleta de calçadas, comércio e glamour, a nova São Paulo de Militão insistia em exibir monumentos coloniais que representavam um mundo anterior ao avassalador burguês.

E ainda que fotografasse longinquamente as pessoas na rua, sinalizaria um ato revolucionário o simples fato de considerá-las presentes em suas imagens, quando qualquer técnico daquele tempo temeria a transformação dessas figuras em borrões, a inviabilizar a venda das chapas. “As ruas de São Paulo eram o espaço das pessoas pobres. Pegava mal andar na rua”, argumenta Íris, para quem Militão era um “personagem mais complexo do que um arauto do progresso”.

Um número maior de pessoas, por exemplo, encontrava-se na Rua da Quitanda no momento da tomada de 1887, em relação àquela de 1862, nas calçadas e nas soleiras dos comércios. Conforme o que está publicado no Álbum Comparativo, vê-se um grupo de fotografados que parece esperar o momento certo de atravessar a rua, como se houvesse um trânsito a impedi-los de ocupar a via de maneira livre. “Esta situação é original em relação àquela flagrada em 1862, na qual os fotografados posaram para Militão ocupando partes da via sem que, aparentemente, nada pudesse incomodá-los”, escreve a pesquisadora.

Ainda a provar o despojamento do artista estão os retratos de estúdio que jamais deixou de fazer em toda a vida profissional, somente abandonada nos últimos anos, quando se viu doente e desiludido com o retorno financeiro da obra precursora. Para quem vivia de seu trabalho, o objeto a ser fotografado não tinha classe social, já que poderia ser transformado em comprador. Militão registrou indistintamente um aristocrata como Eduardo Prado, aos 10 anos de idade, tanto quanto Zé Poeta e Gerebita, malandros e negros a perambular pela capital, conforme atesta mais um dos volumes que o artista organizou, mas não publicou, o Índice das Fotografias de Antigos Paulistas.

Por razões que nem mesmo o especialista Boris Kossoy pôde precisar a partir de documentos arduamente pesquisados, Militão de Azevedo abandonou o teatro em favor da fotografia profissional, embora mantivesse contato com seus antigos empregadores de tablado e, em correspondência, sempre os incentivasse a prosseguir. Em 1865, Militão ingressou no estabelecimento comercial Galeria Esplêndida, cujos sócios eram Carneiro e Smith, um dos primeiros estúdios fotográficos a ter uma sede na Corte e uma filial em São Paulo.

No ano de 1862, quando fez suas primeiras vistas urbanas, Militão andou pela cidade munido de pesados apetrechos, como câmera, tripé e um laboratório portátil. Possivelmente levasse um escravo para que carregasse seu material, prática comum ao menos entre os fotógrafos estrangeiros aqui aportados em meados do século XIX. Até os anos 1880, ele usou chapas úmidas para fotografar. A técnica, que possibilitava o trabalho fora de um estúdio, consistia em umedecer um negativo de vidro em colódio, composto feito de algodão-pólvora, álcool e éter. Depois do tempo de exposição dos raios solares, que variava de 20 segundos a um minuto em ambientes abertos, era preciso mergulhar o negativo em solução de nitrato de prata. Por esta razão, quando se tratava de fotografar na rua, o profissional deveria carregar consigo um pequeno laboratório onde executasse esses procedimentos. Feitas essas operações, os positivos eram impressos em papel.

Conforme observa a pesquisadora no livro, “mesmo com todo esse trabalho, não se sabe o que o motivou a fotografar tantas vezes”. E não só fotografar, como apresentar as ruas paulistanas em um formato novo, no qual, por meio de delicada colagem de imagens próximas, ele antecedia a visão proporcionada por uma grande-angular. As panorâmicas que fez da região central, que não assinava “por achar melhor para a venda ignorar-se a procedência”, conforme disse em carta certa vez, são as primeiras de que se tem notícia na história de São Paulo.

E é impressionante anotar a melancolia que dele se apodera a partir da Proclamação da República, em 1889. Militão não considera o evento transformador. “Como deve ter sabido pelo telégrafo no dia 15 do corrente, almocei monarquista e jantei republicano”, ele escreve a um amigo, desencantado do país que tão pouco se parecia com um europeu, habitado por um povo aparentemente sem remédio. “Isso mostra que as coisas por aqui se fazem rápidas como o século que elas representam: eletricidade e caminho de ferro”, escreveu ainda. “Estamos com muito calor e pouco juízo e... alguma coisa mais.”