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Crônica do Villas

Meio estrangeiro

por Alberto Villas publicado 17/04/2014 09h20
Ser mineiro e morar em São Paulo é uma coisa muito estranha. Por Alberto Villas
Paulo Pinto/ Fotos Públicas
São Paulo

Eu me sinto estrangeiro em São Paulo simplesmente porque, trinta e quatro anos depois, eu ainda confundo. Não sei qual é a Heitor Penteado e qual é a Teodoro Sampaio

Morei vinte três anos da minha vida em Belo Horizonte, dois em Brasília, seis em Paris e moro em São Paulo há trinta e quatro anos. Mas sinto-me ainda meio estrangeiro. Não que a cidade tenha me recebido mal, muito pelo contrário.

Quando aqui cheguei a música Sampa ainda estava nas paradas de sucesso. Alguma coisa realmente acontecia no meu coração quando cruzava a Ipiranga com a Avenida São João. Fui morar no décimo sexto andar de um edifício em Higienópolis e, lá de cima, via a feia fumaça subindo e apagando as estrelas. Andando pela Angélica, sentia a força da grana que erguia e destruía coisas belas.

Dava de cara com a dura poesia concreta de tuas esquinas e com a deselegância discreta de tuas meninas. Em compensação, já havia para mim Rita Lee, a mais perfeita tradução do Lança Perfume. Resumindo: Aprendi rapidinho a chamar-te de realidade.

Comecei a trabalhar separando telex no Estadão. América do Sul numa pilha, Europa em outra, Estados Unidos, Países do Leste, Guerra Fria, Sandinistas,  Malvinas, tudo separadinho. As notícias curiosas, bizarras, separava para a coluna Pelo Mundo, pilotada pela Cecília Thompson.

Confesso que sinto saudade daqueles primeiros tempos de São Paulo, uma cidade com uns doze milhões de habitantes, correndo a todo vapor e amando com todo ódio, odiando-se com todo amor.

Descia a pé a Maria Antônia, pegava a Consolação, Praça da República, Barão de Itapetininga. A caminho do ponto do ônibus do Estadão, passava todos os dias na Livraria Francesa para ver se a revista Actuel já tinha chegado. Fazia também um pitstop na Brasiliense, onde comprava os livros do Circo de Letras, das Cantadas Literárias, os livrinhos do Encanto Radical e os Primeiros Passos.

Uma vez por semana, passava na Woop-Bop. Era tempo de Madness, Nina Hagen, Specials, Violeta de Outono, Billy Bond, Mercenárias e Fellini. Quando tinha tempo passava também no Museu do Disco, na Breno Rossi e no Sebo do Messias atrás de velhos exemplares da revista Senhor.

De vez em quando, quando a fome apertava, costumava parar numa daquelas pastelarias de chineses e comer uns dois pasteis quentinhos, que eram servidos em pratinhos de alumínio, bem leves.

São Paulo pra mim era isso. Depois do jornal, tarde da noite, quantas vezes não fui ao Gigetto comer um cabrito com brócolis ao lado do Plinio Marcos e do Ari Toledo? Virgem santa que a fome era tanta, que fome danada que eu tinha.

De tempos em tempos dava uma esticada no Pirandello pra saber as últimas da profissão. Era a Isto É lançando um guia da cidade chamado Sampa e o Jornal da República sendo enterrado. Queríamos sempre saber que beldade estaria no próximo ensaio da Status, quem era o entrevistado das páginas amarelas de uma revista que se chamava Veja e quem era o gigante do jazz que estava na banca da esquina.

Saindo do forno, costumava levar pro Pirandello o suplemento Cultura do Estadão porque, quem sabe, encontraria ali alguém interessado em ler Alexis de Tocqueville?

Sábado era dia de comer um bife à milanesa com creme de espinafre no Jotas e domingo ir na feirinha do Bexiga para, quem sabe, encontrar aquele vinil Do Guarani ao Guaraná, do Sidney Miller.

Não tenho do que me queixar. Encontrei aqui um novo amor, tive mais duas filhas, escrevi livros e plantei uma árvore, um pé de ameixa que está lá na Avenida Higienópolis até hoje, enorme.

Fiz muitos amigos que quase todo fim de semana vão à minha casa, chegam cedo e vão embora só tarde da noite porque o papo é sempre bom e não tem fim. Passei pelos dois principais jornais da cidade e por quase todos os canais de televisão.

Ainda ando pelas ruas cantarolando baixinho Sampa e Ronda. “De noite eu rondo a cidade/A te procurar sem encontrar/No meio de olhares espio/Em todos os bares/Você não está”. A música de Vanzolini não tem muito a ver comigo não, mas gosto de cantarolar porque é muito bonita, a cara da cidade.

A cara de São Paulo é, na verdade, a Rê Bordosa, o Meiaoito,  o Wood & Stock, o Geraldão, os Piratas do Tietê. O Ritz, o Spot, o Sabiá, o Casserole. A cara de São Paulo é o farol, o xerox com acento, o shorts, um chopps e dois pastel. E eu não, mas gosto muito daqui.

Por que será que ainda me sinto meio estrangeiro nessa cidade que, apesar de todo defeito, te carrego no meu peito? Eu me sinto estrangeiro em São Paulo simplesmente porque, trinta e quatro anos depois, eu ainda confundo. Não sei qual é a Heitor Penteado e qual é a Teodoro Sampaio. Não tem jeito.

 

Cronista também tira férias. Estarei de volta na primeira sexta-feira de maio.

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