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Meia entrada

Meias-Verdades

por Celso Marcondes — publicado 17/12/2008 17h53, última modificação 23/08/2010 17h57
Na semana passada iniciei aqui uma série sobre a polêmica questão da meia-entrada para os espetáculos culturais e esportivos no Brasil.

Na semana passada iniciei aqui uma série sobre a polêmica questão da meia-entrada para os espetáculos culturais e esportivos no Brasil. A série contém apenas artigos enviados por jovens leitores, os mais interessados no tema. O primeiro, “”, foi escrito por Nataly Simon. Na edição de CartaCapital que chega às bancas nesta sexta, 19, a meia-entrada estará em discussão, em matéria assinada pelo jornalista da Carta, Pedro Alexandre Sanches. Leia.

Agora, fique com a contribuição de Gabriel Gurman.

Meias-Verdades

Ultimamente, muito se tem discutido sobre a questão das meias-entradas no país. Há pouco, a polêmica voltou às páginas dos jornais por conta da aprovação, por uma Comissão do Senado, do projeto de lei que restringe em cada espetáculo, a 40% a quantidade de ingressos destinados à meia-entrada. Como era de se esperar, o Projeto desagradou a todos. Tanto os estudantes, como os produtores culturais, como o próprio Ministério da Educação. E quem está certo? Ninguém. Ou, todos eles.

Como todos nós, seres tupiniquins, sabemos – e admitimos até com certo orgulho – temos instaurado de maneira intrínseca, como um paradigma da nossa identidade, o “jeitinho brasileiro”. Há mais de setenta anos atrás, Sérgio Buarque de Holanda imortalizava a dubiedade ideológica causal no capítulo “O Homem Cordial”, presente em sua mais famosa obra, “Raízes do Brasil”. Neste quinto capítulo, o antropólogo demonstrava como por detrás de uma máscara de homem cordial, o brasileiro tenta adequar-se a determinados ritos, na maioria das vezes tornando-os mais flexíveis. O “jeitinho”, aliás, é uma expressão tipicamente brasileira, impossível de ser traduzida – em palavras -, mas facilmente aplicada por seus detentores em qualquer parte do mundo.

O que vemos nas discussões sobre a continuidade ou adequação do benefício do direito à meia-entrada aos estudantes, na verdade não foge de um debate entre estes “homens cordiais” apontados por Buarque de Holanda. Cada área envolvida – estudantes, produtores, órgãos governamentais – defende a chibatadas as suas idéias, com um olhar míope sobre o todo. Desta forma, é evidente que a discussão se torne uma polêmica eterna e qualquer sugestão ou definição, aprovada ou não a nova lei, a área “prejudicada” protestará.

Todos nós sabemos que o atual sistema de benefícios aos estudantes é farsante e desmoralizante à própria cultura brasileira. É ilusório pensar que isto se deu apenas a partir de 2001, quando foi aprovada a Lei em que qualquer comprovante de estudo era válido para o desconto. Nos tempos das Torres Gêmeas, não era raro encontrar carteirinhas da UBES e UNE com neo-estudantes já em cargos de alto posto em suas empresas ou ainda jovens eternos secundaristas. Da mesma forma, não se pode confiar que os produtores culturais baixarão os preços dos ingressos a partir da aprovação da Lei, visto que a desculpa da “descrença da origem” das carteirinhas pode ser eterna. Já o subsídio governamental ao valor não-pago devido aos descontos estudantis pode se tornar um álibi para uma reformulação unilateral da Lei Rouanet, maior fomentadora cultural no Brasil. Isso causaria revolta aos produtores, que, consequentemente, aumentariam os preços de seus projetos, causando protestos dos estudantes. É um circulo vicioso. O círculo vicioso desta sociedade estrábica que nos define, onde não se observa qualquer ânimo de se alterar o status quo e faria, digamos, que até um objeto, como um livro idoso (com todo o respeito que lhe é merecido) soasse como um jovem, aliás, neste caso, merecedor de sua carteirinha de estudante, por que não?

Voltando aos “homens cordiais”, Sérgio Buarque e Holanda (n)os define como pessoas que agem movidos pela emoção no lugar da razão, pondo de lado a ética e a civilidade. Ora, o que não é esta discussão senão isto? Não estariam, por exemplo, órgãos estudantis lutando, não pela causa estudantil, mas sim por razões políticas partidárias, já que são apoiadas, absurdamente, por partidos, no caso o PC do B? Não estariam os produtores culturais visando encher os seus bolsos, pois muitas vezes os projetos entram em cena já pagos, por conta da Lei Rouanet?

Em seu livro “O Que Faz o Brasil, Brasil?”, o também antropólogo Roberto Damatta aponta o espanto com que os brasileiros reagem àqueles cidadãos (de outros países, evidentemente) que respeitam e dão valor às leis. Prosseguindo em seu raciocínio, as instituições brasileiras foram desenhadas para coagir e desarticular o indivíduo. Desta forma, os principais interessados e merecedores dos benefícios – os verdadeiros estudantes – assistem de arquibancada, a esta guerra de interesses formados por aqueles que deveriam representar honestamente cada habitante deste país formado por “Carnavais, Malandros e Heróis”.

Gabriel Gurman, 23 anos é formado em Comunicação Social.