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Matheus Nachtergaele e a ética do corpo

por Orlando Margarido — publicado 25/06/2012 11h39, última modificação 25/06/2012 11h41
Pela impossibilidade de ser galã, o franzino ator abriu-se a uma infinidade de tipos, como o coveiro que se apaixona por um travesti em 'Febre do Rato'
febre

O físico e o poético. No papel do coveiro Pazinho de A Febre do Rato, talento moldado na irreverência

Cedo Matheus Nachtergaele se deu conta de que seu corpo determinaria o limite e a liberdade para se expressar. “Não poderia ser o galã e por isso me tornei mais aberto a uma infinidade de tipos”, avalia. Franzino, o ator convocou uma habilidade física a seu favor para que aos olhos do público surgisse antes o personagem irretocável na criação e no gestual do que o intérprete destinado a um consenso. O que não impede uma divertida constatação na galeria de nomes somados à carreira. São simbólicos o Cintura Fina de Hilda Furacão, o João Grilo de O Auto da Compadecida, o Carreirinha de América, o Miguezim do recente Cordel Encantado e o ainda inédito Joãosinho, o Trinta, em cinebiografia a ser lançada no próximo ano. Todos agora em companhia de Pazinho, sua nova colaboração com o parceiro habitual Cláudio Assis no novo filme deste, Febre do Rato, que estreia sexta 22.

O diminutivo empregado reveste-se de ironia quando vemos o que Matheus concretiza na tela. Pazinho é um coveiro que assume sua paixão por um travesti. Não o faz em qualquer reduto, mas no lúmpen que tanto interessa a Assis. Ali, sob a liderança de um poeta libertário (Irandhir Santos), não há demarcações no território sexual ou amoroso e Pazinho sofre por seus próprios conceitos. Seria um tipo tragicômico, mas a espontaneidade anárquica da direção o coloca entre o humor poético e a postura reflexiva. “Não é mais central a questão da homossexualidade, mas como avançar nas novas constatações da sexualidade”, ressalta o ator, que conversou com CartaCapital durante o 22º Cine Ceará, onde Febre do Rato foi exibido e rendeu o prêmio de melhor diretor a Assis.

Moldar-se por uma irreverência e um riso é outra face contumaz do seu talento. Uma de suas primeiras referências na interpretação é Grande Otelo. “É o mais bonito e mais brasileiro entre os palhaços, com aquela melancolia disfarçada com o riso largo.” A apreciação por certo justifica sua acolhida ao imaginário cômico nacional, como no João Grilo em O Auto da Compadecida, que viveu nas versões para cinema e televisão. Mas a esses o ator chegou já com uma importante contribuição corporal e dramática adquirida em diversos processos.

Um desses primeiros testemunhos é referido numa passagem divertida de A Febre do Rato, quando Pazinho diz não ser Jó para tolerar as liberalidades do companheiro. Em 1995, Matheus interpretou o mais determinado crente do Antigo Testamento no espetáculo O Livro de Jó, do Teatro da Vertigem, com direção de Antônio Araújo. Num hospital paulista como cenário, o ator se desnudava para uma aventura de limite físico inesgotável. Embora tivesse participado como um anjo caído na peça anterior do grupo, Paraíso Perdido, era a primeira vez que o franzino de menos peso ainda do que os 59 quilos atuais exercitava sua capacidade de expressão. Pelo feito, ganhou os prêmios Shell, Mambembe e um grande colaborador. “O Araújo é um dos nomes que me formou, ao lado de Antunes e Assis. Entendo agora como isso é importante para um ator que foi aconselhado a desistir e tornar-se um autor.”

A referência é a Antunes Filho, o diretor do Centro de Pesquisas Teatrais, onde o paulista foi bater atraído por um teste enquanto estudava artes plásticas. Aceito, ensaiou para Paraíso Zona Norte, mas, à véspera da estreia, foi afastado e ouviu de Antunes que nunca se tornaria um ator. “Ele dizia que eu deveria ser autor, buscar outra coisa, e eu não entendia o que isso significava.” Decepcionado, viajou para a Bélgica, origem de seu pai, músico fundador da Traditional Jazz Band, que, junto à mãe poetisa, influenciou seu espírito para a arte. A distância ajudou-o a avaliar o que tinha passado. “Antunes foi como um pai malvado, rigoroso e violento, que me apontou o que ler, me ensinou.” Matheus diz que a lição o tornou um ator assustado. “Acho que ele me deu um não para ver se eu seria capaz de contrariar a tese e hoje entendo a ideia de autor como criar uma arte pessoal, a sua arte.”

Nesse processo de autoria descobriu, também por Antunes, a maior referência para seu trabalho, a dança butô de Kazuo Ohno. Acredita que o trabalho do ator se estabelece nessa junção do físico com o poético do criador japonês. “Ele nos mostrava que o corpo deve ser ético.” O bailado que dá certo com Cláudio Assis ele atribui à grande honestidade e generosidade do cineasta, com quem trabalhou nos dois longas anteriores, Amarelo Manga, no qual vivia o atirado gay Dunga, e Baixio das Bestas, intérprete de Everardo. Diz ter tido muito medo de se assistir neste filme, tamanha a violência do personagem. “É uma criação caótica a de Cláudio, ele consegue o êxtase. Posso até sentir raiva ao encarar alguém como Everardo, mas sei que no fim será uma raiva poética.”

A trajetória no cinema e na televisão, ele compreende, marcou-o para tipos à margem social. “A tevê especialmente tem esse poder, mas não me incomoda. Preparo-me para um papel tanto quanto no cinema, pois sei que para muita gente o alcance da arte está ali e ela tem de ser boa.” Sua constelação dramática, no entanto, é mais ampla e inclui participações em O Que É Isso, Companheiro? (1997), Central do Brasil (1998) e o marcante Cidade de Deus (2002). “Ali era o contrário, a ideia era não haver poesia, era o bruto.” Prepara-se para Serra Pelada, de Heitor Dhalia. “Achei que ia ganhar um garimpeiro, mas serei o fazendeiro que os explora.” Um raro vilão.

Dessas conjugações diferenciadas da arte de interpretar é que surge a importância do projeto Trinta para Matheus. Como protagonista, situação que não exerce ao menos desde o caipira inspirado em Mazzaropi de Tapete Vermelho (2006), ele se aproxima de um antigo ídolo, que conheceu antes da morte, em dezembro de 2011. Ainda, no filme de Paulo Machline, Joãosinho Trinta é apresentado antes da consagração no desfile da Salgueiro em 1974, quando ingressou no Teatro Municipal para ser bailarino e acabou responsável pelos adereços das óperas. “Ele não tinha tipo físico para o balé, o que lembra algo de mim”, brinca.

Pontua também as diferenças. “Trinta era culto e místico, eu não.” Quanto ao misticismo, que o ator procura afastar como visão de mundo, era dado fundamental do primeiro e elogiado longa que dirigiu em 2008, A Festa da Menina Morta. Na atuação impressionante de Daniel de Oliveira como o “santinho” de uma vila amazônica, é inevitável enxergar o próprio Nachtergaele em entrega física a um personagem. Reconhece que exigiu dos atores a dedicação por ele ofertada quando dirigido, que nenhum cineasta duvida hoje ser da mais alta compleição.