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Menalton Braff

Mate-se a vaca

por Redação Carta Capital — publicado 08/02/2012 13h00, última modificação 08/02/2012 13h00
Vocês já repararam como ultimamente têm morrido milhares de carrapatos para que se mate a vaca?
vaca

Vocês já repararam como em política têm morrido milhares de carrapatos para que se mate a vaca?

Por Menalton Braff

 

Meus quatro ou cinco leitores, quase sempre leitores contingentes, fortuitos e aleatórios, já sabem que no me gusta mucho hablar de política. É minha maneira de respeitar a opinião alheia. Nestas questões de paixão ou de fé, como religião, futebol e política, é difícil que alguém se convença de que a opinião dos outros pode ser melhor do que a sua. Prefiro, por isso, ficar calado. Mas não entenda que não tenho opiniões a respeito de religião, de política, e não tenha o meu time do coração vermelho.

Bem, o assunto é o modo como algumas nações, na atualidade, agem para impor seus próprios pontos de vista, como se fossem os donos da verdade. Falta-lhes qualquer senso autocrítico. Resumindo, são povos que não conseguem ver o próprio nariz, mesmo diante dos melhores espelhos. Tudo que aparece, aparece distorcido, como aquela mãe, que na parada militar ficou deslumbrada com o fato de seu filho ser o único dos soldados a marchar com o pé certo.

Sim, mas e a vaca do título?

Meu amigo Adamastor, um gigante em pecuária, me contou outro dia a história de um conhecido seu, famoso fazendeiro pecuarista, homem poderoso, que não admitia ser contrariado em coisa alguma. Como a maioria dos homens poderosos.

Um dia, no meio de seu rebanho, apareceu uma vaca coberta de carrapatos. Ela definhava de tanto sangue os bichinhos lhe sugavam. Ora, perder uma vaca para esses artrópodes é humilhação que um fazendeiro de sua estatura não poderia aceitar. E não aceitou.

Chamou um dos peões e mandou que misturasse um tanto de creolina em água, deu as medidas certas, e banhasse com aquela mistura esbranquiçada a vaca que estava servindo de alimento para os carrapatos. E assim foi feito.

Dois dias depois, mandou que trouxessem a vaca até a mangueira e, para sua decepção, os carrapatos não só continuavam lá, belos e faceiros, como ainda tinham aumentado. Mandou, então, que escovassem o couro do animal, mas com força e escova dura.

Os peões ficaram olhando aquilo maravilhados. Não porque detestassem a vaca ou seu proprietário, mas porque maravilha é o mesmo que prodígio, aquilo que desperta assombro por ser algo inusitado. Eles nunca tinham visto uma coisa daquelas: uma vaca sofrendo escovação de esfolar-lhe o couro.

Depois de escovada, a vaca, ela ficou presa na mangueira. Alguns dos carrapatos caíram e foram imediatamente, e com certo ódio, carbonizados.

Na manhã seguinte, o fazendeiro foi à mangueira e descobriu que a vaca continuava coberta de carrapatos. Pegou o revólver e furou a cabeça de sua leiteira com uma bala. Depois de algum tempo, não sobrava um carrapato vivo.

Bem, não sei até que ponto falar de um pecuarista que matou sua vaca tem alguma relação com política, sobretudo a internacional. Principalmente porque o que tem ocorrido é o inverso. Vocês já repararam como ultimamente têm morrido milhares de carrapatos para que se mate a vaca? Portanto, que ninguém me acuse de ter rompido com meus hábitos.

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