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Máscara de todos

por Orlando Margarido — publicado 19/08/2012 08h13, última modificação 19/08/2012 08h13
Cacá Carvalho se multiplica no universo de Moscarda na peça Umnenhumcemmil, de Roberto Bacci
cacápost

Um e muitos. Cacá Carvalho se multiplica no universo de Moscarda

Umnenhumcemmil
Roberto Bacci
Sesc Bom Retiro, São Paulo

Vitângelo Moscarda é um homem de identidade truncada, confusa. Não colabora para um esclarecimento o fato de sua mulher um dia notar à toa que o nariz do marido pende para a direita. O comentário fortuito faz irromper um fluxo de consciência que não por acaso tem relação com certa tendência da literatura, a apontar especialmente a italiana, como a de Italo Svevo, autor também marcado por uma questão de origem e, portanto, identidade. Moscarda é personagem de outro italiano, Luigi Pirandello, no romance Uno, Nessuno e Centomilla, agora traduzido por Cacá Carvalho para adaptação ao teatro no título literal umnenhumcemmil. O espetáculo de Roberto Bacci, ponto-final de uma trilogia do ator e diretor dedicada ao escritor e desenvolvida com a Fundação Pontedera, na Itália, segue em cartaz até 23 de setembro no Sesc Bom Retiro.

A rigor sozinho em cena, cercado por alguns espectadores no palco, Cacá multiplica nos diálogos os personagens integrantes do universo de Moscarda. A complexa personalidade que se apresenta de início contrasta com o estado miserável de Genge, como sua mulher o chama, aos poucos revelado. A antes figura bem-sucedida do homem rico agora é um serviçal de macacão responsável pela faxina da casa de repouso que ele um dia patrocinou e onde se internou para fugir de uma cobrança social. Pois é este o debate primordial do texto que serve a uma questão discutida por Cacá desde O Homem com a Flor na Boca e A Poltrona Escura. A ele afligem as demandas da sociedade que condenam as pessoas a usarem máscaras de sobrevivência e assim se perderem de sua verdadeira face.

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