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Mão esquerda

por Alexandre Freitas — publicado 19/05/2010 15h39, última modificação 20/09/2010 15h39
Há uns 15 anos, toda vez que passava em frente às Lojas Americanas, entrava e vasculhava prateleiras em busca de CDs baratos de música clássica. E encontrava

Há uns 15 anos, toda vez que passava em frente às Lojas Americanas, entrava e vasculhava prateleiras em busca de CDs baratos de música clássica. E encontrava

Aos 17 de idade, deparei-me com a integral dos concertos para piano de Prokofiev por Vladimir Ashkenasy e com André Previn à frente da Sinfônica de Londres. Por alguns módicos cruzeiros ou cruzados, novos ou velhos, vai saber, comprei o CD duplo. Um dos concertos era para mão esquerda e orquestra e o encarte dizia que ele tinha sido dedicado a Paul Wittgenstein, que além de irmão do célebre filósofo, foi um pianista que perdeu o braço direito na primeira guerra. Mais tarde descobri que Ravel e Britten também lhe dedicaram concertos. Soava romântico: compositores dedicavam obras a um artista vitimado pela guerra.

Ledo engano. O romantismo já havia ficado pra trás e as obras foram, na verdade, encomendas do pianista. E bem pagas. Wittgenstein era meio chato, parece. Não gostou do concerto de Prokofiev e o esnobou com ferozes críticas. Um concerto para mão esquerda e orquestra de Hindemith foi descoberto, não faz muito tempo – além de não ter gostado da obra, o pianista a escondeu no fundo de uma gaveta.

Leon Fleisher, pianista que ficou cerca de trinta anos sem tocar com a mão direita, se apresentou no último sábado, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Tocou e regeu a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Ele foi vítima de duas enfermidades: a síndrome do túnel do carpo (que comprime nervos da mão provocando formigamento e sensações de choque) e uma distonia focal (que incita contrações involuntárias). Doenças menos raras do que se imagina, sendo que a última atinge mais de dez mil músicos profissionais, disse Fleisher em entrevista a O Globo.

Com um tratamento baseado em doses do botox, Fleisher retomou, desde os anos 90, o repertório tradicional, mas sem renunciar às obras para mão esquerda. Com a OSB ele regeu a sinfonia Haffner de Mozart e tocou, com Katherine Jackobson Fleisher no segundo piano, o concerto KV 242 para dois pianos e orquestra, também de Mozart. No adágio do concerto, eles pareciam atingir aquilo que Fleisher mais admirava em seu mestre Arthur Schnabel: a utopia da liberdade interpretativa combinada com fidelidade ao texto e aos anseios do compositor. O maestro imprimiu em seu Mozart um brilho que reluzia sem ofuscar os sentidos dos espectadores de um Municipal meio vazio. Sua interpretação não induzia aplausos inflamados, “espasmos de adrenalina”, como dizia Glen Gould. Foi uma interpretação de um senhor de 81 anos que não precisava provar nada, nem competir com ninguém. Sua ambição parecia ser a de fazer boa música e pronto. Conseguiu. Depois vieram o Tombeau de Couperin e o Concerto para mão esquerda e orquestra de Ravel, o ponto forte da noite e uma das maiores obras-primas que existem, nas palavras de Fleisher. Em cada nota e em cada gesto, o pianista esbanjava maturidade musical e compreensão das obras. Tudo isso com uma autoridade natural e verdadeira, que emerge sem ser ostentada.

Falando em ostentação e em mão esquerda, lembrei-me de outro célebre músico. Percorrendo os canais de TV aberta, na ansiedade de uma sexta-feira à noite em casa, dei de cara com João Carlos Martins em um testemunho de superação. E isso no último capítulo da novela das oito, na rede Globo. Depois de testemunhar suas intempéries, sua força sobre humana e seu amor à música, rodeado por dezenas de globais, ele rege a famosa “Ode à Alegria” da Nona de Beethoven. Não vou entrar em questões estéticas ou musicais, mas tenho a ligeira impressão de que Martins faz mais sucesso agora do que quando levava sua carreira de pianista clássico. Desde os primeiros problemas motores, há algumas décadas, até sua condenação a dois anos e meio de prisão, ano passado, por crime contra a ordem tributária (caso “Paubrasil”), o pianista continua se aprimorando na arte de testemunhar sua superação.

Só para concluir: outro dia passei pelas Lojas Americanas da Rua do Passeio, no Rio, e procurei por CDs clássicos. O vendedor me mostrou André Rieu e algumas trilhas de filmes. Bateu uma nostalgia danada...