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Mal moderno

por Rosane Pavam publicado 04/04/2008 16h39, última modificação 16/09/2010 16h41
Tendo o céu me abandonado, fiz uma fogueira, para que amigo da fogueira pudesse me tornar. Isto está em um verso de Paul Éluard transcrito no segundo volume de uma história em quadrinhos que acaba de sair pela editora Conrad. Marco da escrita para o meio, “Epiléptico” (L'Ascension du Haut Mal) conta a história do desenhista francês Pierre-François Beauchard, o David B., cujo irmão mais velho, Jean-Christophe, sofre de epilepsia.

Tendo o céu me abandonado, fiz uma fogueira, para que amigo da fogueira pudesse me tornar. Isto está em um verso de Paul Éluard transcrito no segundo volume de uma história em quadrinhos que acaba de sair pela editora Conrad. Marco da escrita para o meio, “Epiléptico” (L'Ascension du Haut Mal) conta a história do desenhista francês Pierre-François Beauchard, o David B., cujo irmão mais velho, Jean-Christophe, sofre de epilepsia. A doença do irmão adoece toda a família, que não cessa de procurar uma cura para o garoto. Mas todas as terapias dão errado, porque também as terapias estão doentes.

Intensa, por buscar alívio existencial sem o encontrar, a história “Epiléptico”, premiada como melhor roteiro no festival de quadrinhos de Angoulême em 2000, usa mais do que um visual exuberante para fazer a comunicação com seu público. Este artista da palavra e do desenho, mas sobretudo da expressão dramática, está em um terreno de transcendência, movimentando interiormente uma grande quantidade de forças, a tal fogueira de que falava Éluard, para expor a própria vida, ou uma parte importante dela. David B. é um artista tão moderno quanto Charles Baudelaire, quase como se o tempo não se tivesse ido desde o surgimento do poeta no século 19.

A modernidade retorna sempre porque é um projeto que fracassou. David B. não hesita em expor seu drama burguês enquanto amaldiçoa sentimentos burgueses de acomodação, como faz o poeta francês. Para ajudá-lo, somente a família. E é aí que reside o problema. A família de David B. não chega a ser contestada pelo autor, mas, como este mesmo livro demonstra, se só temos a família, talvez não tenhamos mais ninguém.

A história nos aproxima do drama particular ali narrado. David B., pseudônimo nascido da admiração de Beauchard pelo judaísmo, é um menino sensível, mas também terrível, iludido e paradoxalmente inocente. Seu irmão é o que ele próprio nega ser: um inadequado. Violento às vezes, disposto a aceitar a base do pensamento autoritário nazista, o irmão epiléptico caminha ao lado de David como uma sombra que ele evita, mas sem a qual não pode viver.

Tudo aquilo em que você acreditou pessoalmente para elevar sua condição humana, a antroposofia, a ioga, o taichi, a medicina, a macrobiótica, a psicanálise, os chineses, as comunidades hippies, o espiritismo, os quadrinhos, a revolução marxista, o ascetismo, Deus, o budismo, tudo cai por terra diante das convulsões de Jean-Christophe. Está nas mãos do personagem a possibilidade de cura, mas ele não a deseja. Admite que está doente (ao contrário dos adequados, que podem estar doentes sem admiti-lo). Ele almeja a proteção burguesa da mãe, que, por infelicidade, tem mais dois filhos para cuidar. E então se fecha, esconde-se, adoece mais. Esta pelo menos é a interpretação que David B. dá ao problema, uma boa interpretação. Se a pátria e a comunidade não podem substituir a figura materna, nem nos proteger dos perigos, fiquemos escondidos atrás da pobre mulher.

No século de Baudelaire, talvez este artista fosse venerado por sua imensa capacidade expressiva, porque nele os meios comunicativos são dois, concomitantes e complementares: as palavras exatas e as imagens sintéticas. David B. faz um grande roteiro visual dentro de um poema. Lembre-se de que Baudelaire era um crítico das palavras tanto quanto da expressão plástica, e em seu século estava em alta a discussão sobre a pertinência da escrita para expressar, solitariamente, um amplo sentido humano.

O cenário visual de David B. é uma espécie de sofisticado cordel, em que as memórias artísticas de todos os tempos se somam. Imagens em preto e branco a partir de batalhas orientais, de signos primitivos, peixes e serpentes, o zodíaco e os tigres intrometem-se na fala dos personagens, e na narrativa propriamente, ampliando-a, negando-a e reforçando-a vezes seguidas. Imagine toda a ironia de “Persépolis”, o jeito parecido de narrar, mas sem o espírito de leveza que encontramos no pragmatismo da autora Marjane Satrapi, e então você se sentirá próximo de David B. Ainda que a artista iraniana comente as contradições que engendraram a violenta revolução dos aiatolás, deixa à solta uma esperança de liberdade de ação. Em “Epiléptico”, ser livre não é possível, embora possamos cavalgar pelo céu de vez em quando, fingindo ser.

E no entanto é um livro tão bonito e essencial, quase como um cânone para nossos tempos... Não vale a pena ignorá-lo. Distantes da compreensão do que é de fato humano, nós nos veremos diante dele desafiados a saber mais. Este livro é um romance, e também uma enciclopédia, um desabafo, uma explicação torta para nosso legado de misérias.

Uma beleza de ajuda, uma auto-ajuda, se você assim quiser.