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Crônica do Villas

Magical Mystery Tour

por Alberto Villas publicado 14/11/2012 09h21, última modificação 06/06/2015 18h56
Alberto Villas relembra o dia em que o pai trouxe dos EUA o clássico dos Beatles e como, 45 anos depois, assistiu ao filme pela primeira vez
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A capa do disco "Magical Mystery Tour"

Mil novecentos e sessenta e oito, o ano que não terminou, não tinha nem começado. Estávamos em 1967 quando meu pai voltou da América do Norte. Sim, chamávamos os Estados Unidos de América do Norte. Chegou e foi logo abrindo as malas repletas de presentes e suvenires pra família inteira. Um dos presentes estava muito bem embalado, embrulhado no meio da roupa suja, protegido por duas calças Lee duras feito um pedaço de pau e um papelão para não empenar. Era o long play “Magical Mistery Tour” que tinha acabado de sair por lá. Sim, chamávamos o disco de vinil de long play.

O mundo era outro. Naquele 1967 usávamos calça Lee contrabandeada, botinha sem meia e não usávamos espelho pra nos pentear. Enquanto o avião levando o marechal Castelo Branco despencava no Ceará, o mundo assistia de boca aberta ao nascimento do forno de microondas. No festival de Monterey quem arrebentava eram os Byrds, os Mamas & Papas, o  Jefferson Airplane, o Pete  Townshend, Janis Joplin, Jimi Hendrix e os garotos do The Who.

Enquanto os hippies faziam sua primeira convenção no Central Park de Nova York, convocados pelo editor de um jornalzinho underground recém-lançado chamado Rolling Stone, o mundo assistia um videoteipe em preto e branco de uma guerra no Oriente Médio que durou apenas seis dias. Muita coisa acontecia. Elvis casava-se com Priscilla Beaulieu, brancos e negros brigavam nas ruas de Detroit, as primeiras minissaias faziam furor nas calçadas de Copacabana, o médico sul-africano Christiaan Barnard tornava-se um pop star ao fazer o primeiro transplante de coração enquanto nas matas da Bolívia morria Che Guevara. De susto, de bala ou vício.

Aquele disco dos Beatles fez um furor no bairro do Carmo, em Belo Horizonte. Meus colegas, colegas dos meu irmão, amigas das minhas irmãs, primos, primas corriam até a nossa casa para apreciar, pegar, ouvir, ler e tentar traduzir as letras de Hello Goodbye, The Fool on the Hill e Your Mother Should Know. Disco saía na América do Norte e demorava semanas, meses, às vezes anos pra sair por aqui. Nem nós em casa acreditávamos que, como num passe de mágica, aquele “Magical Mistery Tour” estava ali rodando na vitrola sem parar.

Hoje, quarenta e cinco anos depois, vi pela primeira vez o filme. Sim, “Magical Mistery Tour” além de disco era também um filme.  Eu e minha filha nos divertimos muito sentados no sofá vendo cada cena em blu-ray do filme que os Beatles rodaram naquele 1967. Nada tem pé nem cabeça. Os quatro garotos de Liverpool tinham uma câmera na mão e algumas ideias nas cabeças. E só. Saíram gravando a esmo e deu no que deu. Um filme com canções maravilhosas e cheio de cenas nonsense total.

Eu e minha filha nos perguntávamos a todo momento:

O que tem a ver esse anão fotografando sem parar?

O que tem a ver essa vaca empalhada?

E esses guardas da rainha dançando no meio do mato?

O que tem a ver o George viajando sem sair do lugar?

E o John servindo macarronada com uma pá de pedreiro?

E os quatro vestidos de bichos, o que tem a ver?

“Magical Mistery Tour” é pura viagem, puro delírio, psicodelismo à flor da pele, uma curtição, como dizíamos. O blu-ray foi pra estante num lugar nobre como item de colecionador porque, pensando bem, sempre fui um garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones.

 

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