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Maestro Prodígio?

por Alexandre Freitas — publicado 09/02/2011 10h26, última modificação 09/02/2011 10h28
Gustavo Dudamel regerá a Orquestra Jovem Simon Bolívar em junho na Sala São Paulo. Aos 30 anos, ele é regente titular da Filarmônica de Los Angeles, vaga que já foi de Otto Kemplerer e Zubin Metha

Normal desconfiar dos prodígios e dos fenômenos. Mesmo aqueles com boas credenciais. Nas manchetes dos jornais e na publicidade tudo tende a parecer um pouco mais do que é. As imagens têm uma força incrível. Esses dias mesmo, no Jornal Hoje, uma senhora comentava, com ar de entendida: “uma celebridade é sempre bem vinda, em qualquer situação”. Tudo bem, ela falava direto da São Paulo Fashion Week. De qualquer maneira, em um mundo em que a fama pode caminhar como atributo autônomo, independente de todo o resto, um pouco de prudência sempre cai bem.

Tinha visto algumas vezes seu rosto estampado em revistas especializadas de música clássica. Passei por ele também na FNAC. Ele estava de braços abertos na capa de um documentário intitulado “The Promise of Music”. Um amigo comentou, entusiasmado, que ele era fruto de um extraordinário trabalho social realizado na Venezuela.

Trata-se do maestro Gustavo Dudamel. Ele regerá a Orquestra Jovem Simon Bolívar em junho na Sala São Paulo. Dia 30 de janeiro passado, na Salle Pleyel, em Paris, ele regeu a orquestra da qual é regente titular, a Filarmônica de Los Angeles. Completou 30 anos há duas semanas e ocupa a vaga que já foi de Otto Kemplerer, Zubin Metha e Carlo Maria Giulini. É um fenômeno. Fui conferir.

Mas antes assisti ao documentário citado, distribuído pela Deutsche Grammophon e dirigido por Enrique Sánchez Lansch. O filme reconstrói, através de depoimentos dos músicos e seus familiares, a história da orquestra e a acompanha em viagem à Europa. As imagens são, principalmente, de Caracas e de Bohn, na Alemanha. Em algumas cenas do filme, porém, tive certeza de que estávamos no Rio ou em São Paulo. Nossas favelas, nossas casas de classe média e boa parte de nossos prédios são similares àqueles da capital venezuelana. Porém, o apoio governamental a esse segmento cultural, que é o da música clássica, é bem diferente por lá. Isso fica bem claro, apesar de o filme não mencionar.

As falas de Dudamel, de seus professores e dos músicos, a história da orquestra jovem e todas as imagens do filme, nada disso me impressionou. É natural que um projeto, de qualquer natureza, com recursos e bem gerido, produza bons resultados. Porém, logo nos primeiros sons da orquestra no documentário, vê-se que não se trata somente de um projeto social bem sucedido. A orquestra Simon Bolívar vai além, nos seduz, nos arrasta desde os primeiros segundos. Não pela imagem, mas pela sonoridade densa e quente. O maestro parece conseguir gerir toda a tensão, toda aquela força hormonal de um grupo de adolescentes e jovens, bem jovens.

Quanto à Filarmônica de Los Angeles, regida por Dudamel semana passada, nada de surpresas. Música estadunidense na primeira parte e a sétima de Beethoven, na segunda. De John Adams ouvimos a Slonimsky's Earbox, na paradoxal e genial combinação de ressonâncias minimalistas no interior de uma orquestração nada econômica. Em seguida, Bernstein e sua sinfonia n.1 (Jeremiah). Em três movimentos (Profecia, Profanação e Lamentação) e com uma mezzo-soprano como solista (Kelley O'Connor), a música tinha uma carga emocional prodigiosa. Normal para uma sinfonia composta por um judeu em plena Segunda Guerra.

Como bis, Dança Húngara n.1 de Brahms. Em uma peça como esta, em que o tempo é muito flexível, ficou evidente o controle que o jovem maestro exerce sobre a veterana orquestra. Não vejo mais incômodo em considerar Gustavo Dudamel como prodígio, mas, do jeito que as coisas caminham, em pouco tempo ele será simplesmente: um grande maestro. Nada mal.