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Cultura

Edição 630

Maestria seminal

por Orlando Margarido — publicado 26/01/2011 08h26, última modificação 26/01/2011 11h26
É provável que do influente legado de seis décadas de carreira deixado por Claude Chabrol ao cinema poucos entusiastas elegeriam como preferidos Nas Garras do Vício e Os Primos. Por Orlando Margarido

Nas garras do vício e Os primos, de Claude Chabrol
Lume Filmes, R$ 44,90 cada

É provável que do influente legado de seis décadas de carreira deixado por Claude Chabrol ao cinema poucos entusiastas elegeriam como preferidos Nas Garras do Vício e Os Primos. Esses dois filmes do mestre francês morto aos 80 anos em setembro passado têm por certo outra função àquela de lista de melhores. Lançados agora em DVD pela Lume, representam a marca inaugural da obra do cineasta e são complementares, dípticos, se assim se preferir, ainda que em sentido contrário nas suas histórias. O primeiro é sua estreia e foi realizado em 1958 com dinheiro de herança
da mulher, como gostava de contar. O outro vem um ano depois e mostra muito de um espírito intrigante que se vincularia a seus dramas. Neles se nota a habilidade do suspense que o ligaria sempre a Hitchcock e à crítica
aos costumes burgueses, seus temas prediletos. Assim, visto em retrospecto, esse exercício duplo no início da Nouvelle Vague mas com face neorrealista torna-se ainda mais instigante.

Em Nas Garras do Vício, temos o estudante François (Jean-Claude Brialy) que volta de Paris ao vilarejo onde nasceu. Encontra ali o amigo Serge (Gérard Blain), dependente do álcool para suportar o cotidiano e um mau casamento, que apenas mantém pelo filho prestes a nascer. A trama se inverte em Os Primos. É agora o jovem da província que vai visitar o primo em Paris, onde leva uma vida boêmia e mundana, para então se degradar. Os atores se repetem e entre os rapazes há uma mulher a testá-los na amizade, com um mistério a ser desvendado no primeiro filme e uma paixão que leva a atitude drástica no segundo.  Desde aqui, os personagens já apresentam o tormento e a complexidade que geraria o modelo chabroliano de obras-primas como O Açougueiro e Mulheres Diabólicas.