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Crônica

Luta de Classe

por Alberto Villas publicado 15/04/2016 05h10
O Brasil de abril de 2016 está caminhando mais ou menos a

A moradora do 501 simplesmente parou de cumprimentar o porteiro que trabalha no prédio há dez anos, desde o dia em que ele disse que não iria naquela manifestação do #vemprarua.

O afilhado estranhou que, pela primeira vez, a madrinha não ligou no dia do seu aniversário. Comentou com a mãe, que respondeu na lata: Ela ficou aborrecida com aquele seu post do Lula suado e os dizeres “Ele voltou!”. 

O motorista do ônibus 817C comentou com o cobrador que o dono do bar na esquina da Rua Catão nunca mais acenou pra ele, depois que soube ter ele votado no Pastor Everaldo na última eleição. 

O tio, numa manhã de segunda-feira, a primeira coisa que fez foi entrar no computador e deletar o sobrinho que mora em Minas Gerais, quando viu que ele colocou o pato da Fiesp no seu avatar.

Na mesa do jantar dos Oliveira, o pai proibiu de falar em política desde o dia em que um filho mais novo saiu da mesa e deixou o prato esfriando por conta de uma discussão sobre o Cunha virar vice. 

No escritório de contabilidade que fica na Avenida Paulista, são três funcionários que não falam mais com a menina do café porque ela disse que tem certeza que o tríplex do Guarujá não é do Lula. 

O estudante da Faculdade de Direito do Largo do São Francisco resolveu agora ignora o colega de curso que lhe deu de presente um livro do Diogo Mainardi, meio de gozação, mas ele levou a sério.

O sindicalista baixou uma norma em casa. Ninguém ali liga mais na Globo, desde o dia em que a emissora colocou o Aécio defendendo o impeachment da Dilma, durante mais de três minutos.  

Na casa dos Pereira, agora é ordem. O Jornal Nacional sempre fica no mute na hora do jantar, para evitar novas brigas como aquela no dia em que o Bonner disse ter apenas 40 mil petistas na Avenida Paulista. 

Um morador da Rua Clélia trocou de botequim quando foi tomar uma Itaipava e viu uma faixa de pano na porta escrito assim: “Black Dilma. Passo o ponto”. 

Os dois palmeirenses fanáticos nunca mais foram juntos ao Allianz Parque, depois daquela discussão no carro sobre o sítio em Atibaia. Agora, um vai de carro, o outro vai de ônibus.   

O advogado deixou de comprar o Estadão na banca em frente ao Conjunto Nacional quando viu o dono defendendo os estudantes que protestavam contra o roubo da merenda, bem ali ao lado. 

A enfermeira de um hospital no Paraíso resolveu que, de agora em diante, é só bom dia e até amanhã para o segurança que é contra o impeachment. 

A secretária de uma pequena agência de publicidade resolveu trocar o motoboy depois que ele disse que o Brasil está precisando é de um Bolsonaro.

A caixa do banco pediu transferência porque o outro caixa, ao seu lado, passava o dia criticando o Bolsa Família e os médicos cubanos.    

O jornalista paulista decidiu bloquear seu amigo carioca no Facebook assim que leu o post dele dizendo que o Chico Buarque tinha muito que aprender com o Fábio Junior.

A reunião de condôminos nunca mais teve quórum desde o dia em que o pau quebrou quando começaram a discutir se proibiam ou não a bateção de panelas depois das 10 da noite.  

Bastou o neto postar um GIF ridicularizando o Serra, que o avô por parte de pai nunca mais compartilhou ou curtiu nada dele. 

Foi só o roqueiro colocar uma foto do show dos Rolling Stones em Havana pro amigo no Face desde 2013 mandar um inbox curto e grosso “vai pra Cuba!” e deletá-lo em seguida.

Agora, por enquanto, ninguém sabe ainda quem furou os quatro pneus daquele Tucson preto com placa de Santana de Parnaíba estacionado na garagem, que tinha um adesivo escrito assim: “A culpa não é minha, votei no Aécio. 

O morador já requisitou ao síndico as imagens feitas pela câmera de segurança. Aguardemos.

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