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Brasiliana

Lua de fel

por Rodrigo Martins publicado 13/08/2010 11h23, última modificação 13/08/2010 15h20
Concurso de misses testa a paciência de uma noiva ciumenta logo após o casamento
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Foto: Olga Vlahou

Concurso de misses testa a paciência de uma noiva ciumenta logo após o casamento

Uma semana num resort em Angra dos Reis, litoral fluminense, com praia privativa e passeios de lancha pelo arquipélago. Era a lua de mel dos sonhos para a produtora de eventos Tatiane Zachhau, 27 anos. Ao menos até o primeiro café da manhã, ao descobrir que o Hotel do Frade abrigava a final do concurso Miss Mundo Brasil 2010.

Pelas cadeiras do restaurante, 37 candidatas, uma legião de modelos, dançarinas, atrizes e universitárias, na disputa para representar o Brasil na final do Miss Mundo em Sanya, na China, em outubro. “Eu queria morrer! Tirei meu marido do salão e fiquei com ele no bar até as meninas saírem. Vê se pode... Em plena lua de mel dividir a atenção dele com essas garotas. O Paul tem uma sorte incrível”, desabafa a noiva.

O felizardo, Paul Zachhau, piloto de jatinhos, de 32 anos, não perde a oportunidade de admirar as jovens, mas garante que a surpresa não foi tão boa quanto parece. “Imagina a saia justa, esse monte de mulherão pelo hotel e minha mulher do lado, brigando comigo. Mas depois ela levou numa boa”, afirma, pouco antes de elogiar a Miss São Paulo, a desfilar de biquíni pela passarela, na grande final do sábado 7. “Paul, se concentra! Foco, hein? Eu estou aqui, não estou lá!”, recrimina a esposa, arrancando risos dos demais hóspedes.

Verdade seja dita, as misses não hipnotizaram apenas o noivo. Em volta da passarela, uma dúzia de alunos do Colégio Naval de Angra assovia para as garotas. “A gente podia escolher uma para cada um e todo mundo ficava satisfeito, né?”, comenta um deles, pouco antes de o grupo ser enquadrado por uma oficial da Marinha: “Postura. Tirem a mão do bolso e se comportem”.

Na noite anterior, durante o “Festival da Broadway”, criado para avaliar as misses em fantasias, um dos militares foi laçado pela faixa da Miss Trindade e Martim Vaz, Diana dos Santos, a interpretar uma dançarina de cabaré no concurso. Da alcateia de mulheres felinas, a Miss Rio de Janeiro, no papel de tigresa, engatinhou mostrando a língua à jurada daquela etapa, Patrícia Chélida, destaque da escola de samba carioca Unidos da Tijuca. “Ousada, hein?”, comenta um senhor de cabelos brancos que acompanhava a apresentação.

No vaivém de misses, duas senhoras se desdobram para organizar a entrada das garotas. São as chaperonas, espécie de dama de companhia que orienta as candidatas. “Temos de controlar o horário delas e dar suporte no que for necessário. Também lidar com as intrigas e fofocas”, resume Carmen Fusquine, titular do cargo.
A colega de ofício, Lourdes Reis, de 72 anos, afirma que também compete a elas dar dicas de comportamento e alertar quando a faixa está desalinhada, o cabelo está desajeitado. “Elas precisam manter a postura de miss, de salto alto e tudo mais, desde a hora que acordam. É difícil. São garotas muito jovens, de 16 a 25 anos, que precisam de uma figura materna”, afirma Lourdes, momentos antes de caçar uma miss para lhe entregar um remédio.

Segundo Henrique Fontes, organizador do evento, as chaperonas são fundamentais para o concurso, precedido de numerosas seletivas locais. Nem todas as concorrentes moram ou nasceram nos estados que representam. “Temos dificuldades em alguns lugares, então convidamos garotas de outras localidades. E, para ter mais candidatas na disputa, incluímos as ilhas.”

“No ano passado, um jornalista perguntou a uma miss se ela era do Atol das Rocas. A resposta foi ótima: ‘só se eu fosse uma lagosta, a ilha não é habitada’”, sorri Fontes, ao explicar que o objetivo é escolher a melhor representante do Brasil para a competição mundial, que envolve 120 países.

Talvez o melhor exemplo das chamadas “misses biônicas” seja o de Suymara Barreto, Miss Rondônia e terceira colocada no Miss Mundo Brasil 2010. Nascida em Belém do Pará, ela mora no município goiano de Anápolis. Vice colocada na seletiva do estado foi convidada a representar Tocantins no concurso nacional de Miss Universo (liga concorrente e mais conhecida no Brasil). “O melhor foi ver a Miss Goiás, para quem eu perdi no estadual, ser desclassificada na primeira eliminatória, enquanto eu segui adiante”, comenta, venenosa.

Outra biônica no concurso era a mineira Anna Silveira, “representante” do Amazonas. Sempre ao lado do agente, a modelo não consegue responder uma pergunta sem a intervenção do empresário. “Fala que você vai fazer uma ponta na novela da Record”, interrompe o homem. “Diz que você já desfilou em Paris”, ordena novamente. “Sobre isso é melhor não falar”, intervém uma vez mais, quando a garota explica a razão de representar outro estado.

Tamanha rivalidade faz a Miss Trindade desabafar ao término da prova de criatividade: “Elegemos a Miss Simpatia, mas também deveríamos escolher a Miss Antipatia”. Alheia ao comentário, Sílvia Bitarães, a Miss Roraima, tenta arrastar a amiga para uma festa privativa num dos salões do hotel. Entrou sozinha e virou atração, cortejada por vários homens nos breves 15 minutos em que passou por lá. “Eles disseram que, se dependesse deles, eu já seria a Miss Brasil”, conta, com um largo sorriso.

A rivalidade é superada quando as primeiras misses são desclassificadas. Enquanto as finalistas seguem no desfile, as derrotadas se consolam nos bastidores até a vitória da Miss Pará, Kamilla Salgado. “Dá pena ver as meninas tristes desse jeito”, diz Tiago Seixas, da grife Luxo Primitivo, responsável pela confecção da coroa de miss. “Cada detalhe foi pensado, como o globo de obsidiana lapidado com o desenho dos países em prata”, explica, com o pesar de quem não queria se desfazer da criação.

Do saguão do hotel, Tatiane respira aliviada no fim do concurso. E o marido elogia a mulher na lua de mel: “Ela mostrou ser uma mulher madura, capaz de controlar o ciúme”. Uma gargalhada interrompe sua fala. “Estou adorando ouvir isso. Fala mais, Paul. E deixa registrado isso, viu?”, ordena a noiva ao repórter. Missão cumprida.