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Longe demais

por Rosane Pavam publicado 18/07/2010 15h45, última modificação 16/09/2010 15h46
É um descalabro, bem sei, mas quando alguém como esta jornalista se recorda do apreço nutrido pelos quadrinhos, como fez em coluna passada, não parece difícil que no dia seguinte passe a confessar que, sim, à moda de qualquer nerd de computador, amou as séries de televisão na infância e muitas vezes se viu devota a elas, como os antigos, aos oráculos ou livros.

É um descalabro, bem sei, mas quando alguém como esta jornalista se recorda do apreço nutrido pelos quadrinhos, como fez em coluna passada, não parece difícil que no dia seguinte passe a confessar que, sim, à moda de qualquer nerd de computador, amou as séries de televisão na infância e muitas vezes se viu devota a elas, como os antigos, aos oráculos ou livros.

“Vocês psiquiatras não dão pirulitos?”, pergunta o ator Billy Mumy, que originalmente era o menino sensato de Perdidos no Espaço, a Hayden Rorke, o Major Bellows de Jeannie é um Gênio, em uma ocasião na qual o célebre ator mirim se viu especialmente convidado a um episódio da série de Sidney Sheldon, ainda nos anos 60. Em Jeannie é um Gênio, a linda e loira Barbara Eden era a protagonista, ao lado de um Larry Hagman de olhos azuis que se revelaria tão mau depois, em Dallas.

Foi naquele seriado responsável por encenar a fantasia erótica da mulher voluntariosa mas submissa,Jeannie, que ouvi um diálogo dos mais inteligentes na história dessas transmissões. Posso aplicá-lo de modo simples e direto em diversas ocasiões de minha vida. Hagman dizia a Eden, que sempre o deixava em apuros: “Você foi longe demais!”. Ao que ela lhe retrucava: “Sim, fui, mas logo estarei de volta.”
Me deixem ir longe demais, porque logo voltarei. E me dêem pirulitos.

Nas séries de televisão, como no antigo cinema industrial, ambos americanos, exercitam-se há mais de cinco décadas diálogos que são reflexivos de uma consciência, ou inconsciência, social e histórica. O palavreado que vemos neles talvez tenha nascido dos Irmãos Marx, que não precisavam fazer filmes bons, no aspecto estrito de uma grande cinematografia, mas que eram inacreditavelmente revolucionários, até por desprezá-la.

Os Marx não originaram uma escola de cinema, propriamente, visto que sua grandeza permanece inalcançável e inimitável; pelo contrário, eles ajudaram a fixar um altíssimo nível de realização ainda presente, em alguns momentos, nas séries americanas de televisão. Nesta tevê que é arte mediana, as expressões dos atores e os cenários praticamente fixos encenam provérbios e diálogos sempre muito próximos dos chistes. Nem toda série americana é tão inteligente, desnecessário dizer. Mas toda ela, por natureza, persegue este princípio.

Tanto é assim que não parece fácil, a qualquer filme desta indústria atual, superar a inteligência que existe sempre em qualquer episódio de Frasier, Everybody loves Raymond ou Will and Grace, para citar algumas séries de humor nem tão recentes. Um pouco de surrealismo aqui, de acidez ali, e o pensamento americano estará expresso diretamente ao público, sem pirulitos.

Em oposição a Jeannie, havia Samantha, representada pela atriz Elisabeth Montgommery de A Feiticeira. Que maneira quase única de unir inteligência e beleza, que maravilhosos atores secundários comentadores... Em um episódio, a simples existência da filha do casal Stephens, Tabitha, ameaçava o sistema financeiro da América, já que, com o toque de seu dedo de bebê, a garota indicava a qualquer um, no jornal, as melhores companhias onde comprar ações. A senhora Gladys Krawitz, a vizinha enxerida que é o símbolo da série, poderia ser feia de doer, mas era uma mulher, e enxergava tudo, afinal, como se passava no domínio de Sam, com o objetivo sempre desastrado de controlá-lo.

A percorrer o seriado, estava a idéia de que uma mulher não poderia exercer toda a sua sensualidade ou magia, ou os casamentos naufragariam; que mais lhe valeria a sombra, em nome do bem-estar geral, do que a projeção nascida de uma carreira, ou de uma delação; que um sistema econômico dominante não poderia viver sem a doce mediocridade dos homens, ou maridos, que tocavam o barco sem muita inteligência, mas com braços fortes.

Talvez sejam assim, até este momento, as famílias médias ocidentais, em busca de um equilíbrio interno improvável quando todo o contexto que lhe cerca, cultural, social, existencial ou financeiro, parte-se. Hoje, a família americana retratada nas séries é assumidamente disfuncional, mas naquele tempo a desagregação representava apenas um anúncio.

Entre Samantha e Jeannie, tudo em Jeannie talvez fosse mais utópico, sem complicações, o sonho erótico de realização sempre prometida, enquanto para Samantha restavam o trabalho intelectual e a negociação administrativa. Sua família - a mãe Endora, a tia Clara, Esmeralda, o doutor Bambay, entre outros tipos surpreendentes - agia como uma empresa cultural promissora, mas enlouquecida, necessitada de ordenar o grande talento de seus funcionários para que o horizonte de um futuro sólido e lucrativo jamais se perdesse.