Você está aqui: Página Inicial / Cultura / London Calling!

Cultura

Crônica do Villas

London Calling!

por Alberto Villas publicado 18/10/2012 10h50, última modificação 06/06/2015 18h56
Como pode uma cidade inspirar tantos compositores?
Londres

Como pode uma cidade inspirar tantos compositores? Foto: Galeria de carlescs79/Flickr

Um dia, uma das revistas mais charmosas do mundo, a inglesa Time Out, publicou uma reportagem de capa com um sugestivo título roubado do Clash: "London Calling!" A matéria, na verdade , é uma lista de cinquenta canções que falam da cidade. Tem um pouco de tudo. London Pride com Noël Coward, Swinging London Town com Girls Aloud, London com The Smiths, London Dungeon com The Misfits e também London London com o nosso Caetano Veloso, o único brasileiro da lista.

Como pode uma cidade inspirar tantos compositores?

Mas não é só Londres uma musa inspiradora.

Pensei logo em New York, New York na voz de Frank Sinatra, na April in Paris ao som de Count Basie, e na Berlin de Lou Reed. E comecei então a pensar em nossos compositores , nas cidades que os inspiraram.

Caetano Veloso de London, London já falou de Teresina em Cajuína (e éramos olharmo-nos intacta retina/a cajuína cristalina em Teresina), já falou de Barcelona em Vaca Profana (segue a movida madrileña/também te mata Barcelona),  de Salvador na adaptação de  Marinheiro Só (eu sou da Bahia, marinheiro só/de São Salvador) e até de Brasília em Flor do Cerrado (mas da próxima vez que eu for a Brasília/eu trago uma flor do cerrado pra você).

Olinda inspirou Edu Lobo no Cordão da Saideira (moço no passo, menina e senhora/no bonde de Olinda pra baixo e pra cima), Recife inspirou Antônio Maria em Frevo Número 2 do Recife (quando eu me lembro o Recife está longe/e a saudade é tão grande que eu até me embaraço).

O Rio de Janeiro inspirou Gilberto Gil em Aquele Abraço (o Rio de Janeiro continua lindo/o Rio de Janeiro fevereiro e março), Zé Ketti em A Voz do Morro (sou natural daqui do Rio de Janeiro/sou eu quem leva a alegria para milhões de brasileiros), Tom Jobim em Samba do Avião (minha alma canta/vejo o Rio de Janeiro/estou morrendo de saudade), Billy Blanco em Sinfonia do Rio de Janeiro (Rio de Janeiro, que eu sempre hei de amar/ Rio de Janeiro, a montanha, o sol e o mar) e Antônio Maria em Valsa de uma Cidade (Rio de Janeiro/gosto de você /gosto de quem gosta desse céu, desse mar, dessa gente feliz).

São Paulo inspirou Paulo Vanzolini em Ronda (de noite eu rondo a cidade a te procurar), Caetano em Sampa (alguma coisa acontece no meu coração/que só quando cruzo a Ipiranga e a avenida São João), Tom Zé em São São Paulo (apesar de todo defeito/te carrego no meu peito/São São Paulo meu amor). A estrada de Santos inspirou o rei Roberto Carlos (eu prefiro as curvas da estrada de Santos/onde eu tento lhe esquecer), Porto Alegre inspirou Kleiton e Kledir em Deu pra Ti (deu pra ti/ baixo astral/vou pra Porto Alegre, tchau), Londrina, Arrigo Barnabé e, a minha querida Pirapora, Renato Teixeira.

Manaus inspirou Chico Buarque em Bye Bye Brasil (eu vou dar um pulo em Manaus/aqui tá quarenta e dois graus), Belém do Pará inspirou Dorival Caymmi em Peguei um Ita no Norte (peguei um Ita no norte/pra vim pro Rio morar/adeus meu pai, minha mãe/ adeus Belém do Pará".

No recém lançado Tropicália Lixo Lógico, Tom  Zé na canção Capitais e Tais faz uma homenagem a seis cidades de uma só vez: Maceió, João Pessoa, Teresina, Recife, Aracaju e Cuiabá. Numa só canção – Pelas Capitais –, o velho baiano Moraes Moreira também homenageou todas as nossas capitais, de norte a sul, de leste a oeste.

Mas eu, como bom mineiro, sempre desconfiei que aquele trechinho de Águas de Março, Tom Jobim fez uma homenagem a cidade onde nasci: "É pau, é pedra, é o fim do caminho /é um resto de toco, é um pouco sozinho/é um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã/é um belo horizonte, é uma febre terçã"