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Livros à procura de leitores

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 07/05/2010 17h36, última modificação 20/09/2010 17h37
Movimento incentiva uma corrente de distribuição aleatória de exemplares

Movimento incentiva uma corrente de distribuição aleatória de exemplares

Se você começar a encontrar em locais públicos cariocas um livro aqui, outro acolá, com jeito de esquecido ou abandonado, não se avexe. Vá lá e pegue-o. O livro está ali à espera de um leitor que depois o passe adiante, exatamente da mesma forma que o encontrou. Que tal começar a deixar livros já lidos em bancos de praça ou noutros locais em que possam ser achados, desejados, lidos e, mais uma vez, passados à frente?

Quantas vezes já quisemos doar livros e ficamos sem saber que destino dar a eles, que acabaram voltando, ou nem saindo, da estante lotada. Doar livros requer, ainda, a prática, nem sempre fácil, do desapego. Um sentimento de propriedade inútil muitas vezes toma conta dos donos das obras que não percebem que elas já cumpriram sua função. Doar livros é como libertar pássaros.

Ampliar esta corrente mais do que do bem é o que quer o projeto Livro de Rua, inspirado no movimento internacional BookCrossing, que difunde o pensamento há tempos. A intenção é transformar as cidades em bibliotecas sem muros, sem estantes, sem armários ou gavetas. A ideia de libertar livros já lidos, para que se tornem instrumentos de transformação de outras pessoas – se deixados em comunidades carentes melhor ainda – é do Instituto Ciclos do Brasil. A ONG também promove distribuição de livros em locais públicos, com “contação” de histórias e récitas de poesia, e incentiva a criação de Bibliotecas da Liberdade. Essas são instaladas em locais onde se pode colocar e retirar livros sem nenhum tipo de restrição. O único compromisso é devolvê-los para que sirvam a outras pessoas.

A Biblioteca da Liberdade pode nascer em bares, lan houses, igrejas, postos de saúde e outros que possam virar espaços de leitura. Como os livros resultam de doações, não há custo ou burocracia. Para fortalecer a corrente, pode-se cadastrar o livro no site www.livroderua.com.br, no qual registra-se o número da inscrição que deverá ficar na capa e o último local onde o livro foi deixado. Assim, sabe-se quantas pessoas foram beneficiadas e por onde o livro vem passando.

No domingo 25 de abril, do recente Viradão Carioca, cerca de mil livros foram doados no Posto 6, em Copacabana, numa barraca montada pelo Livro de Rua, ao lado da estátua sedestre do poeta Carlos Drummond de Andrade. Drummond, que não pediu, mas que, forjado em bronze, está sentado num banco, assistindo ao mundo, vasto mundo de Copacabana, deve ter ficado feliz. Pena que estátua não fala. Mas sente.

Pra frente, Brasil!
Quando passar o afã da Copa, restarão os muros pichados

Tudo verde-amarelo por conta da Copa. Estamos já atolados na publicidade que entra em campo, por todas as vias, sem cerimônia. Fazer o quê? Quem vai resistir quando a bola rola? Mas não tem a menor graça fabricantes de cerveja incentivarem a pichação de ruas, ao promover concurso para eleger a “obra” mais criativa. Sabemos que é costume dos torcedores cariocas decorar de auriverde as vias públicas, pintando asfalto, muros, postes, o que puder. Os logradouros viram verdadeiros arraiais futebolísticos.

Passado o afã dos jogos, as artes resultam em tragédias estéticas extemporâneas para a já tão imunda cidade. É verdade que organizando concursos, a esculhambation tende a ser mais civilizada. Mas é uma ação publicitária a ser pensada, mesmo em tempos em que os pichadores do Cristo pedem perdão ao Rio, amargando um castigo chique, limpar a entrada do Túnel Novo, sob os holofotes da mídia.