Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Livro traz histórias de palestinos sob a ocupação israelense

Cultura

Oriente Médio

Livro traz histórias de palestinos sob a ocupação israelense

por Brasil de Fato — publicado 17/03/2011 17h38, última modificação 17/03/2011 17h41
"O outro lado do muro", da jornalista Fernanda Campagnucci, será lançado no dia 29 de março na Livraria da Vila, em São Paulo. À Ana Maria Straube, do Icarabe

"O outro lado do muro", da jornalista Fernanda Campagnucci, será lançado no dia 29 de março na Livraria da Vila, em São Paulo

À Ana Maria Straube, do Icarabe

Ao longo de 17 dias, a jornalista Fernanda Campagnucci viajou por diversas cidades de Israel e da Cisjordânia com o objetivo de contar as histórias de vida de palestinos e israelenses que vivenciam o cotidiano da ocupação, e tiveram suas existências marcadas de forma profunda pelos conflitos na região. Ou, em suas palavras, “dar um rosto humano aos números do conflito, às estatísticas pavorosas do noticiário”.

O resultado dessa experiência é o livro Do outro lado do muro (Ed. Multifoco), que será lançado no dia 29 de março, na Livraria da Vila. Além da noite de autógrafos, o lançamento conta com uma mesa-redonda sobre a questão palestina com a presença da autora, de Arlene Clemesha, diretora do Centro de Estudos Árabes da Universidade de São Paulo (USP) e de Soraya Misleh, jornalista palestina e diretora do Instituto da Cultura Árabe (ICArabe).

Graduada pela ECA-USP, ativista e pesquisadora nas áreas de educação e direitos humanos, Fernanda conta, na entrevista abaixo, detalhes sobre a viagem e a experiência de escrever sobre a questão Palestina.

ICArabe: O livro O outro lado do muro conta sua experiência de viagem à Palestina. O que despertou seu interesse pelo tema? De onde surgiu a ideia de viajar e escrever sobre a região?

Fernanda Campagnucci: Como jornalista e ativista na área de direitos humanos, sempre acompanhei com aflição as notícias sobre o conflito israelo-palestino, e seus ciclos de violência que se repetem com o silêncio complacente da chamada comunidade internacional. Mas, embora não tivesse nenhuma relação mais estreita com o tema, sabia que se tratava de uma violência com origens bem precisas, que não remontam a “milênios”, como diz o senso comum. Uma pessoa que acompanha o assunto apenas pelo noticiário muitas vezes não sabe disso, e desmistificar essa noção de que o conflito é uma tragédia sem fim, contextualizar as causas e forças em jogo, me pareciam uma tarefa fundamental do jornalismo, e o tipo de jornalismo que eu queria fazer.

Estava morando na França quando surgiu a oportunidade de viajar para a Palestina e conhecer a situação de perto. Na faculdade, tive contato com um grupo de estudantes da União Geral dos Estudantes Palestinos, que, articulado a estudantes franceses, inclusive judeus, estava organizando um intercâmbio para jovens europeus. Como era um grupo bem interessante e diverso, aproveitei a “carona” e me juntei a eles, o que foi ótimo para abrir meu leque de pontos de vista.

Além disso, tem toda a simbologia que carrega o muro erguido por Israel para segregar o território palestino. No prefácio do livro eu digo que “um muro tão acintoso como esse é quase um convite a tentarmos enxergar o que há do outro lado”.

Quando aconteceu sua viagem para a Palestina? Fale um pouco sobre o trajeto, roteiro, locais visitados etc.

A viagem aconteceu em julho de 2007, exatamente no momento em que os partidos Hamas e Fatah se enfrentavam da Faixa de Gaza (depois que a vitória do grupo islâmico nas eleições não foi reconhecida pelo Fatah). Era impossível entrar em Gaza, que se encontrava completamente bloqueada. Havia algum reflexo da disputa na Cisjordânia, mas não cheguei a presenciar confrontos diretos. Em um dos dias, porém, estava num hospital quando vi chegarem dezenas de estudantes feridos em um confronto que aconteceu entre partidários do Hamas e Fatah, numa universidade.

Entrevistei israelenses em Tel Aviv, e conheci as contradições da cidade, moderna, luxuosa, desigual e obcecada por segurança. Também visitei Jerusalém, e fiquei hospedada em um albergue na cidade velha, entre turistas e ativistas. Passei pelas cidades de Ramala e Lod, que foram importantes cidades árabes no início do século 20 e hoje estão em território israelense, e onde se encontra muito viva a lembrança de moradores sobre os massacres de 1948.

Visitei comunidades beduínas do deserto do Neguev, que vivem em dezenas de cidades árabes que não existem oficialmente no mapa de Israel, as “cidades invisíveis”. Por fim, conheci Jaffa, a bela cidade portuária que se tornou mundialmente conhecida por suas laranjas e fazia da Palestina a maior exportadora da fruta no século 19 – a cidade foi rebatizada de Yaffo, em hebraico, mas Israel manteve a prestigiosa marca com seu nome árabe. Os moradores árabes, cidadãos israelenses, denunciam ali um processo de gentrification, ou expulsão das famílias com a supervalorização dos imóveis.

Na Cisjordânia, pude conhecer Belém, e o impacto da ocupação militar israelense na vida das pessoas que por muito tempo viveram do turismo. Ali perto, presenciei um protesto contra o muro em Um Salamona, a exemplo do que acontece às sextas-feiras em várias cidades palestinas; as cidades de Deishé e Nablus, mais ao norte, e sua intensa vida associativa (de organizações políticas e culturais); Tulkarem, que fica bem próxima ao muro, onde conheci uma associação de mulheres, vi casas divididas ao meio e tive contato com a maior comunidade negra da palestina. Ouvi muitas histórias comoventes no campo de refugiados de Balata, e no pequeno povoado de Yanun senti o desespero das famílias que, cercadas por colônias sionistas, perdem suas plantações de oliveiras e sua fonte de subsistência.

Foram feitos contatos com movimentos e ativistas da causa palestina antes da viagem? Você entrevistou personalidades políticas e gente comum? Quais foram os critérios que definiram quem seriam os entrevistados?

Além dos estudantes palestinos de que falei, entrei em contato com o jornalista Michael Warschawski, do AIC – Alternative Information Center – e Jeff Halper, do ICAHD – Comitê Israelense contra a Demolição de Casas. Depois os entrevistei lá. Mas conheci vários outros ativistas pelo caminho, de vários países e diferentes visões sobre o conflito.

Na verdade, me interessavam mais os “anônimos”, pessoas que tinham suas histórias de vida para contar, já que eu buscava dar um rosto humano aos números do conflito, às estatísticas pavorosas do noticiário. A ideia era ir contando, em forma de diário, mesmo, todo o tipo de encontro que tive ali. Mas acabei falando com funcionários da Autoridade Palestina, em gabinetes como o Ministério da Saúde, até para tentar obter algumas informações oficiais.

De forma geral, qual sua impressão sobre a Palestina? O que mais chamou sua atenção?

Sem dúvida, me impressionou a intensa vida associativa na Palestina. Ainda que com muita dificuldade de financiamento, e de condições mesmo de existência, há muitas organizações políticas e culturais, associações de moradores. Isso impressiona porque o território palestino está em frangalhos, dividido em ilhas, bantustões, e é quase impossível a circulação dos palestinos entre cidades do norte e sul da Cisjordânia, por exemplo. Eu não esperava uma vitalidade tão grande dessas organizações, com a ressalva da precariedade de sua atuação. Boa parte disso se deve à presença de ONGs internacionais, cuja entrada Israel tem intenção de barrar (recentemente, soube que estavam impedindo a retirada de vistos de trabalhos em ONGs internacionais que atuam na Cisjordânia). Também me chamou a atenção o engajamento das crianças, adolescentes e mulheres nessas associações.

Em relação às mulheres, permanece no Ocidente o estereótipo de opressão relacionado à cultura árabe, caracterizada como machista. Qual sua impressão sobre essa questão?

As mulheres palestinas tradicionalmente participaram da mobilização por sua terra, a despeito da imagem estereotipada do ocidente com relação a elas. Segundo o historiador Ilan Pappe, a primeira associação de mulheres na região foi fundada em 1903. Encontrei e entrevistei muitas mulheres, muçulmanas ou não, todas engajadas de alguma maneira na luta pela paz. Mouna, muçulmana e integrante de uma associação de mulheres em Tulkarem, me disse justamente que as mulheres palestinas sempre lutaram ao lado dos homens, “de igual para igual”, nas palavras dela. Para Mouna, o que se transmite para quem está fora é a imagem de uma mulher aprisionada em casa, e talvez por isso ela tenha se preocupado em fazer para mim esse discurso tão marcado na questão de gênero.

Você enfrentou alguma dificuldade para circular nos territórios palestinos? Sofreu alguma restrição por parte das forças israelenses? Alguma dificuldade específica pelo fato de ser mulher?

Há infinitas dificuldades de circulação, mas uma pessoa com um passaporte de outro país, como o meu, tem privilégios que os palestinos estão longe de ter. Como eu disse antes, a Cisjordânia é um verdadeiro arquipélago, onde há centenas de postos de controle (os chamados checkpoints) controlados por soldados israelenses. Um caminho simples, de 40 minutos, pode levar várias horas  para ser feito. Os taxistas, acostumados com a situação, se comunicam e sabem quando determinados postos estão fechados, e quais desvios tomar. Em alguns desses controles só se pode passar a pé. Em todos os dias que circulei por esses checkpoints, vi filas enormes de palestinos que esperavam para cruzar, e na maioria das vezes os homens eram impedidos de passar. A relativa facilidade que desfrutei por causa do meu passaporte me deixou constrangida e revoltada, muitas vezes.

Por outro lado, os visitantes internacionais não são bem-vindos nos territórios ocupados, então há questionamentos e constrangimentos o tempo todo. Criaram dificuldades com o guia palestino que nos acompanhava, também. Mas conseguimos driblar todas essas situações. O pior interrogatório, no entanto, se deu no aeroporto, na volta.

Qual o maior desafio ou maior dificuldade em colocar toda essa experiência no papel?

Antes de partir, como preparação, mergulhei no tema por seis meses – devorei livros e documentários sobre a questão palestina. Quando voltei, estudei o tema por mais um ano e meio, inclusive cursando disciplinas sobre judaísmo e a História da Palestina na USP, para escrever o livro baseado em meu diário de campo. Então, embora a viagem tenha durado 17 dias, o trabalho todo levou dois anos. O livro foi apresentado em dezembro de 2008 como trabalho de conclusão de curso da ECA-USP, mas só agora está sendo publicado.

A grande dificuldade foi desconstruir os mitos que pairam sobre o conflito israelo-palestino, sair do senso comum, e contextualizar de forma didática (como deve ser o jornalismo) os fatos em meio às histórias que encontrei. Ao mesmo tempo, fazer de tudo isso um relato interessante, de leitura fluida. Infelizmente, tudo que relato no livro continua muito atual.

Durante minha viagem à Palestina, ouvi de muitas pessoas a mesma frase: “volte, e conte o que viu aqui”. Essas coisas acabam dando mais peso à responsabilidade de testemunhar todos aqueles casos. Ficavam martelando na cabeça: não é necessário exagerar, ou romancear, “é só contar o que viu”.

<QUEM É>
Fernanda Campagnucci é jornalista graduada pela ECA-USP, ativista e pesquisadora nas áreas de educação e direitos humanos.

Serviço
O outro do muro – uma viagem à Palestina
Fernanda Campagnucci
Editora Multifoco
Ano: 2011
Páginas: 218
Preço: R$ 40,00

Lançamento
Dia: 29 de março de 2011
Horário: 18h30 às 21h30
Local: Livraria da Vila – Rua Fradique Coutinho, 915/ Pinheiros – São Paulo, SP
Tel: (11) 3814.5811