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Livro retrata a mineração no Brasil colonial

por Clara Roman — publicado 06/04/2011 16h37, última modificação 06/04/2011 16h38
Em entrevista a CartaCapital, o autor de "Boa Ventura!", Lucas Figueiredo, conta o percurso de pesquisa para a obra e define o país como local da "primeira corrida do ouro do Mundo"

Em cem anos, mil toneladas de ouro foram retiradas de terras brasileiras e levadas para a Europa. Lucas Figueiredo, escritor e jornalista, traz a tona detalhes desse fenômeno, responsável pela vinda de milhões de pessoas para o país, pela construção de cidades e destruição de povos. Histórias com sabor de reportagem desfilam em seu novo livro, Boa ventura! A corrida do ouro no Brasil – 1697 a 1810 – A cobiça que forjou um país, sustentou Portugal e inflamou o mundo, que será lançado na noite desta quarta-feira  no Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

Figueiredo ficou mais de três anos imerso na pesquisa para a obra. O autor define o período como a primeira corrida por ouro do Mundo e que foi responsável por forjar o Brasil. O evento faz parte do programa Sempre um Papo. Lucas Figueiredo conversará com a platéia em debate mediado pelo também jornalista Alfonso Borges.

CartaCapital: Como surgiu o interesse de explorar o tema?

Lucas Figueiredo: Surgiu na redação. Fiz uma pauta sobre o assunto da mineração brasileira, que inclusive ganhou premio Esso. A partir daí, me apaixonei por essa história, que eu defino como a maior aventura brasileira.

CC: Como encontrou as informações?

LF: Viajei para diversos lugares como Portugal, França, Benim. Busquei fontes primárias, o que é muito interessante para o trabalho do jornalista. O repórter busca mais a historia saborosa, pode se ater em detalhes que nem sempre são valiosos para um historiador, mas que trazem essa narrativa da reportagem.

Na França, encontrei muitas cartas de embaixadores franceses em Lisboa que contam os cem anos da corrida do ouro no Brasil.  Eu entrevistei muita gente. Eu fui atrás desses acervos e tinha muita coisa escondida então foi preciso entrevistar muita gente para chegar às informações que eu queria. Tem muita coisa disponível em Portugal hoje, mas que não há nenhum interesse em se mostrar. É um livro que tem uma pretensão historiográfica, que é trazer para uma linguagem acessível o que melhor foi produzido em todas áreas que o livro perpassa. Se você pegar o Aleijadinho, a guerra dos emboabas, a Inconfidência, Fernão Dias, a ocupação do Mato Grosso, tudo que a academia produziu e tem uma produção maravilhosa, foi abordado, com a indicação das fontes. O livro tem a marca de colher tudo que já foi processado dentro da academia.

CC: Como começa a narrativa?

LF: A partir de uma curiosidade: como o mundo chegou a eleger o ouro como principal meio de troca e como ele começou a ser usado como moeda no século 4 antes de Cristo.

Quando o Brasil foi descoberto, o ouro já era o meio utilizado em todo mundo. Ter ouro, já naquela época, significava ter dinheiro na mão. Porque o ouro sempre foi usado? Porque houve a grande fome de ouro nessa época? Foi a partir daí que os europeus começaram a buscar ouro fora do mundo conhecido. Encontra-se algum ouro na África, e logo depois Portugal e Espanha chegam à América. A quantidade de ouro encontrada durante a corrida do ouro em Minas é bem maior que todo ouro encontrado por Portugal até então, em toda sua história. De 1700 a 1800, foram encontradas 1000 toneladas do metal. A humanidade nunca tinha visto essa quantidade de ouro. Isso girou intensamente a economia global.

CC: Qual a importância do livro hoje?

LF: No Brasil, se consome pouca história. Nessa pesquisa, eu fiquei fascinado em descobrir como a formação do Brasil se dá através de um processo de cobiça, da riqueza metálica, de um processo predatório. Portugal não tinha intuito de formar uma nação aqui, ele buscava apenas o enriquecimento próprio.

CC: O Brasil teve algum ganho com essa exploração?

LF: O Brasil saiu com muitos lucros. Existe uma visão ultrapassada da história que o Brasil foi explorado e por isso prejudicado. Esse olhar está mudado um pouquinho. Isso aqui não era uma nação, era um pedaço de Portugal. Nesse processo de Portugal, todo interior da colônia foi desbravado, ultrapassando a linha de Tordesilhas. Buscando o ouro chega-se em terras como Rondônia, Goiás, que eram terras da Espanha. Esse processo todo vai alargar as nossas fronteiras e fazer do Brasil um país continental.

A primeira arquitetura genuinamente brasileira, a musica, e literatura vão nascer nesse processo. Acho que tem uma herança muito forte no Brasil deixada por esse processo

A cultura negra, muito importante até hoje para o país, chegou nessa época.

Você tem aí uma grande migração forçada que acaba deixando uma herança imensa. De todo o período da escravatura, que é de mais ou menos 350 anos, vieram 3 300 000 escravos da África. Desses, 600 000 só para trabalhar com mineração.  O dobro veio para atuar no entorno da atividade mineradora, no comércio, nas fazendas, nas obras. Naquela época se faziam estradas ligando as cidades. Isso ocupou uma quantidade de mão de obra imensa, que mudou o Brasil. Se não fosse o ouro, o Brasil teria hoje menos influência da cultura negra.

CC: Em que locais se assiste essa influência?

LF: Em Minas Gerais, assiste-se muito. Na Bahia também, pois era a porta de entrada dos negros. Eles deixaram sua marca em todos os lugares, na música, na própria mineração, pois eles que sabiam garimpar, muito melhorar que os portugueses e os paulistas. Vão ensinar como se capta esse ouro miúdo que existia na colônia. Vão influenciar desde a musica, a comida, a arquitetura, porque eles trouxeram para cá o modo de construir que se usava na áfrica. Até hoje você vê que isso existe. Se você escutar Clube da Esquina, você vai ver que aquela temática da solidão, da Igreja e do negro, aquilo é século 18 puro, corrida do ouro pura.

CC: Isso influenciou a mudança do Brasil?

LF: Ali, o Brasil estava sendo forjado. Portugal ficou patinando aqui 200 anos sem achar ouro. Se você analisar de 1500 a 1700, são dezenas de expedições que entram no sertão sem achar o ouro. Eu conto a história dessas expedições, que são grandes aventuras e que partiam de Porto Seguro e depois de São Paulo. Nesse processo, vai se ocupando o Brasil. Depois, em outro momento, quando o ouro é descoberto, há uma média anual de migração da Europa para o Brasil de 60 000 homens por ano. Isso graças à corrida do ouro. Antes, havia 300 000 habitantes não índios. Quando o ouro acaba, a colônia já tem 3.600.000 habitantes. A primeira formação do Brasil acontece dentro desse processo da corrida do ouro.

CC: E movimentos como a Inconfidência Mineira?

LF: A Inconfidência Mineira acontece exatamente em um período em que o ouro começa a acabar (esse ouro de aluvião mais fácil de catar) e Portugal continua querendo a mesma quantidade de antes. Isso vai gerar grandes revoltas que, em Minas, deságua na inconfidência mineira, um movimento muito importante para a formação do Brasil.

Naquela época, ainda não se pode dizer que a inconfidência é um movimento de independência porque não tinha essa conotação. Eram pessoas querendo resolver o problema particular da região deles. Queriam a autonomia das Minas Gerais. Mas isso depois, vai ser o concreto que vai ajudar a criar o movimento emancipatório a partir daquela primeira experiência.

CC: Qual a principal característica da exploração do ouro?

LF: A imensa força do homem, que é capaz de ocupar um pedaço de terra como o Brasil, absolutamente inóspito e o sertão igualmente inóspito. Para sair do litoral de São Paulo até a cidade de São Paulo gastava-se 4 dias. Para ir de São Paulo a Minas Gerais, no início, gastava-se dois meses. Isso era feito a pé porque ninguém tinha cavalo naquela época e as pessoas andavam descalças. Mesmo os brancos porque na verdade bota era um artigo raríssimo.  Aquela imagem que a gente costuma ver nos livros dos Bandeirantes usando bota está errada porque nos primórdios eles andavam descalços. Imagina atravessar a mata atlântica, aquele paredão imenso. Era necessário subir as montanhas todas e conseguir chegar vivo do outro lado era uma vitória, num lugar que tinha índios antropófagos, feras, animais peçonhentos dos mais variados tipos. Esse homem consegue ocupar isso. A força do homem é uma coisa impressionante. E do outro lado, a cobiça.  Isso tudo foi motivado pela cobiça do ouro.

CC: Ocorreu um processo civilizatório?

LF: Se você imaginar Minas Gerais, na virada de 1600 para 1700, a população branca do estado é zero. Trinta anos depois já são 30 mil habitantes não-indígenas. Em 50 anos, MG passa de uma população não-indígena inexistente para uma cidade como Ouro Preto com um teatro que executa os grandes clássicos da Europa. Um lugar que se tinha um sistema de fornecimento de água moderníssimo. Em 50 anos, comparando, faz-se uma Nova York no interior do Brasil. E isso é civilizatório. Com a música, pela primeira vez, genuinamente brasileira. A literatura brasileira.

CC: Que outro ponto importante o livro aborda?

LF: O livro fala muito do Brasil, mas fala também do impacto desse ouro em Portugal, como esse ouro financiou a loucura de muitos reis portugueses que gastaram esse toda riqueza em muito luxo e ostentação. Retrata também como esse ouro é usado pela Inglaterra para financiar o grande Império Inglês. E como também houve um grande impacto na África também. Ali, na África, acontece uma tragédia. No continente africano, a corrida do ouro não tem nenhum processo civilizatório. Eu fui lá também para mostrar como a corrida do ouro no Brasil causa uma grande tragédia na África. Por baixo, tem um milhão e meio de pessoas que foram aprisionadas na África e trazidas à força para trabalhar nessa economia diretamente com a mineração ou nas atividades que a sustentavam. Milhares morreram.

Informações:

Sempre um papo: debate com Lucas Figueiredo – mediação de Alfonso Borges

Local: Sesc Vila Mariana – Rua Pelotas, 141- Vila Mariana

Data: 6/4- 20h

Entrada franca

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