Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Lidera a gente aí, Pete

Cultura

Música

Lidera a gente aí, Pete

por Eduardo Graça — publicado 28/01/2014 15h26, última modificação 28/01/2014 15h30
Ícone da música folk e da luta pelos direitos civis, Pete Seeger morreu aos 94 anos. Por Eduardo Graça
Mandel NGAN/ Arquivo AFP
pete

Pete Seeger e Bruce Springsteen tocam no Memorial Lincoln, em Washington (18/1/2009)

De Nova York

"Lidera a gente aí, Pete.” Foi assim que Bruce Springsteen pediu a Pete Seeger, na véspera da posse de Barack Obama, em uma Washington D.C. gélida, para iniciar a rendição, nas escadarias do monumento dedicado a Abraham Lincoln, de This Land is Your Land, o clássico do amigo, mentor e parceiro de aventuras Woody Guthrie, padrinho honorário da folk music do lado de cá do Atlântico. Guthrie tinha 88 anos e aquele momento foi, ironicamente, o pináculo e a derradeira celebração da combalida esquerda norte-americana. Desta vez, o artista marcado na lista negra do McCarthismo, namorado assumido do comunismo na primeira metade do século passado, estava dentro da Casa Branca. Em 1969, trinta anos antes, ele gritara, depois de entoar Give Peace a Chance com uma multidão de ativistas, “O senhor está nos ouvindo, presidente Nixon?"

Esta terra é sua/esta terra é minha, anunciava Guthrie em 1945. E seguia: De um lado daquela placa/está escrito: propriedade privada/ mas do outro/ não há nada escrito/ esta terra é minha e sua. Seeger e Springsteen entendiam o valor simbólico do encerramento da celebração oficial da eleição do primeiro presidente negro com a letra subversiva. Seeger gostava de contar a história de que a música fora composta em 1940, mas somente gravada em 1945, quando, com melodia de hino batista, já estava na cabeça e no gogó de milhares de norte-americanos. Ele, como Guthrie, jamais dependeu da indústria da música para encontrar seu público.

Apesar de ter gravado uma centena de discos, de todos os formatos imagináveis, era partidário do download de músicas gratuitas, dos shows sem custo para quem não podia pagar por suas apresentações e da crença, quiçá ingênua, desenvolvida ainda quando tocada ukulelê em Harvard e militava na Juventude Comunista, de que a música podia sim mudar a vida das pessoas, das comunidades, das nações, do planeta.

A apresentação com Springsteen, que o homenageara três anos antes com o belíssimo álbum We Shall Overcome: The Seeger Sessions, era a afirmação tardia da chegada da esquerda ao poder nos EUA. E a passagem, mais ou menos oficial, do bastão do violão, ou, vá lá, guitarra do povo, de Guthrie para Seeger para Dylan para Springsteen. No show tributo aos 90 anos de Seeger, em um Madison Square Garden apinhado de gente, Springesteen assim apresentou seu amigo mais velho: “Pete Seeger, um arquivo vivo da música popular americana, mas também de nossas consciências, um testamento do poder da música, das canções e da cultura de empurrar a História adiante”.

Três anos depois, chapéu vermelho à cabeça a fim de se proteger como podia do frio antecipado de uma noite gélida de outubro em Nova York, decepcionado com a quebra da promessa do governo democrata de fechamento da base militar de Guantánamo, inconformado com a contínua ocupação do Afeganistão, enojado por ter de pagar de seu bolso pelo resgate do viciado sistema financeiro, o avô menestrel avançava novamente o cordão da História e se unia aos jovens do Ocupem Wall Street na praça Zuccotti. Apesar da preocupação da (des)organização do movimento, com os líderes propositadamente não ungidos, incluindo seu neto Tao, temerosos com a vontade do nonagenário de marchar por 30 blocos ao som de We Shall Overcome, de Symphony Space, nas imediações da rua 95, até o limite sul do Central Park, em Columbus Circle. Pois não só o senhor de 92 anos andou uma vez mais pelas ruas de Manhattan com uma multidão repetindo seus versos, como deu uma bengalada – uma das duas que carregou, com orgulho, pela caminhada - com gosto em uma escultura de um elefante, símbolo do Partido Republicano, como repetiu palavras de ordem como “Ninguém vai nos parar/um outro mundo é possível” e “Nós somos os 99%”.

Seeger sempre esteve com a maioria, orgulhoso em viver como um dos 99%. Sua encarnação mais recente, a de defensor e promotor incansável da despoluição do rio Hudson, transformou a economia de Nova York de forma decisiva, abrindo toda uma nova área de turismo para o estado, com a possibilidade do uso das praias fluviais triplicando o valor de mercado das – impossível não registrar a trapaça do destino – propriedades privadas em cidades como Hudson e Beacon.

Em seu discurso para os meninos do Ocupem, Seeger foi direto e extremamente generoso, rompendo com a velha esquerda e abraçando a novidade das ruas, seu palco predileto: “Desconfiem sempre dos líderes absolutos. Minha esperança é a de que este movimento signifique o nascimento de centenas, de milhares de pequenas lideranças”. Esta era, além da oposição à ocupação civil-militar do Iraque, a posição política que mais admirava em Barack Obama: o líder comunitário que mostrava querer, honestamente, tocar em problemas jogados para debaixo do tapete no século ianque, como o aumento da desigualdade social, o descaso pelos alijados do sonho americano, o direito civil das minorias, o ataque desumano aos imigrantes não-documentados.

É possível falar do Seeger antinazista dos anos 30. Do parceiro de Guthrie, Lead Belly e Alan Lomax na redescoberta das raízes da música americana e de seu povo nos anos 40. Do simpatizante destacado do Partido Comunista e articulador da cena folk do Village nova-iorquino na década de 50. Do ativista ferrenho contrário à guerra do Vietnã, condenado a um ano de prisão por “atividades antiamericanas” em 1961, banido pelos canais de TV e criador da música-símbolo da luta pelo direito civil dos negros nos EUA, We Shall Overcome (nós marcharemos/de mãos dadas/ e um dia/sinto no fundo de meu coração/ iremos superar estes tempos), nos 60 e 70. Do compositor que viu na Bíblia a resposta para as injustiças sociais de seu tempo, dando aos Byrds o hit Turn! Turn! Turn! profetizando que as mudanças sociais viriam, independentemente da vontade dos poderosos. Do artista denúncia da revolução conservadora de Reagan e de sua aproximação, na época, com um Springsteen irado pela apropriação insidiosa de seu Born in the USA, uma canção inspirada pelas músicas de protesto progressistas e antiguerra (aqui eles colocam um rifle em minhas mãos/me enviam para um terra estrangeira/para matar asiáticos) do repertório de Seeger, pela campanha de Ronald Reagan. Do homem que enxergou na defesa do meio ambiente, em conjunção com a criação de postos de emprego e de proteção para o pequeno agricultor, nos idos dos 90, uma escapatória ao sufoco neoliberal, e forçou a General Electric a limpar toda a porção americana do Hudson.

Mas, especialmente, para milhares de americanos e admiradores dos quatro cantos do planeta, de cinco gerações diferentes, além das muitas composições e recuperações de cantigas populares poderosas como If I Had a Hammer, Where Have All the Flowers Gone?, Jacob’s Ladder e Oh, Mary, Don’t You Weep em sua inigualável voz de tenor, reverbera, hoje, nestes tempos bicudos, mais do que nunca, a deixa de Springsteen: “Lidera a gente aí, Pete”.