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Líder do Velvet Underground, Lou Reed morre aos 71

por Piero Locatelli — publicado 27/10/2013 18h24, última modificação 28/10/2013 05h49
A simplicidade da banda de Reed mudou os rumos da música pop. Como disse Brian Eno, todos que compraram uma das 30 mil cópias do primeiro disco dele formaram uma banda
Lou Reed

Líder do Velvet Underground faleceu neste domingo 27

Em uma entrevista em 1982, Brian Eno cunhou a frase repetida exaustivamente sobre o primeiro disco do Velvet Underground: o álbum vendeu pouco, mas “todo mundo que comprou uma das 30 mil cópias começou uma banda.”

Não recordo de nada que defina tão concisamente a influência da banda liderada por Lou Reed, morto neste domingo 27 aos 71 anos de idade. Ao lado da voz grave de Nico e das habilidades de John Cale, Reed apertou o botão fast foward da música pop e a levou décadas a frente com os quatro primeiros discos do Velvet.

A simplicidade da banda era incomparável na época. Muito antes do punk, dois acordes eram suficientes para músicas inteiras. Outras eram seguradas em uma nota só, repetida à exaustão. Os timbres dos instrumentos ganhavam atenção e soavam como em nenhum outro disco da época. Já a bateria deveria ser a mais concisa de qualquer grupo do rock.

Reed escrevia sobre temas como o uso de heroína e a morte de um travesti numa mesa de cirurgia. Amparado no estúdio de Andy Warhol, a Factory, ele quebrou qualquer barreira entre os pretensiosos eruditos contemporâneos e o pop. Reed não se resumiu ao Velvet. Depois da banda, teve uma capacidade, talvez só comparável a do próprio Brian Eno, de transitar entre a vanguarda, o pop e qualquer lugar entre isso.

Seu álbum Transformer, por exemplo, pode ser tocado para qualquer família antes da ceia de natal. E será provável que algum tio vá cantarolar junto e pedir uma cópia. Junto com David Bowie, Reed fez melodias assimiláveis e back vocals doces, empacotados em músicas de três minutos e refrões assobiáveis. Algumas das letras seguiam na mesma toada: um dia perfeito no parque, satélites de amor e vícios que, desta vez, não eram por heroína, mas por pessoas. Nessas letras, era difícil saber se ele estava sendo irônico.

Três anos depois, porém, gravaria Metal Machine Music, um disco de mais de uma hora de guitarras sujas e dissonantes. Um álbum insuportável, mesmo para os apaixonados pelo barulho. Antipático e irônico nas poucas vezes em que dava entrevistas, Reed deixava ambíguo se o disco deveria ser levado a sério ou era uma espécie de ready made. Isso não impediu que muitos músicos a partir dali o levassem como influência.

De samplers no hip-hop à dinâmica do rock alternativo, é inviável listar a quantidade de bandas e músicos que, direta ou indiretamente, Reed influenciou. Vou me ater a um disco em que o próprio Reed via um paralelo: o último álbum de Kanye West, Yeezus.

Kanye fez um disco pop a partir de ruídos, repetições, silêncio e uma pretensão ímpar, onde ele mesmo declara: “eu sou um Deus”. Apesar de soar completamente diferente, as características são as mesmas do que Reed havia feito há mais de cinquenta anos. No seu texto sobre o rapper, Reed fez um paralelo entre ele e Kanye, que havia acabado de gravar seu disco mais “difícil”:

Quando eu fiz Metal Machine Music, o crítico John Rockwell disse: "Este é realmente um desafio." Eu nunca pensei nisso assim. Eu pensei nisso como: "se você gosta de guitarras, o disco é guitarra pura, do começo ao fim, em todas as suas variações. E você não está preso a uma batida." Isso é o que eu pensava. Eu não pensava algo como "vou desafiá-lo para ouvir algo que eu fiz." Eu também acho que Kanye não queria ter feito isso por um segundo. Você faz coisas porque é o que você faz e é o que você ama.

Fica difícil acreditar nisso ao ouvir Metal Machine Music. Em uma turnê em que retomava o conceito deste álbum, a única vez que vi Reed ao vivo, foram quase uma hora de dissonâncias insuportáveis em um teatro. Eram minutos e minutos sem melodias, sem troca de acorde, somente a distorção, a ressonância, o eco. O som puro da guitarra a que ele se refere. Reed, porém, estava concentrado e levava aquilo tão a sério que eu me abria a aceitar o que ele fazia, pensava a respeito e o aceitava.

Recentemente, ao comemorar os cem anos de nascimento do músico John Cage, Reed disse que havia aprendido com ele que “tudo é música”. No meu caso, eu aprendi com o próprio Reed.

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