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Cultura

Cariocas (Quase Sempre)

Liberdade de expressão

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 10/09/2010 13h23, última modificação 11/09/2010 14h19
Antigamente, rasura na cédula anulava o voto. Hoje, não há como burlar o botão eletrônico

Antigamente, rasura na cédula anulava o voto. Hoje, não há como burlar o botão eletrônico

Uma coisa interessante na quase ritual leitura das manchetes dos jornais e revistas nas bancas, todas as manhãs, é ampliar a capacidade de ouvir e ficar atento às reações dos leitores eventuais das primeiras páginas. É uma boa, embora fira os princípios da boa educação, e velha forma de pesquisa.

Os curiosos revoltam-se com as tramoias das novelas descritas pelas revistas semanais populares que antecipam os capítulos dos folhetins e repercutem à exaustão as peripécias dos santos e demônios das histórias. Tudo já está na internet, mas a arte de cozinhar notícias faz parte não só de programas vespertinos da tevê aberta, mas também das revistas de fofocas.

Incluam-se na grade de programas vespertinos as TVs Senado e Câmara. A primeira, com o atual recesso branco, entra no ar com dois ou três gatos pingados no plenário, que vota matérias quase ininteligíveis. É engraçado quando quem preside a mesa, o suplente do suplente do suplente, pede que os senhores parlamentares que concordam permaneçam como estão. A câmera nem mostra o plenário vazio e a matéria é aprovada. Ficamos sem saber se há alguém para discordar.

De volta às bancas de jornal. Semana passada, uma senhorinha acima de qualquer suspeita encerrou sua leitura da coluna das revistas de fofocas e pôs-se a apreciar os jornais. Ao dar uma passada d’olhos nas notícias políticas, disse que não estava nada, nada, satisfeita com o que acontecia. A colega de leitura ao lado não só ouvia como concordava com uns generosos sims, que fazia o seu pescoço oscilar para cima e para baixo, quase encostando o queixo no peito.

“Por isso é que sempre anulei o meu voto”, alegou a senhora. “Mesmo quando eu trabalhava, nunca dei meu voto para ninguém. Não me importava se os colegas da repartição diziam que, assim, eu estava dando voto para quem estava vencendo. E eu quero lá saber quem está vencendo...?”, desabafou a leitora em tom de protesto, que já não exigia ouvidos apurados.

E seguiu: “Quero saber é que eu não dei meu voto para político nenhum”, insistia ela, segura da decisão irreversível em seu longo histórico de eleitora anárquica e à prova de mudanças políticas que refletisse na vida dos outros ou na sua própria.

“Olha, vou contar uma coisa para a senhora (as senhorinhas antigas se tratam respeitosamente), e não tenho vergonha de dizer, não. Eu nunca falei um palavrão na vida. Detesto vulgaridade. Mas eu sempre fiz um desenho pornográfico em todas as cédulas de votação. Esse sempre foi o meu voto. E pronto. Eles que entendam o meu recado.”
A ouvinte que parecia não ter opinião a respeito do voto da colega perguntou:
“Mas, e agora, com essa urna eletrônica?”
A eleitora revoltada se retraiu: “Agora, só me resta apertar a tecla anula. Mas como eu queria desenhar alguma coisa feia lá”. As duas se despediram e tudo indicava que aquele tinha sido um encontro apenas casual e que nada garantia a continuação daquela amizade no dia seguinte, quando as manchetes seriam, ou não, outras.

Constatação - Coloquei, há dias, no meu site-blog no Facebook e no Twitter (quem não se cansou de criar títulos de jornal de 3 linhas de 13 batidas, tuíta as 140 literalmente de letra) a seguinte pensatinha, uma paráfrase: “Com o fim do Jornal do Brasil, perdi uma parte de minha vida como jornalista. Talvez a melhor parte”. C. L.