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Tomboy

Laure não quer usar vestido

por Matheus Pichonelli publicado 09/02/2012 17h02, última modificação 06/06/2015 18h56
Drama sobre imposição da sexualidade é um retrato pintado com as cores da infância e a tinta da vida adulta
Tomboy

Lane, ou Michaël, brilhante personagem de Zoé Héran em Tomboy

Um dia uma vizinha bate à porta, o filho pelos braços. Chama a nova moradora para uma conversa delatando uma briga entre os filhos, da qual a sua cria saíra esmurrada. Como castigo, a mãe pega um vestido azul e coloca em Michaël, o filho agressor. À força, leva-o às casas da vizinhança para que todos os novos amigos saibam o que está acontecendo.

No caminho, hesita. Às lágrimas, diz que é obrigada a agir daquela maneira, porque não tem outra opção. É o momento em que opção (do mundo) e orientação (pessoal) tomam caminhos diversos.

Em instantes, todos saberiam que Michaël, na verdade, é Laure. Saem as camisetas de gola aberta e entra o vestido azul, que ela tanto rejeita.

Na marra, a menina, interpretada por Zoé Héran, vai ter que aprender a ser menina. A ordem é da mãe, mas a mãe garante que a escolha não é a dela.

As cenas de um caminho sem volta são do filme Tomboy, impressionante retrato da infância feito por Céline Sciamma – e ainda em cartaz em São Paulo.

Ao longo do filme, parece clara a orientação sexual que pulsa, ainda cedo. Sciamma teve a coragem de montar um retrato ainda na infância, com a tinta da delicadeza e o pincel da vida amarga, real, de amarras, expectativas e aceitações.

Durante dias, Laure se apresentou como menino aos novos amigos. O corpo, aos dez anos, não acusa o gênero nem a malícia. Com bermuda, tênis e um jeito de andar próprio, transita no novo grupo como Michaël. Ninguém desconfia de que é uma menina.

 

Numa das cenas emblemáticas, ela se aproxima da outra garota da turma, até então a única, e assiste a um jogo de futebol – disputado, claro, entre meninos. A amiga pergunta ao menino (a) se ele não gosta do esporte. Ele (a) diz que não. E a amiga confessa: eu gosto, mas eles não me deixam jogar porque dizem que sou péssima. Porque, para jogar, é preciso agir como os garotos: cuspir no chão, calibrar o chute, gesticular, reclamar e tirar a camisa. E urinar em pé, ao ar livre, sem grandes constrangimentos entre membros do mesmo sexo.

As barreiras impostas parecem claras à medida que as crianças se aproximam do mundo adulto. No mundo delas, Michaël é bem recebido justamente porque aparenta ser um menino normal - inclusive na hora de distribuir socos e pontapés para defender a irmã mais nova.

Até que o vestido, castigo da mãe ao tentar impor a sexualidade, coloca Michaë (que é Laure) em seu lugar: se possível, perto das bonecas e as brincadeiras com princesas.

Fora o drama da criança que começa a estranhar o próprio corpo, a história é um mergulho nas relações ainda infantis, já afetadas pelas barreiras sobre gênero e sexualidade – mas não ainda sobre raça e classes. As crianças não falam, como é de se supor, sobre conquistas, desafios, origens, ideias, antepassados. Por isso parecem unidas, e minimamente livres. Sob o ponto de vista delas, os desafios que se impõem são recorrentes: as corridas para ver quem é mais veloz, os mergulhos na lagoa, os jogos de perguntas sobre as próprias descobertas (“Você já comeu meleca de nariz?” “Já, mas eu era muito pequeno”). Origem e cor parecem importar pouco.

Mas o limiar entre o certo e errado, inocência e imposições já começa a se manifestar. Ao descobrir que o seu (possivelmente) primeiro amor é, na verdade, uma menina, a única garota da turma (a mesma que, por ser menina, é barrada do esporte entre meninos) passa a ser também estigmatizada. Os meninos do bairro não perdoam o estranhamento.

A referência, como na vida, possivelmente não vem da própria percepção, mas de uma leitura emprestada de um mundo já pronto, de papéis definidos e ações socialmente aceitas (ou não). É um conjunto de normas construído a tapas, literalmente: em qualquer lugar do mundo, todos veem graça quando a filha entorta pescoço, punho e cintura ao ouvir uma música mais agitada e começa a dançar; quando é o menino que rebola, dois ou três tapas bastam para desentortar punhos, pescoço e cintura.

Aos tapas, a criança aceita vestir a própria roupa, e a respeitar uma postura pré-modelada. Mesmo assim, Laure não quer o vestido. Nem quer ser discriminada. Quer ser apenas Michaël.

A consequência da decisão (usar o vestido ou não, fingir que se importa ou não) não é filmada. Mas a história está cheia de exemplos a mostrar que, passam-se os anos, os tapas não cessam, seja sobre o cartunista que se experimenta como mulher (e é proibido de usar o banheiro que bem entender) ou a top model que rejeita o corpo em que nasceu e é rejeitada pelo próprio País. O mundo evoluiu, é fato, à medida que grupos de afirmação de orgulho se manifestam em público, e quebram as barreiras pedindo para serem aceitos como são. Mas a tentativa de se impor o vestido (ou a bermuda, do lado oposto – oposto?) é ainda a regra. O novo velho mundo segue ainda povoado de rejeições e barreiras que, é fácil perceber, não foram as crianças que inventaram.

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