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Lamento cigano

por Alexandre Freitas — publicado 09/09/2010 10h16, última modificação 09/09/2010 10h16
Essa maneira simplista de associar delinquência e origem estrangeira (ciganos e árabes) vai construindo dispositivos institucionais racistas e enfraquecendo alguns princípios republicanos, dos quais os franceses tanto se orgulhavam

“No, you can’t”. Endereçado ao presidente francês, essa era uma das frases nos cartazes da manifestação de quatro de setembro contra a política, dita de segurança, da França sarkosysta. O evento reuniu pelo menos 50 mil manifestantes no último sábado em Paris e foi organizado por grupos sindicais, associações e partidos políticos. A crescente e ameaçadora onda de xenofobia foi o principal alvo dos manifestantes, motivados pelas freqüentes expulsões de ciganos (chamados de roma).

Desde o debate sobre identidade nacional até a apresentação de estatísticas associando origens étnicas e criminalidade, parece acentuar-se na França uma visão, no mínimo bizarra, sobre futuro e segurança. Como mostrou Gianni Carta, uma pesquisa encomendada pelo jornal “Le Figaro” revelou que setenta a oitenta por cento dos franceses acolheram favoravelmente a ideia de Sarkozy de retirar a nacionalidade francesa de certos criminosos de origem estrangeira. Por “certos criminosos” entende-se: “aqueles que atentarem contra a vida de um policial ou um guarda, culpados de poligamia ou de incitação a mutilação feminina”. Essa maneira simplista de associar delinquência e origem estrangeira (ciganos e árabes) vai construindo dispositivos institucionais racistas e enfraquecendo alguns princípios republicanos, dos quais os franceses tanto se orgulhavam. O primeiro artigo da constituição francesa afirma que a república “assegura a igualdade de todos os cidadãos face à lei, sem distinção de origem, raça ou religião”. Só uma pequena observação, o pai de Sarkosy é de origem húngara e sua bela mulher, Carla Bruni, é de origem italiana e foi naturalizada francesa somente no ano de seu casamento com o presidente, em 2008.

A passeata começou na Place de la République e terminou em frente à prefeitura. Passei por cada uma das alas da manif, como dizem os franceses, tamanha sua intimidade com eventos desse tipo. O grupo dos trabalhadores sem documentos estava entre os maiores e mais expressivos. Quase todos negros embalados por cantos e alguns instrumentos de percussão. Tinha o grupo das comunidades judaicas, da CGT, do partido verde, dos jovens sem documentos, etc. Mas a mais bela ala era, sem dúvida, a dos roma. Não era das maiores, afinal, mais de 16.000 foram expulsos nos últimos dois anos. Na frente do grupo vinha um trompetista solitário com um dente de ouro que anunciava solenemente a presença cigana. Sua música soava como um canto de guerra, um lamento e uma comemoração. Mas essa paradoxal mistura parecia surtar um efeito enorme em todos que acompanharam de algma maneira a passeata. Junto ao trompetista, um menininho com cara de personagem de filme do Kusturica, fazia passos de dança e sorria para cada um dos infindáveis flashes. A cada avanço do grupo cigano, espasmos de aplausos dos manifestantes de outros grupos, dos sem grupo (onde me incluía), e dos transeuntes simpatizantes.

Mas o desfecho da manifestação foi seu ponto forte. Em frente à prefeitura de Paris, ouve-se o hino internacional do povo roma por uma cantora chamada Negrita (clique aqui para ver). Um hino que não é um convite à guerra, como fez questão de dizer uma das lideranças do movimento cigano em alusão ao hino francês, mas um canto triste em memória das vítimas da intolerância.