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Cultura

Crônica do Villas

Ladrão de bananas

por Alberto Villas publicado 15/07/2016 04h52
Ah... como eram gostosas aquelas bananas do nosso vizinho
Petr Kratochvil
Bananas

Acompanhávamos o crescimento do cacho até as bananas começarem a amarelar

A primeira coisa que roubei na minha vida foi uma latinha de suco Yuki, uma novidade na época, no supermercado SAB, em Brasília. Não foi nada fácil enfiar dentro da minha calça curta aquela latinha cinza que a embalagem dizia ter ali dentro, o verdadeiro néctar de pêssego.

Brasília era só poeira vermelha e construção e eu, um menino de doze, doze anos e pouco. Supermercado, naquele início de anos 60, era uma modernidade e uma tentação pra qualquer criança que tivesse uma vontade maluca de experimentar  aquele néctar de pêssego.

Ainda estávamos longe de 1984 e não havia câmera de vigilância ali no SAB, nem em parte alguma daquela cidade do futuro que meu pai foi desbravar.

Entrei sozinho no supermercado e decidido a levar, sem pagar, aquela latinha de Yuki. Percorri aqueles corredores pra lá e pra cá e quando não havia ninguém por perto, enfiei a latinha na calça curta e sai andando, cruzando as pernas como se estivesse com vontade de fazer xixi.

Só longe dali, sem perigo à vista, peguei a latinha, abri e bebi o néctar que não era de pêssego, e sim, dos deuses. Sem gelo, sem copo, sem nada, mas delicioso.

Quem vê assim pode até achar que depois daquele Yuki eu continuei roubando e virei uma espécie de assaltante do trem pagador. Calma, depois desse roubo que me deu tanto trabalho, só voltei a furtar novamente, muitos anos depois, em Belo Horizonte, bananas.

O quintal da nossa casa dava pro quintal de um casarão que tinha um amontoado de bananeiras. Os pés insistiam em dar uma tombadinha pro nosso lado, como se fosse uma provocação.

Assim que víamos um cacho despontando, acompanhávamos o seu crescimento até que aquelas bananas maravilhosas começavam a amarelar. Não esperávamos um dia sequer.

Na calada da noite, madrugada mesmo, colocávamos uma escada e subíamos, no escuro e em silêncio até chegar lá em cima do muro. Levávamos – eu e meu irmão – um serrote na mão e nada mais. Enquanto eu ia serrando, ele me ajudava serrando também e segurava o cacho com todas as forças porque era pesado pra caramba.

Lembro-me bem que pingava um líquido estranho daquele cacho de bananas ceifado e o nosso medo era da nódoa. Descíamos a escada devagarinho e levávamos o troféu pra dentro de casa.

Minha mãe era cúmplice do nosso roubo, mas como era uma santa, dizia que se não cortássemos, quem comeria aquelas vistosas bananas seriam os passarinhos, porque o nosso vizinho sequer ia até o fundo do quintal pra verificar se haviam bananas verdes ou maduras por lá.

Aquele cacho ali na despensa durava vários dias. Minha mãe aproveitava pra fazer uma torta deliciosa, toda coberta de bananas caramelizadas. Fazia também pros filhos, banana batida com leite no liquidificador, banana amassada com Farinha Láctea, com aveia, com mel, com melaço, ela fazia também uma banana assada no forno divina.

Acho que o meu pai nunca soube que aquelas bananas eram roubadas, surrupiadas na calada da noite da casa do Doutor Asplênio, seu amigo do pleito.

No final da semana passada, tantos anos depois, fomos a um empório de frutas e legumes orgânicos na Vila Madalena e quando bati os olhos naquelas bananas dentro de um balaio, não resisti. Arranquei uma da penca e experimentei. Tinha o mesmo gosto das bananas que roubávamos na infância, numa época que tudo que custava barato, a gente dizia que era preço de banana.