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Juca Ferreira quer "descriminalizar" hip-hop em São Paulo

por Piero Locatelli — publicado 11/04/2013 12h56, última modificação 12/04/2013 11h56
Em encontro com artistas e cidadãos, secretário promete mudanças na relação "difícil" entre o poder público e o movimento cultural
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Juca Ferreira recebe artistas ligados ao hip-hop nesta terça. Foto:

O promotor de vendas Bruno de Andrade, 18 anos, mora no bairro de Heliópolis, zona sul de São Paulo. Fã de rap, reclama que precisa ir até o centro da cidade para ver os shows que deseja, mesmo quando os grupos têm origem na periferia. “O cara tem que vir da favela para o centro ouvir um rap, e não o contrário, como deveria ser”, diz. Andrade foi uma das pessoas que participaram de um encontro entre o secretário municipal de Cultura de São Paulo, Juca Ferreira, com grupos e artistas ligados ao hip-hop na noite de quarta-feira 10, no Centro Cultural São Paulo. O encontro uniu artistas famosos, como os rappers Rappin Hood e Emicida, além de produtores culturais, professores da rede pública, MCs, DJs e dançarinos. No evento, eles escancaram os problemas deste movimento cultural na cidade.

O gênero vem sendo escanteado pelo poder público desde o conflito no show do Racionais MC`s na Praça da Sé em 2007. Naquele dia, diversas pessoas ficaram feridas em uma ação da polícia durante o show na Virada Cultural. Desde então, o rap tem ficado relegado ao segundo plano nos eventos culturais da cidade.

 

No inicio do evento, o secretário disse que existe uma “dificuldade” na relação entre o poder público e o hip-hop em São Paulo. Segundo ele, há uma “quase criminalização” do movimento na cidade. Ferreira prometeu mudanças e a descriminalização do movimento, dizendo que a inclusão de artistas de hip-hop no aniversário da cidade neste ano foi um primeiro passo neste sentido.

No debate de quarta-feira, diversos problemas foram apresentados: a falta de equipamentos culturais na periferia, a concentração de dinheiro na mão de poucos artistas, a baixa qualidade dos professores na rede pública ligados ao gênero, a falta de políticas de gênero envolvendo o hip-hop e diversos outros pontos. “A gente não tem que viver de política pública. O que a gente tinha era que poder fazer tudo de maneira privada, mas a gente ainda não tem como”, disse Rappin Hood no evento.

O encontro foi o segundo da série “Existe diálogo em São Paulo”. O primeiro, realizado em fevereiro, não teve um tema específico e contou com a participação de mais de mil pessoas.

Reivindicações

No evento, o MH2O (Movimento Hip-Hop organizado) entregou uma série de reivindicações à secretaria municipal. Elas foram levantadas em uma reunião convocada pelo produtor Milton Sales no último sábado 6 na Favela do Moinho, no centro da cidade.

Entre as demandas, está a criação de cinco casas de hip-hop, o fomento a estúdios públicos de gravação, a criação de um VAI (Programa de Valorização de Iniciativas Culturais) específico para a área e a formação de um “conselho da favela”, nos moldes do conselho da cidade. A íntegra do documento pode ser acessado . Rodrigo Savazoni, chefe de gabinete de Juca Ferreira, se comprometeu a criar um grupo de trabalho para discutir as demandas apresentadas na reunião.

Juca Ferreira se comprometeu com outras reivindicações apresentadas. Ele concordou com a crítica de que as casas de cultura não aceitam o hip-hop e defendeu que elas deixem de ser administradas pelas subprefeituras e passem a ser centralizadas na secretaria. O secretário municipal também disse que levantará a proposta de criar conselhos locais nessas casas de cultura para aumentar o diálogo com a população.

O promotor de vendas Bruno de Andrade espera que a reunião ajude a ampliar as oportunidades de lazer na periferia e a diminuir a exclusão da música. “Ano passado, não teve vinte shows de rap onde eu moro. E nenhum teve ajuda da prefeitura. Antes o rap era mais criminalizado, mas era mais forte na favela”, diz.

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