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Jovens centenários

por Orlando Margarido e Luciana Bento — publicado 26/07/2010 12h37, última modificação 28/07/2010 16h53
Os teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo se renovam para honrar sua tradição lírica

 Os teatros municipais do Rio de Janeiro e de São Paulo se renovam para honrar sua tradição lírica

Nem bem assumiu a presidência da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 2007, Carla Camurati testemunhou o foyer do balcão nobre do edifício da Praça Marechal Floriano desmoronar. Viu-se, então, diante de um desafio. Não estava à frente de uma das maiores referências culturais do País para assisti-la deteriorar diante de seus olhos. A atriz e diretora de cinema, investida em papel administrativo, reuniu 75 milhões de reais, 950 profissionais, e três anos depois, reinaugurou o teatro. Desde maio, os cariocas usufruem novamente desse conhecido de 101 anos, enquanto os paulistas aguardam sua vez na casa similar um pouquinho mais jovem. No próximo ano, data de seu centenário, o Municipal paulista será entregue de volta à população, após o terceiro restauro de sua história.
No caso do endereço lírico planejado por Ramos de Azevedo na praça que leva seu nome, região central de São Paulo, nada desmoronou em anos recentes. Mas isso quase aconteceu por ação dos cupins antes da segunda e mais significativa intervenção sofrida pelo teatro, entre 1987 e 1991, quando o prédio passou por renovação semelhante à do similar carioca. Anteriormente, por conta do IV Centenário, em 1954, o impacto de uma profunda obra diz respeito à modernização e adaptação de espaços à área administrativa.
O processo atual, mais do que mera manutenção, origina-se de um contexto financeiro peculiar e tem o intuito de realizar trabalhos não previstos no projeto de restauro anterior ou considerados de baixa qualidade. “Sabemos por especialistas que não foi uma restauração bem executada”, explica Carlos Augusto Calil, secretário municipal de Cultura, a cuja pasta o teatro está atrelado. “Mas o que determinou a iniciativa neste momento foi uma oferta de recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID.”

O orçamento previsto de 7,1 milhões de reais está sendo utilizado, como explica a arquiteta responsável, Lilian Jaha, para recuperar nichos até então vedados ao olhar público, a exemplo do teto de uma ala do café e restaurante, retirar a pátina do tempo de esculturas de bronze exteriores nunca antes polidas, limpar a fachada de arenito castigada pela poluição, por vezes preenchendo quebras com novo material, além de renovar vitrais e a cor de pinturas-murais. “A surpresa de descobrir pinturas escondidas sob camadas de tinta foi mais comum no restauro anterior”, lembra Lilian. “O que veremos agora é o pé-direito de quase 7 metros da sala 2 do restaurante livre e com novo forro, que substitui outro, quando havia uma laje de concreto colocada na década de 1950 para criar um novo andar.” Com isso, diz ela, desvendaram-se os elementos decorativos originais pintados como barrado e agora refeitos segundo uma foto de 1911.
Se os paulistanos já estavam habituados a apreciar o belo desenho do pintor acadêmico Oscar Pereira da Silva (1867-1939), que toma todo o teto do Salão Nobre e cujas cores estão sendo reavivadas, os cariocas ganharam o ineditismo. Com a delicada cirurgia, reapareceram pinturas de Henrique Bernardelli (1858-1936) e de seu aluno na Academia Imperial de Belas Artes Eliseu Visconti (1866-1944), este localizado numa parede da sala de espetáculos. Reapareceu uma partitura com as primeiras notas do Hino Nacional Brasileiro em si bemol, tonalidade que não é mais usada em sua execução. “Foi uma das gratas surpresas que tivemos”, conta Carla Camurati. “A tela do Visconti estava emparedada e perdida desde a grande reforma de 1934.” Houve outra. “Imaginávamos perdidos os equipamentos do palco, mas foi emocionante vê-los
funcionando depois de tanto tempo parados.”
A presidente, com o olhar próximo e atuante de 12 técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ligado ao Ministério da Cultura, e do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac), de quem fez questão da colaboração, coordenou 350 restauradores. “Montamos oficinas de restauro dentro do teatro. Isso fez com que o Municipal se transformasse em um grande ateliê, contribuindo para o trabalho em equipe, além de preservar as peças que eram renovadas.” Ela lembra a visão impressionante da sala principal sem cadeiras, coberta de andaimes. “Tudo estava sendo restaurado ao mesmo tempo, as pinturas, o grande lustre, os douramentos, o palco.”

Duas tarefas exigiram técnicos especializados do exterior. “Além da gestão financeira dos recursos, nosso grande desafio foi encontrar os profissionais para o restauro de cada área.” O douramento externo a que Carla se refere foi incumbência do artesão francês Fabrice Gohard, responsável pelos trabalhos na Ópera de Paris e na tocha da Estátua da Liberdade, em Nova York. No Rio, ele renovou os ornatos da cúpula e, especialmente, a águia de 2,8 metros de comprimento, 6 de envergadura e 350 quilos, símbolo do monumento. A peça precisou de 8 mil folhas de ouro de 23 quilates. “Foi um dos momentos mais emocionantes do processo, presenciar a águia subindo toda dourada, depois de tê-la visto descendo toda estropiada.” Em outra frente, uma equipe de estudiosos italianos foi chamada para resolver os problemas de mármores e mosaicos. “Não havia ninguém aqui com expertise para isso. Esses profissionais, que colaboraram na Capela Sistina, vieram para solucionar a limpeza dos mármores e treinaram uma equipe para restaurar os mosaicos.” Ao todo, para ver o edifício pronto, foram gastos mais de 5 quilos de cobre e 219 mil folhas de ouro importadas da Alemanha na cobertura de adornos.
Mais modesta em sua execução, pelo próprio histórico de restauros, a obra paulista chegou a ter 70 profissionais e, hoje, na reta final, reúne 45 colaboradores, entre restauradores, técnicos e ajudantes de pedreiro com treinamento específico. Eles se dividem entre refazer os traçados originais de barrados e recompor as falhas do assoalho original de peroba-rosa e pau-marfim do Salão Nobre. Neste, os vitrais ganharam um ateliê próprio para seu restauro. “São sete portas com vitrais que receberão novas esquadrias de madeira e uma película transparente para proteger do sol e da poluição”, diz a arquiteta Lilian. O Departamento de Patrimônio Histórico também supervisionou o projeto.
Mas a maior empreitada dessa atual remodelação não diz respeito à arquitetura do Municipal nem cabe no orçamento ofertado pelo BID. Trata-se da reforma do palco, até então, intocado pelas transformações anteriores. “Parece um capricho algo deslumbrado com os endereços do exterior, mas nem é preciso citá-los, pois o Teatro Alfa, aqui mesmo em São Paulo, tem um palco moderno e o Municipal, não”, justifica Calil. A obra, que custará em torno de 13 milhões de reais, começa neste mês pela empresa que modernizou o tablado carioca. No caso paulista, os trabalhos estão ligados a outra iniciativa de impacto para o cotidiano do Municipal, a inauguração da chamada Praça das Artes, outro desafio emblemático da prefeitura.

Apesar do nome, o complexo, a uma quadra de distância, é um edifício erguido para abrigar os seis corpos estáveis, entre eles, a Orquestra Sinfônica Municipal e o Balé da Cidade, além das escolas de música e bailado, ao custo de 102 milhões de reais. Espécie de anexo, desafogará o palco do teatro no que se refere aos ensaios, hoje obstáculos à ampliação da programação. Também poderá ser frequentado pelo público, em ensaios abertos e apresentações específicas. “Mas a função maior é dar apoio à casa-mãe. Com a mudança, esta poderá dobrar a sua agenda.” 
Com tais alterações, o palco ficará mais amplo e ágil para a montagem, por exemplo, de óperas. “As varas de cenário vão aumentar das atuais 47 para 72, e também passarão a suportar uma carga de 900 quilos, mais que os 250 de hoje”, explica Lilian. As varas são os grandes painéis que servem de cenários às peças líricas e ficam alçadas no teto, dividindo espaço com refletores. Ali está o famoso ciclorama original da década de 1950, realizado pelo Liceu de Artes e Ofícios, instituição de onde saíram muitos trabalhos artesanais presentes no Municipal. O diâmetro do palco deverá ser alterado pela melhor centralização das engrenagens de ferro laterais e pela eliminação das chamadas “bambolinas”, enormes caixas de ferro nas laterais da boca de cena. Para a programação do teatro, previsto para ser reinaugurado em março, seis meses antes da data pontual do centenário, a Secretaria de Cultura vai privilegiar ópera e dança. “São as vocações maiores de uma casa lírica”, diz Calil.