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Cultura

Crônica do Edgard

Jogo a toalha

por Edgard Catoira — publicado 09/01/2013 15h55, última modificação 10/01/2013 10h10
Sinto-me impotente diante dos cenários político, econômico e social. Do Brasil e do Mundo
Dilma Rousseff

. Foto: Alfredo Estrella/AFP

Mais um dia de rotina. Levanto, tomo café, pego os jornais. E leio.

No Brasil, o Ministério de Minas e Energia tem uma reunião marcada para discutir problemas do setor. O representante do ministro diz que é um encontro previamente marcado, nada a ver com crise. Mas a presidenta do país interrompe suas férias e segue para Brasília para acompanhar a reunião “de praxe”.

A própria presidenta disse no fim do ano que não há problemas com o sistema elétrico e que os apagões são fruto de erros humanos e que deveríamos soltar gargalhadas quando nos dissessem o contrário. Mas, como sempre, os erros humanos se repetiram em toda a Região dos Lagos – onde estive no fim de ano – incluindo a charmosa Búzios, terra dos ricaços locais e argentinos. Aliás, em Teresópolis, região serrana do Rio, onde passo alguns fins de semana na casa de um amigo, também falta luz durante esses feriados mais longos, como Natal, Carnaval, Semana Santa. Isso acontece há 30 anos. Repetindo: 30 anos! Para rir disso, só sendo masoquista. Assim mesmo, prefiro acreditar na voz da presidenta.

Porém, espera lá: será que ela está sabendo de toda a realidade mesmo? Ou tem gente tentando esconder algo dela? Pronto, já estou em cima do muro. Desconfiado como Dilma, também querendo ver o que falam os técnicos responsáveis pela energia brasileira. Na verdade, como chefe do setor elétrico durante anos, no governo Lula, ela é muito bem informada do que acontece lá. Se bem que temos de dar o desconto de que hoje suas funções são muito maiores e mais abrangentes.

Com o humor já balançado, vejo chamadas sobre os valores de IPTU, IPVA, índices de preços ao consumidor, previsões de inflação e do PIB, que agora é pibinho, para nós brasileiros. Tem também uma enorme quantidade de notícias favorecendo a indústria imobiliária em locais estratégicos do Rio – a de hoje é sobre a venda do 2º Batalhão da PM, no valorizadíssimo bairro de Botafogo. Nem preciso comentar que continuam as cobranças das obras nunca feitas para evitar as tragédias das chuvas de verão. Prefeito sempre alega falta de dinheiro para obra de prevenção. Divulgou-se, há dois anos, que o dinheiro saíra. Então, cadê os dois: a obra e o dinheiro?

Vou em frente na leitura e caio na Venezuela. A turma bolivariana defende que o líder máximo não vai precisar comparecer para tomar posse de mais um mandato. Ele está doente, em Cuba. E, segundo sua turma, posse é só uma cerimônia apenas, sem maior importância. E eu, que acho que o juramento à Constituição para o cumprimento do mandato de presidente é fundamental numa democracia. E o Brasil, oficialmente, concorda com o raciocínio, o que me leva a lembrar o respeito que já tive pela diplomacia brasileira. Não só eu: o mundo todo já reconheceu o valor dos formados pelo Instituto Rio Branco. Bons e velhos tempos...

Quando, no Globo, na última página do segundo caderno, vou ler o colunista Xexéu, que sempre é algo de inteligente nos jornais, vejo o lamento pela morte de seu labrador. Como também tenho um labrador, sei o que sente o colunista. Largo o jornal. Vou ver minhas mensagens na caixa eletrônica. Antes, vejo no site Globo.com que as principais notícias, em manchetes sensacionalistas, se referem ao BBB. Sinto um total desânimo. Este é meu país. Claro que, em seguida, abro o Face.

Entre mensagens de todos os tipos, fixo a atenção nas enviadas pelos senhores políticos reclamando de prefeitos, governadores e da presidente. Com humor duvidoso, respondo que eu apoio suas opiniões, aviso que estou ao lado deles para protestar. E pergunto o que eles estão fazendo nas suas respectivas casas parlamentares. Avisaram o Ministério Público? Que ações foram feitas a favor da população? Não tenho respostas. E, afinal, lembro que os elegi para eles lutarem por nós nos convocar para confrontos contra o poder maior. E nem para audiências públicas sou chamado. Mesmo estando pronto para ir às ruas.

Digo tudo isso para afirmar, finalmente, que me sinto impotente diante dos cenários político, econômico e social. Do Brasil e do Mundo.

Volto a citar Saramago: “quando não tiver mais nada a dar para a vida, comece a sair dela”. Sem muitas forças, diante deste panorama, começo a refletir se não está na hora de começar a sair do cenário, jogar a toalha, como se fazia nas lutas de boxe em que um dos contendores estava apanhando demais. Como diria meu querido amigo Emanoel Araújo, artista de rara sensibilidade baiana, “sei não”...