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Brasiliana

Índios no caminho da Copa

por Redação Carta Capital — publicado 17/06/2012 10h38, última modificação 06/06/2015 18h26
Nas imediações das obras do Maracanã, nativos tentam manter viva a sua memória
Aldeia Maracanã

Histórico. Representantes de várias etnias dividem as oito cabanas montadas na área do antigo prédio do Serviço de Proteção ao Índio, precursor da Funai. Foto: Dario de Dominicis

Por Francisco Alves Filho

É frenético o ritmo dos gigantescos caminhões e das centenas de operários empenhados em transformar o Estádio do Maracanã, na zona norte carioca, em arena high tech. Trabalham dia e noite nas obras para a Copa do Mundo de 2014 e, ao custo até o momento de 800 milhões de reais, preparam o tradicional complexo desportivo para ingressar no futuro.

Bem ao lado da megaempreitada há um espaço praticamente ignorado, onde o tempo parece correr no sentido inverso. Separados do estádio apenas por um muro, algumas famílias indígenas ocupam o velho prédio e o terreno onde há 102 anos foi criado o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), atual Funai. Vivem ali em ocas de pau a pique, se alimentam de raízes e pescado, realizam cultos ancestrais e ensinam o tupi-guarani. “Queremos que esse espaço volte a abrigar o Museu do Índio”, explica o cacique Carlos Tucano, de 52 anos, um dos pioneiros da ocupação iniciada em 2006.

A não ser pelos desenhos indígenas pintados no muro, não há qualquer indicação de mobilização naquele lugar. Milhões de habitantes da cidade passam por perto diariamente, na movimentada Avenida Radial Oeste, certos de não existir ali mais que um prédio de dois andares em pré-ruína, a ponto de desabar. Se não chama a atenção em sua própria terra, o abandono do prédio e a luta dos indígenas que ocupam o lugar foram tema de discussão em Genebra, onde integrantes da ONU pediram que o avanço das obras da Copa não represente o despejo do grupo. Vários daqueles índios tomarão parte dos debates da Rio+20, a partir de 15 de junho no Acampamento Terra Livre. No evento, vão tentar chamar a atenção da população para a causa, mas não se mostram muito otimistas quanto ao resultado.

São várias as tribos nas oito cabanas. Ao melhor estilo de uma comunidade indígena, a comida é preparada num fogão de barro e as refeições são feitas sob uma choça armada com troncos de árvores e folhagem, nos fundos do prédio antigo. O valor histórico da edificação não tem a ver apenas com sua arquitetura art noveau ou com o fato de ter abrigado um importante órgão governamental. A história realmente aconteceu entre aquelas paredes. O primeiro presidente do SPI foi nada menos que o marechal Cândido Rondon e do local partiu uma de suas importantes expedições rumo à Amazônia, em conjunto com o então presidente dos EUA Theodore Roosevelt. Foi ali também que Darcy Ribeiro idealizou o Parque Indígena do Xingu. Apesar disso, governantes e torcedores concentram suas atenções nos 180 mil metros ocupados pelo Maracanã, de olho no cronograma das obras, e ignoram por completo o pequeno enclave indígena de apenas mil metros quadrados. Não há pronunciamentos oficiais sobre o caso. “Querem nos vencer pelo cansaço”, acredita Dauá Puri, encarregado de cuidar do centro cultural da ocupação. Como os outros, ele usa a etnia como sobrenome.

Na ocupação, o número de moradores é sempre flutuante. Existem 25 índios no lugar ou frequentando diariamente, mas são comuns os encontros de diversas etnias. Em alguns sábados, há visitação de alunos e professores universitários e outros poucos interessados – nessas ocasiões é servido um peixe, levado ao fogo na folha de bananeira. Após a refeição, os índios explicam aos visitantes o motivo da ocupação. “Por muitos anos, esse prédio ficou abandonado. Por isso resolvemos ocupar e revitalizar o espaço”, explica José Guajajara, 51 anos, um dos mais articulados. “Aqui funcionou o Museu do Índio até ser levado para a zona sul e queremos trazê-lo de volta. O que existe lá é museu de fotos, aqui é museu de fato.” Pensam também em criar uma universidade indígena. Na esfera judicial, há uma ação em curso para mantê-los no local. Quanto à negociação para a volta do museu e reforma do prédio, não houve ainda qualquer posição do Ministério da Agricultura, responsável pelo imóvel.

Foi com as próprias mãos e com o apoio da mulher, Potira, dos quatro filhos – três meninas e um menino – e das sobrinhas que José Guajajara construiu a oca da família. Divide-se entre a oca e uma residência em Tomaz Coelho, subúrbio do Rio de Janeiro. Dá aulas de tupi no Instituto Superior de Educação e eventualmente leciona na própria ocupação. Seus filhos se comunicam na língua ancestral, mas Guajajara luta contra adversários desleais para manter o interesse dos adolescentes. “Alguns amigos deles riem, acham mais familiar o inglês das músicas ouvidas no MP3 ou dos textos lidos na internet.” A família tenta manter outros antigos hábitos. Volta e meia, sobe nos pés de jenipapo da ocupação e colhe frutos para a pintura corporal. Escolhe principalmente os mais maduros. “Basta misturar com carvão e pintar”, ensina. A tintura permanece no corpo por 20 dias.

A convivência de diferentes povos indígenas na Aldeia Maracanã produziu fenômenos antropológicos interessantes. A índia Vangri e o índio Guarapirá são casados e procuram recursos para manter a mobilização com a venda de peças artesanais feitas de materiais como bambu, cabaça, madeira e casca de coco.

Na época em que seus antepassados viviam na floresta, a união dos dois dificilmente aconteceria. A moça é da etnia caingangue, conhecida pelo espírito guerreiro e adversária natural da etnia dele, a pataxó. “Ela é brava, mas nos damos muito bem”, brinca o rapaz. Vangri é autora de livros infanto-juvenis, cujas histórias procuram transmitir aos jovens as tradições de seu povo. Acabou de passar no vestibular de Agronomia e tem planos bem definidos para usar o diploma. “Vou trabalhar na demarcação de terras indígenas. Também vou ajudar no plantio de espécies que sirvam ao artesanato do índio.”

O grupo resiste em meio às condições precárias do prédio e luta contra a falta de recursos: custeiam tudo com as escassas doações dos simpatizantes. Para o cacique, a realização da Copa não ajudará a dar visibilidade à causa. “Vão colocar tapumes e esconder o prédio dos turistas. Isso, se não pensarem em nos expulsar”, acredita Tucano.

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