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Indiferença, linguagem universal

por Matheus Pichonelli publicado 08/07/2011 17h29, última modificação 11/07/2011 16h26
“A Missão do Gerente de Recursos Humanos” se apresenta como comédia, mas leva espectador a refletir sobre hipocrisia das relações humanas diante da morte e da dor. Por Matheus Pichonelli
Indiferença, linguagem universal

“A Missão do Gerente de Recursos Humanos” se apresenta como comédia, mas leva espectador a refletir sobre hipocrisia das relações humanas diante da morte e da dor. Por Matheus Pichonelli

Pegue uma van, coloque no banco de trás um jovem antissocial ao lado de um caixão e deixe perto da direção um pai em busca do equilíbrio entre trabalho e vida familiar. Depois, mande todos seguir por estradas inóspitas numa viagem desgastante, cheia de percalços, da qual ninguém nunca mais voltará igual.

A fórmula funciona do início ao fim em “Pequena Miss Sunshine”, bem-sucedido drama que se torna comédia dirigido pelo casal Jonathan Dayton e Valerie Faris.

Em “A Missão do Gerente de Recursos Humanos”, de Eran Riklis, o caminho é inverso. No longa, até mesmo o pôster parece montado para fazer o espectador rir. Os personagens, como são apresentados, parecem caricatos até pela verossimilhança: um gerente de RH de uma panificadora em Israel que quer e não consegue se livrar de um problema; um jornalista sedento de sangue e polêmica para sustentar um furo – e disposto a infernizar a vida do gerente; uma consulesa ninfomaníaca incapaz de dar suporte aos conterrâneos que vão parar na fria e distante Romênia; e o marido da consulesa, que mal sabe conversar com os visitantes, e bebe do instante em que acorda até a hora de dormir.

Todos tentando domesticar um jovem de 16 anos que mais parece um cavalo solto a distribuir coices em quem dele tenta se aproximar. Parece piada, mas não é: todos estão na mesma van, na mesma viagem Romênia afora, porque a mãe do rapaz, Yulia Petracke, acaba de morrer num atentado suicida em Israel. Seu corpo passou três dias à espera de identificação num necrotério e levou um repórter de um jornalzinho marrom local a escrever um artigo explorando a suposta insensibilidade da empresa em que a imigrante romena trabalhava. A empresa, afinal, era o único elo da vítima com o País.

A missão do gerente, exposta no título, é então minimizar os danos para a imagem da empresa. E levar a salvo (se é que é possível) o corpo de Yulia até sua família.

É desta forma que Riklis faz da imigrante morta a grande personagem do filme sem que ela apareça em uma cena sequer – com a exceção de um vídeo gravado pelo filho em sua última visita ao país de origem.

O constrangimento da missão delegada ao gerente – ele em si um fracasso como pai, marido e arrivista profissional – chega ao pico à medida que sai distribuindo dinheiro, às custas da empresa, para que tudo seja feito da forma mais rápida e indolor possível. A burocracia para o translado, que leva todo mundo à mesma van que vai cruzar a Romênia em direção ao povoado onde Yulia nasceu, soa como tragicomédia, mas não tem graça nenhuma. Por trás da missão, e dos percalços da missão, está um filho inconformado com o destino que se apresenta. O único entre todos que sente e é ainda capaz de chorar.

Ao criar situações constrangedoras, em que é necessário esforço para não rir, Riklis parece brincar com a própria capacidade do espectador de desdenhar a morte. Condolências, indenizações e queixas fazem parte da vestimenta oficial, incorporada pelo chefe dos recursos humanos (sic). Mas o fato é que nem o gerente nem a dona da empresa nem o repórter nem os funcionários do consulado israelense faz a menor ideia de quem era a funcionária que em vida era invisível e, na morte, passa a ser estorvo.

Sem que se perceba, o filme passa em voo rasante sobre as questões que assolam os tempos atuais – terrorismo, imigração, relações precárias de trabalho, corrupção, fragmentos de vidas familiares – para contar o saldo da indiferença do próprio espectador em relação à vida.

A capacidade de sentir e fazer a coisa certa sem o intermédio da etiqueta oficial é que está em jogo. Porque, como os espectadores, cada um dos personagens acredita de fato ter algo melhor para se preocupar além daquela convenção: a viagem da filha que o chefe de RH não vai acompanhar; a foto de um enterro e das lágrimas de familiares que vão vitaminar o trabalho do repórter; o medo da má fama que toma conta da dona da panificadora.

Num determinado momento, no meio da viagem, os aventureiros são parados por policiais de uma cidadela que interceptam o veículo, sem licença havia cinco anos para rodar; de quebra, descobrem que a ordem para enterrar o corpo expirou e que todos podem ser processados por violação de cadáver. A solução, ordenada pela autoridade policial, é providenciar o enterro na localidade mesmo, num local onde vítima e familiares não têm laço algum, e encerrar de vez a questão. Depois de tanto trabalho, parece uma decisão razoável, um alívio para os visitantes israelenses que não entendem a decisão proferida na linguagem romena. Por meio de um inglês sofrível, o policial avisa: “Não importa onde ela seja enterrada. Ela não se importa mais”. Faltou alguém que questionasse: e o que fazer com os vivos, cara pálida? (Porque a indiferença é a única ali que não pode ser enterrada).

É quando a comédia se torna drama, numa virada arriscada até mesmo para os mais habilidosos diretores de cinema: em inglês, romeno ou hebraico, a indiferença é linguagem universal, e a morte, o único elemento que liga personagens tão distintos. A forma como lidar com ela é que os diferencia – e a isso nem os espectadores, os que foram incapazes de rir ou chorar, ficam imunes ao longo do filme.