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Cultura

Imaginário oriental

por Orlando Margarido — publicado 21/07/2010 15h13, última modificação 28/07/2010 10h39
Uma face pouco vista de Guignard em exposição

Uma face pouco vista de Guignard em exposição

Acerca da pintura Bambus, de 1937, o crítico Frederico Morais atentou certa vez à antecipação por Alberto da Veiga Guignard de um orientalismo que se assumiria na série das “paisagens imaginárias” dos seus últimos anos de vida. Para a estudiosa Lélia Coelho Frota, que as prefere chamar de “imaginantes”, a obra do pintor fluminense carrega o legado das culturas oriental e ocidental. De modo mais pontual, o professor e curador Tadeu Chiarelli uniu Guignard (1896-1962) ao gosto de Raoul Dufy, por conta de uma mostra do fauvista francês há uma década, e lembrava o grafismo e as manchas comuns a ambos.

Não é de hoje que a história da arte brasileira se detém sobre a visão mais ao oriente do artista, conhecido pelos balões juninos e pelas igrejinhas das Minas Gerais, onde se radicou. Figuras essas “em suspensão, sem solo ou pontos de apoio firmes (...), um mundo nublado e tristonho”, no dizer de outro especialista, Rodrigo Naves. Mas essa aproximação apenas agora é demonstrada de modo incisivo em Guignard e o Oriente – China, Japão e Minas, que o Instituto Tomie Ohtake inaugura na quarta-feira 23.

Para a tarefa, a curadoria de Paulo Herkenhoff e Priscila Freire solicitou vertentes tradicionais da arte japonesa, como as gravuras do Ukyio-e, objetos, móveis e documentos. No caso das primeiras, é apontado o impacto sobre trabalhos da fase do Jardim Botânico, onde Guignard morou, no Rio, determinado pela adoção do efeito da treliça tão característico daquele gênero. Nomes esquecidos e de carreira contemporânea a do pintor também são lembrados. Um deles é o calígrafo e pintor chinês Zhang Daqian (1899-1983), que se estabeleceu em São Paulo entre os anos 50 e 70.

Seus trabalhos ao lado das 45 pinturas do colega nascido em Nova Friburgo, além de pouco vistos, contextualizam a herança oriental deste segundo. Antes captado na Europa, o estilo artístico daqueles países foi influente para Pablo Picasso, Henri Matisse e Maurice Utrillo, artistas que Guignard prezou quando lá estudou na década de 20. Os indícios com que se pretende estabelecer uma prova desse processo estão, no entendimento dos curadores, no caráter decorativo de temas prediletos do pintor, nas paisagens verticalizadas, na disposição sem perspectiva ou no recurso da flutuação e da gravidade visível nas telas. Mas também, como dado de um universo mais amplo, nas referências chinesas presentes nas igrejas  mineiras, documentadas em fotografias para a mostra.

Serviço:
GUIGNARD E O ORIENTE – CHINA, JAPÃO E MINAS
Instituto Tomie Ohtake
São Paulo