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Imagens com a missão de dizer

por Rosane Pavam publicado 02/03/2011 17h25, última modificação 02/03/2011 17h35
A arte fotográfica de Juan Rulfo se aproxima das palavras que ele consagrou. Suas figuras inspiradas na natureza são algo humanas, e exibem grande qualidade dramática.
Imagens com a missão de dizer

A arte fotográfica de Juan Rulfo se aproxima das palavras que ele consagrou. Suas figuras inspiradas na natureza são algo humanas, e exibem grande qualidade dramática. Por Rosane Pavam

A arte fotográfica de Juan Rulfo se aproxima das palavras que ele consagrou

Só conheci a morte”, disse certa vez o escritor mexicano Juan Rulfo (1917-1986), levado em entrevista a definir a infância. A tragédia abatera seu pai, assassinado, e a mãe, morta inconsolável quatro anos depois, quando o menino contava 10 anos de idade. Ele passou a viver com a avó materna em San Gabriel, no estado de Jalisco, paisagem de vilarejo que sua imaginação saudosa nunca abandonou. Na segunda metade da década de 1940, aquele que seria um dos grandes escritores latino-americanos, tendo à mão um carro, viu-se a certa distância do povoado para trabalhar com um parente em uma fábrica de pneus. Viajar equivaleria em parte, desde então, a fotografar.

No belíssimo 100 Fotografias – Juan Rulfo, organizado por Andrew Dempsey e Daniele de Luigi, um volume que a Cosac Naify acaba de editar (140 págs., R$ 100), Rulfo revela ser um fotógrafo de grande qualidade dramática, que narra em preto e branco diante da paisagem, como no Autorretrato no Nevado de Toluca, feito na década de 40. Sua compreensão da vida e da morte dos povoados o faz representar os monumentos ora em ruínas, ora crivados de balas. Há um forte sentido de contraste entre luz e sombra, e as construções são solidamente delineadas, como se expressassem o seu volume real. O sol arde todo tempo naquele México antigo.

E mesmo suas expressões da natureza, cachoeiras, cactos, árvores mortas sobre a areia, seguidas de urubus em pose imponente, parecem esperar o momento de dizer. Suas fotografias falam, como se ele as escrevesse. Os críticos e especialistas em sua obra, como Andrew Dempsey e Daniele de Luigi, autores desse volume, tendem a firmar que Juan Rulfo desenvolveu a fotografia e a literatura de maneira paralela, ainda que ambos tivessem um substrato comum, a realidade mexicana. Pode-se admitir que a literatura não é complemento de sua fotografia, nem a fotografia a ilustração de sua literatura, mas há um tom literário em tudo o que ele registra, ademais eivado de solidão, às vezes de constatações sobre a morte.

Rulfo começou a publicar fotos na revista América, em 1949, e seguiu a registrar Guadalajara entre as décadas de 1950 e 1960. No entanto, era pouco conhecido como fotógrafo em 1980, ano em que foi inaugurada sua grande mostra no Palacio de Bellas Artes da Cidade do México, acompanhada do catálogo Homenaje Nacional. A repercussão foi expressiva e a partir daí se começou a falar de Rulfo também como fotógrafo. Em 1983, Homenaje Nacional originou o livro Inframundo, em formato reduzido, com versões paralelas em inglês e espanhol, no qual foram suprimidas algumas fotos e acrescentadas outras, em um total de 96.

De Luigi é quem considera a contribuição de sua fotografia à sua arte de escritor, na introdução a 100 Fotografias: “Ele fotografava dizendo que não era fotógrafo, e legou imagens maravilhosas que encerram, invioláveis, todo um universo de palavras. É isto que a fotografia sabe fazer: dirigir e fixar nosso olhar sobre as coisas, evocando pela memória, sem que seja possível enunciá-los, todos os significados potenciais que elas ocultam. Na fotografia, Rulfo encontrou talvez a verdadeira dimensão do silêncio”.